CIÊNCIAS POLÍTICAS

Democracia e desenvolvimento econômico

Fernando Limongi, professor titular, Doutor em Ciência Política, membro da University of Chicago, no Departamento de Ciência Política, esteve no Ciclo de Palestras em Ciências Políticas na Esalq / USP. O evento é uma iniciativa da equipe de Microeconomia Aplicada (EMA/Esalq) e do Núcleo de Estudos Comparados e Internacionais (NECI/FFLCH) que busca trazer professores e pesquisadores de renome internacional nos estudos da Ciência Aplicada para realizar palestras na universidade.

Edição 188 | Limeira, Março de 2016 | Ano XI

Fernando Limongi, professor em Ciência Política

Variáveis: Regime político; democracia e não democracia versus Crescimento econômico; desenvolvidos e não desenvolvidos. Pobreza causa regime autoritário? Ser democrático gera riqueza? Essas relações são possíveis?


O tema democracia e desenvolvimento econômico são atualmente da mais alta relevância em nosso país. Democracia e desenvolvimento econômico é pesquisado com muitas hipóteses e teorias sobre qual é a relação entre Desenvolvimento e Democracia, e uma possibilidade de tratar regime político e crescimento econômico é pensar que o regime político é quem determina crescimento econômico. Regime político entra como a causa ou variável independente e crescimento econômico aparece como a variável dependente ou resultante, ou seja, fazer da variação de regime político para explicar desenvolvimento econômico. A outra possibilidade é pensar que o desenvolvimento é a variável independente ou a variável explicativa e que a democracia é o resultado do desenvolvimento ou os tipos de regime variam conforme ocorre o desenvolvimento. Desta forma a relação acaba sendo circular.

Se olharmos os países do mundo, qual é a relação que vai emergir como a mais forte entre regime político e desenvolvimento econômico? Se olharmos um país desenvolvido, que tipo de regime se espera que tenha? "Ao compararmos África e Europa, América do Norte e América do Sul, como um fato, se formos examinar encontraremos uma associação muito forte entre regimes autoritários ou não democráticos e subdesenvolvimento e atraso econômico tendem a serem autoritários ou não democráticos. Países ricos tendem a serem democráticos. Se classificar os regimes em desenvolvidos e não desenvolvidos, democracia e não democracia, encontrará essa relação. Isso não quer dizer que pobreza causa regime autoritário, e porque ser democrático gera riqueza. Essas relações são possíveis", explica Limongi.

Quem cresce mais? Democracia ou regime autoritário? Se compararmos os regimes autoritários com os regimes democráticos quem é que cresce mais? "Quando se faz esse tipo de pergunta não se compara simplesmente um regime autoritário com um regime democrático. É preciso ter controles para saber que os dois regimes comparados são em tudo ou mais que não o regime iguais, tudo depende da definição de democracia, como se classifica o regime. O regime autoritário brasileiro justificou-se por muito tempo, no interior desta expectativa, de que é preciso um regime autoritário para crescer", observa Limongi.

Se é um país subdesenvolvido e quer se tornar membro do clube do primeiro mundo tem que pagar um preço, o de adotar um regime autoritário. A explicação é de que o regime autoritário detém as demandas, diminui a pressão redistributiva dos trabalhadores sobre o investimento, então para crescer é preciso investimento, adiar consumo imediato, investir pra poder consumir no futuro. Regime autoritário seria uma etapa necessária para o crescimento econômico, uma teoria dos anos 70, que se reproduziu muito fortemente. A partir meados anos 80, uma nova ideologia, na fase final da Guerra Fria (conflito entre Estados Unidos e União Soviética) em que os Estados Unidos passam a valorizar a democracia como sendo a condição necessária para o desenvolvimento econômico, sobretudo com essa visão de que a democracia é mais eficiente ao crescimento econômico porque ela protege o mercado, protege a livre iniciativa. E a livre iniciativa, a capacidade dos empresários investirem e terem segurança de que terão retorno, como uma ação predatória do Estado. Um tema que está no interior do debate político, nas justificativas para a ação política, para a recomendação de políticas.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Fernando Limongi, professor titular, Doutor em Ciência Política, membro da University of Chicago, no Departamento de Ciência Política

"O regime autoritário brasileiro justificou-se por muito tempo, no interior da expectativa, de que é preciso um regime autoritário para crescer", explica Limongi.


Qual é o mecanismo que explica que um regime faz crescer mais do que o outro? Tão difícil fazer uma relação entre o macro, que é o tipo de regime, com algo que está acontecendo de forma descentralizada que é o desenvolvimento econômico. “Os problemas que temos quando estimamos essa relação são de duas ordens estatísticos e da definição. O que é de fato causado pelo regime e o que é de fato causado pelo desenvolvimento, isso não é fácil porque o mundo não produz essas observações aleatoriamente. É pegar os mesmos países nas mesmas condições comparar com situações democráticas e autoritárias e ver como cresceriam se fosse autoritário mas, se o país de comparação estiver com problemas, nunca achará o par. Cria-se um factual, como o Brasil estaria crescendo se fosse autoritário. Outro exemplo de tentativa de provar, é tirar média de crescimento, 1950 a 1990 com todos os países com dados econômicos (publicado uma base de dados) que tinha crescimento econômico comparativo entre os países, 4.370 casos. Cada caso é a combinação de um país e tirar a média de quem cresce mais no regime democrático ou regime autoritário, para este banco de dados econômicos produzido pelo Banco Mundial, democracia cresce um pouquinho mais", afirma Limongi. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Se fizer todo tipo de controle, essa vantagem do regime democrático (depois de 1987) mas, imagine o seguinte; que regime político não faz diferença no crescimento econômico. Crescimento econômico é uma reação aleatória, a médio, ao longo prazo repete a média, não faz diferença. “Mas imagine que as democracias são mais vulneráveis ao crescimento econômico de curto prazo, uma crise no regime democrático em um país mais pobre, a economia não cresce, apresenta crescimento negativo, esse regime democrático é mais vulnerável do que um regime autoritário. Vulnerável a ponto de sofrer uma crise econômica ele transita para um regime autoritário, enquanto regimes autoritários são mais imunes ao crescimento econômico. Então, independentemente do crescimento econômico a taxa de sobrevivência deles é relativamente estável, a taxa de sobrevivência do regime democrático é mais variável e mais dependente do desempenho econômico. Pense o que vai acontecer se acumular ao longo do tempo regimes democráticos e regimes autoritários, o que vai acontecer ao longo do tempo com 100 países, ao longo de 40 anos vai acumular regimes democráticos com boa performance e acumular regimes autoritários com má performance. Simplesmente porque a razão de sobrevivência tá ligada à taxa de crescimento, acumula regimes democráticos com bom desempenho e uma amostra sobre representada de regimes autoritários com mal desempenho e observar a realidade é aplicar todo tipo de controle possível e essa diferença vai persistir em favor da democracia mas não porque democracia cause o desenvolvimento econômico. Mas por um outro fator que o crescimento econômico afeta a sobrevivência. É isso que conseguimos provar porque essas condições podem ser simuladas", conclui Limongi.
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