EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A economia verde e a mudança da lógica de produção capitalista

O desafio pedagógico de reunir sinergicamente: Tecnologias Sociais, Economia Verde, Agroecologia, Agricultura Familiar e Cooperativa

Marcel Menconi - Setembro 2013 - Edição 137

O Prof. Dr. Enrique Ortega da Faculdade de Engenharia de Alimentos da UNICAMP, ligado ao Laboratório de Engenharia Ecológica e Informática Aplicada.

O Prof. Dr. Enrique Ortega da Faculdade de Engenharia de Alimentos da UNICAMP, ligado ao Laboratório de Engenharia Ecológica e Informática Aplicada, trouxe para o debate do Fórum “Tecnologia Social e os conceitos de Economia Verde: propondo convívios possíveis ...e desejáveis”, o tema: “O desafio pedagógico de reunir sinergicamente: Tecnologias Sociais, Economia Verde, Agroecologia, Agricultura Familiar e Cooperativa”. O evento aconteceu no mês de agosto em Campinas e o Jornal Pires Rural vem abordando em cada edição os temas discutidos.autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Como o professor Ortega definiu o Fórum de Tecnologia Social procura fazer a interação entre campos do conhecimento com potenciais de integração por isso propôs abordar “o desafio pedagógico de reunir sinergicamente: Tecnologias Sociais, Economia Verde, Agroecologia e Agricultura Familiar e Cooperativa”. Para retratar o cenário da humanidade hoje, foi-se necessário, nos debates, voltar historicamente e assim fez professor Ortega. “Hoje, em vez de economias regionais autosuficientes e sustentáveis, sofremos com a “modernidade capitalista”. O que seria isto? É um projeto mundial de dominação que surgiu na Espanha em 1492 para expulsar aos árabes e os judeus da península ibérica e depois, aplicou-se na conquista da América”. Esse modelo eurocêntrico adotou a "ética de negar os outros”, começando pelos árabe e judeus e depois os indígenas e assim por diante. “Esse raciocínio lhe permitiu destruir, sem piedade, o meio ambiente e as culturas humanas, chamado de Mercantilismo que evoluiu para o Capitalismo Industrial, surgido no século XVIII graças ao acúmulo de capital obtido no saqueio da América (ouro, prata, madeira), pelo aumento da demanda de manufaturas, pelo trafego de escravos, pela desapropriação das áreas comunais e ao êxodo rural, pela adoção de tecnologias da China (navegação, aço, impressão gráfica ) e pelo uso da máquina a vapor na extração de carvão nas minas”, exemplificou.autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Economia ecológica
Voltando ao nosso tema: integração entre tecnologia social, economia verde, agroecologia e agricultura familiar, vamos pensar que existe uma boa razão para fazer essa articulação. Na opinião do professor Ortega, a economia verde proposta pelo capitalismo é uma forma de iludir as pessoas, esses temas estão dentro da filosofia do capitalismo. Propõe-se outra plataforma, para isso é necessário saber o que cada um desses campos de conhecimento estuda e atuam. Achar os meios adequados de fomentar novas formas de organização e estruturação para um trabalho em comum. Ele diz; “precisamos produzir conhecimentos longe da ótica do mercantilismo eurocêntrico, precisamos de uma epistemologia descolonizadora e auto-organização para dar uma integração entre os temas. Assim a economia verde passa a ser economia ecológica, solidária, as tecnologias sociais poderiam ser um mecanismo diferente de aplicação de pesquisas universitárias. A agricultura familiar poderia ser revista e planejada por bacias hidrográficas e pensado um planejamento integral de produção de alimentos, energia e serviços ambientais. A agroecologia poderia avançar e incorporar a ecologia de sistemas. E para dar início a esse trabalho a universidade poderia identificar e trabalhar com os grandes temas que afetam a humanidade hoje.autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Um problema grave e urgente
Professor Ortega alerta como obstáculo inerente a perda da resiliência do planeta (capacidade de se recompor) e coloca em risco o futuro de todas as espécies, incluído a nossa. “A civilização sempre esta em mudanças, tem modificado a cobertura vegetal do solo e a composição da atmosfera do planeta. A relação dos grupos humanos com a natureza varia entre a convivência ecológica até sistemas onde ocorre uma degradação predatória dos recursos naturais com perdas irreparáveis”, comenta e desafia: “será que a universidade tem condições de assumir o desafio da perda da resiliência planetária? Ela precisaria mudar seu projeto político-pedagógico. A UNICAMP conserva seu projeto desde a fundação, há 40 anos atrás”, assinalou.autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Efeito globalização
A ética do capitalismo tem a ver com o crescimento continuo. Esse sistema concentra a riqueza em poucos e finge que ignora o impacto que gera sobre o meio ambiente e a sociedade. Essa forma de funcionamento provoca crises, entre elas, a grave crise climática. As mudanças climáticas somado a perda da resiliência do planeta, o esgotamento de uso de recursos não-renováveis e o uso predatório dos recursos da natureza permitiu: o pico de crescimento continuo, o clímax, que é o momento no qual vivemos atualmente e depois o sistema terá o decrescimento. O projeto político pedagógico da universidade contempla apenas o período de crescimento. Faz-se necessário outro projeto político- pedagógico para enfrentar o desafio do clímax, o decrescimento e a homeostase (um novo ponto de equilíbrio). O professor explica; “houve o crescimento continuo, que é a visão antropocêntrica; a luta de classes; hegemonia do capital; crescimento da população; inovação apenas para o lucro; uso da água, de energia fóssil e mineral; imposição ideológica e militar e agora chegamos no clímax. Como sabemos que estamos no clímax? Porque se percebe o esgotamento de recursos de todos os tipos, a crise financeira, percepção das mudanças climáticas. Logo começará a acontecer o decrescimento. Haverá um ajuste dentro do capitalismo, que será insuficiente. Depois, uma crise social e para chegarmos no decrescimento vai ser necessário um empoderamento massivo, transformador e de boa qualidade. Teremos uma mudança para o eco-socialismo, mas não como objetivo mas como um projeto de transição, algo que podemos denominar de ruralização ecológica, que seriam as comunidades regionais, territórios sustentáveis e saudáveis e no final atingiremos a homeostase, que não é interessante mas recuperaremos a visão biocêntrica” apontou.autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Sementes lançadas, jardineiros que as tratem
Pra finalizar sua fala o Prof. Dr. Enrique Ortega expôs que a análise dos fenômenos gerados pela globalização exige uma abordagem científica que combine, simultaneamente: a análise sistêmica e pensamento crítico. Em cada campo de conhecimento teria que adotar esse enfoque para entender o mundo real, que é composto de sistemas sustentáveis e resilientes e também dos sistemas destruidores. Para aí sim, poder interagir sinergicamente, integrando as Tecnologias Sociais, Economia Verde, Agroecologia, Agricultura Familiar e Cooperativa. “É o desafio do projeto político-pedagógico. Temos que refletir, pois o que temos visto é um exemplo de que o capitalismo esta inserido destruindo a base de nossa sobrevivência” ressaltou.
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