BIOPOLÍTICA E EDUCAÇÃO

A infância é uma invenção dos adultos

Até pouco tempo atrás nós não tínhamos infância. Hoje, a infância traz a possibilidade da legalização das crianças como crianças como modos inventados e construídos sem perguntar para as crianças o que é ser criança.

Edição 186

Biopolítica e educação: novos dispositivos de  subjetivação

Ao microfone, Prof. Silvio Donizetti de Oliveira Gallo da Faculdade de Educação da Unicamp

O II Seminário Internacional sobre Infâncias e Pós-Colonialismos, Pesquisas em busca de Pedagogias Descolonizadoras, aconteceu na Unicamp, no final de 2015. O Professor Dr. Silvio Donizetti de Oliveira Gallo da Faculdade de Educação da Unicamp trouxe uma visão filosófica sobre o tema, a Biopolítica e Educação: novos dispositivos de subjetivação. Sua experiência na área de educação, tem ênfase em Filosofia da Educação, possuindo graduação em Filosofia pela PUC de Campinas, mestrado e doutorado em Educação pela Unicamp.

De certo modo, demorou para as Ciências Sociais e Humanas focassem a criança e a infância como objetos centrais de suas pesquisas. Demorou ainda, para que as pesquisas considerassem em suas análises as relações entre sociedade, infância e escola, entendendo a criança como sujeito histórico e de direitos. A análise da produção existente sobre a história da infância permite afirmar que a preocupação com a criança encontra-se presente somente a partir do século XIX, tanto no Brasil como em outros lugares do mundo.

A falta de uma história da infância e seu registro historiográfico tardio são um indício da incapacidade por parte do adulto de ver a criança em sua perspectiva histórica. A infância é um fenômeno histórico e não meramente natural, e as características da mesma no ocidente moderno podem ser delineadas a partir da dependência e da obediência do adulto em troca de proteção. A relação de poder do adulto sobre a criança é a colonização da criança.

"O projeto colonial moderno para além da colonização territorial produziu outras colonizações, uma delas é a colonização da infância. Muito se fala sobre a conformação da infância pela pedagogia moderna pois, é a pedagogia que produziu o que chamamos de infância. Coloniza-se a infância nas escolas mas também se coloniza a infância nas igrejas, famílias, ruas, mídias. Colonizar a infância é produzir uma imagem que define o que é a infância, o que não é a infância e o que não pode ser. A infância é uma invenção dos adultos pois, as crianças nunca disseram o que é ser criança. Se disseram, não foram ouvidas. Os adultos pensam as crianças e pensam pelas crianças. Adultos dizem o que é ser criança. Essa ideia de colonização da infância portanto é uma invenção", revela Gallo.
Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Professor Dr. Silvio Donizetti de Oliveira Gallo da Faculdade de Educação da Unicamp

Componentes da mesa no II Seminário Internacional sobre Infâncias e Pós-Colonialismos, Pesquisas em busca de Pedagogias Descolonizadoras, aconteceu na Unicamp


Até pouco tempo atrás nós não tínhamos infância. Hoje, a infância traz a possibilidade da legalização das crianças como crianças como modos inventados e construídos sem perguntar para as crianças o que é ser criança. "Se ouvíssemos as crianças sobre o processo educativo colocaríamos tudo abaixo, pois, as crianças dizem mas, não são ouvidas porque não somos capazes de entender a língua das crianças, impondo o tempo todo a elas para que se comuniquem na nossa língua. Compreendemos o processo educativo como a possibilidade da criança sair do seu próprio universo para entrar no mundo adulto. O papel da educação é transformar crianças em adultos. Há algo mais colonial do que isso? ", pergunta Gallo.

