DESENVOLVIMENTO RURAL

A grande carência que a agricultura tem
está na transferência de tecnologia

Com o tema, "Variabilidade das chuvas e uso racional da água na produção de hortaliças", o prof. Dr. Paulo César Sentelhas - Esalq/USP, falou para os agricultores presentes ao 6º Encontro de Produtores de Hortaliças, IBS, em Piracicaba e nos concedeu a entrevista a seguir;.

Edição 175 - Agosto 2015

agricultura de precisão
prof. Dr. Paulo César Sentelhas - Esalq/USP:"Temos diversos tipos de agricultores, os extremamente tecnificados e os agricultores que ainda fazem a irrigação "na ponta da bota"

Jornal Pires Rural: O tema consumo de água na agricultura não deve sair da pauta?
Prof. Sentelhas:
O tema água (como tema da palestra) foi evidenciado em função de que ocorreu o ano passado uma anomalia climática em que as chuvas no estado de São Paulo, depois de um longo período sem seca desde 1984/1985, ficaram muito abaixo do normal, gerando um impacto pra sociedade como um todo. O objetivo é sensibilizar os agricultores para racionalizar o uso e mostrar que muitas vezes o uso irracional da água leva à perdas de produtividade. Muitos não tem a noção de que se irrigar mais não vai produzir mais. Se gastar água em excesso vai resultar em perdas de produtividade. A variabilidade climática faz parte da vida deles porque o clima está variando constantemente. Dar conhecimentos básicos para os agricultores como excluir alguns mitos como o que é mudança de clima. O que ocorreu no ano passado voltará acontecer porque faz parte da variabilidade do clima. O agricultor que trabalha com cultura irrigada deve estar ciente de que alguns anos perderá produtividade porque não conseguirá irrigar adequadamente.

JPR: O que é agricultura de precisão?
Prof. Sentelhas:
Só o fato de você cultivar uma cultura que seja apta àquela região é uma precisão imposta no sistema. A tendência de um modo geral é partir pra ter cada vez mais o controle do que ocorre no campo e com isso racionalizar o uso dos recursos naturais. Falamos de água, mas na realidade são muitos outros recursos naturais que precisamos usar de forma racional.

JPR: Que tipo de controle básico o agricultor deve ter na produção?
Prof. Sentelhas:
O controle básico na agricultura é evitar culturas que não se adapta ao solo e clima, quando se parte para a produção em ambiente protegido há alteração do ambiente para conseguir resultados positivos na produção, se recorre à agricultura de precisão. Hoje, a maioria dos produtores que fazem uso de cobertura plástica (o chamado efeito guarda-chuva), requer monitoramento dos fatores internos por causa da irrigação, isso está relacionado a agricultura de precisão. A quantidade de adubação, o controle de doenças. Estamos saindo de uma era da "receita de bolo" para uma era em que tudo deve ser monitorado e decidido. O ponto chave que eu vejo da agricultura de precisão é a questão da tomada de decisão. Significa quando cada uma das atividades vai ser feita da melhor maneira possível de forma a minimizar gastos com energia, mão de obra, insumos, água. A definição de todos esses aspectos leva a uma agricultura de precisão.
Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Requer monitoramento dos fatores internos
A produção em ambiente protegido há alteração do ambiente para conseguir resultados positivos na produção

JPR: De que forma levar a inovação até a agricultura familiar?
Prof. Sentelhas:
É um desafio porque na realidade, temos diversos tipos de agricultores, os extremamente tecnificados que já adotam essas estratégias de agricultura de precisão e os agricultores que ainda fazem a irrigação "na ponta da bota". Eventos são muito importantes para conscientizar. Acho que um papel extremamente importante é o da Cati, como uma entidade de extensão rural para levar para agricultura a informação. Para que isso aconteça não basta somente o agricultor consciente, mas os próprios técnicos da extensão rural estarem em consonância, atentos a essas mudanças e se qualificando para poder transferir para o produtor o conhecimento. Não tem como as informações sairem direto das universidades e institutos de pesquisa diretamente para o produtor. Isso só ocorrerá se for um produtor altamente qualificado, tecnificado e que tenha a capacidade de buscar essa informação dentro da instituição de pesquisa. Na grande maioria das vezes precisaremos da extensão rural e infelizmente apesar do esforço muito grande dos colegas é uma área que recebe pouco incentivo do governo, mas dependemos muito deles nesse sentido. A grande carência que o setor agrícola têm é na transferência de tecnologia. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br

JPR: Os agricultores que não se qualificarem correm o risco de ficar 'no meio do caminho'?
Prof. Sentelhas:
Vai ocorrer uma seleção natural entre aquele agricultor que busca conhecimento e aquele que não se adapta ao novo. Aquele que não se adequar terá que cair fora porque vai aumentar muito o custo de produção e minimizar o ganho. Não conseguirá maximizar a produtividade. Os produtores que não se qualificarem não terão a capacidade de permanecer no sistema produtivo. É um processo gradativo. Não dá pra mudar o hábito de um produtor que faz irrigação "na ponta da bota" e fazer com que ele faça uso de tecnologia de ponta. O produtor terá um longo caminho a percorrer. A mudança tem que ser uma demanda do produtor. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
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