Até pouco tempo atrás nós não tínhamos infância. Hoje, a infância traz a possibilidade da legalização das crianças como crianças como modos inventados e construídos sem perguntar para as crianças o que é ser criança. "Se ouvíssemos as crianças sobre o processo educativo colocaríamos tudo abaixo, pois, as crianças dizem mas, não são ouvidas porque não somos capazes de entender a língua das crianças, impondo o tempo todo a elas para que se comuniquem na nossa língua. Compreendemos o processo educativo como a possibilidade da criança sair do seu próprio universo para entrar no mundo adulto. O papel da educação é transformar crianças em adultos. Há algo mais colonial do que isso? ", pergunta Gallo. A vida era relativamente igual para todas as idades, ou seja, não havia muitos estágios e os que existiam não eram claramente demarcados. Antes do século XVI, a consciência social não admite a existência autônoma da infância como uma categoria diferenciada do gênero humano. A história posterior mostrará que a infância pagará um preço muito alto por esta nova centralidade social, a incapacidade plena (socialmente, mais tarde também jurídico) e, no melhor dos casos, converter-se em objeto de proteção e repressão. A colonização criou um dispositivo, uma ordem de infância que impõe formas de ser criança. "Por dispositivos entendemos como um conjunto heterogêneo disposto numa forma de uma rede que engloba discursos e pensamentos, institui leis e instituições de administração, proposições filosóficas e verdades científicas, máximas morais e máximas religiosas. O dispositivo se constitui justamente pelos laços através dos quais se liga os elementos que em princípio não possuem relação entre si. O dispositivo dá coesão a todos esses elementos que em princípio não tem relação. O dispositivo tem sempre uma função estratégica respondendo a uma problemática que emerge numa determinada época histórica, constituindo-se como uma formação discursiva, legal, administrativa, epistêmica, moral.

O dispositivo desenha e possibilita um jogo de poder entre seus vários elementos e os sujeitos neles implicados, então, o dispositivo da infância engloba discursos sobre a infância, instituições que tratam da infância - a arquitetura dessas instituições, Leis como Estatuto da Criança e do Adolescente, políticas no campo da educação voltadas para a infância, proposições filosóficas, verdades científicas sobre a infância, verdades religiosas e morais sobre a infância. O dispositivo de infância junta tudo e organiza em funcionamento essa multiplicidade de elementos sobre a infância. Isso elucida esse jogo de relações, o jogo de poderes que se faz desses múltiplos elementos possibilitando a constituição desse discurso sobre infância e dessa ação sobre. Mas também permite que nos coloquemos dentro desse jogo de poder e interfira", observou Gallo. Desta forma, o dispositivo que é colonizador, por outro lado possibilita aos adultos uma ação de colonizador. O dispositivo coloniza e permite que o adulto se coloque no processo como colonizador. O dispositivo de infância nos faz ser o que somos, nos constitui subjetivamente como crianças ou adultos pois através deste e de outros dispositivos que nos tornamos sujeitos. "É apenas nele e por meio dele que podemos pensar, agir, sentir, ser num procedimento de subjetivação. Nós somos constituídos como sujeitos numa rede de dispositivos e talvez o campo da educação escolar, o mais atuante na constituição de cada um de nós sujeitos do dispositivo infância", afirma Gallo.

Os adultos impõe às crianças esses modelos e esses processos de subjetivação. A infância é tomada como uma realidade em si mesmo e não como uma multiplicidade de fatores e uma enormidade de efeitos. Todo pensamento produzido historicamente, foi feito tomando a infância como fenômeno, como uma realidade em si mesmo. "Pensar a infância como um fenômeno moderno, como um aspecto da modernidade é pensar a produção no campo da pedagogia. A pedagogia moderna constitui-se do dispositivo de infância e por meio dele tornando-se um dos principais nós de sua rede, estudar a criança, definir suas fases de crescimento, de desenvolvimento e de evolução, criar técnicas de eficiência, produzir os saberes que embasam e fundamentam essa prática. É pela tecnologia do exame, das provas, avaliações que a pedagogia pôde se fazer ciência. A pedagogia examina, mede, metrifica. Não é por acaso que a pedagogia tenha ganho os contornos da biopolítica, organizado em fortes políticas públicas, gestadas e geridas em torno da definição de avaliações e classificações", avalia Gallo. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Somos todos subjetivados como cidadãos para que possamos ser devidamente governados e controlados, é nesse contexto que se pode entender a figura do pequeno cidadão, um ser de direitos, alvo das ações do governo desde a mais tenra idade. Nosso País é centrado na cidadania, a Constituição permeia toda construção de políticas públicas no Brasil desde final década de 1980. Somos cidadãos, temos direitos constitucionais para ser governados, com aspectos positivos e negativos, pois disso, ganhamos cidadania real, espaço de atuação e de vida, mas também, de controle. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
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