INOVAÇÃO EM EDUCAÇÃO

Linguagem da comunicação e desafios educacionais

A tecnologia se tornou indispensável no nosso dia a dia pelo fato de incorporarmos como uma necessidade.

Edição 183 | Limeira, Dezembro de 2015 | Ano XI

Adilson Odair Citelli, professor da USP

Prof. Dr. Adilson Odair Citelli: A minha memória, meus sonhos, estão ligados à frases, circunstâncias, imagens da ordem da educação, do latim, francês, português, uma memória absolutamente conectada ao território da educação formal


Chega a ser angustiante pensar em não se adaptar ou dar conta do que a tecnologia acaba exigindo de nós. Não poderia ser diferente com as crianças, tampouco com a educação, enfrentar o desafio de trabalhar a educação formal em tempos de comunicação e mídias digitais. O assunto inovação na educação traz consigo mudanças de hábitos no uso das ferramentas em sala de aula. Contextualizar um pouco essa angústia foi o foco da palestra, “Linguagem da comunicação e desafios educacionais" do professor da USP Dr. Adilson Odair Citelli, no III Simpósio Internacional de Inovação na Educação, realizado na Unicamp.

Ao longo de 40 anos de profissão, Adilson Citelli, viveu cercado de pessoas que trabalharam no magistério. “A minha memória, meus sonhos, estão ligados à frases, circunstâncias, imagens da ordem da educação, do latim, francês, português, uma memória absolutamente conectada ao território da educação formal", conta.

O movimento Comunicação e Educação
Os processos de comunicação não só se aprofundaram, se ampliaram e ganharam velocidade nos anos 1970/80. “Num certo ponto do meu percurso na Escola de Comunicação e Artes, ECA, me coloquei a indagar como vincular a questão da comunicação com a educação. Nos anos 1930, o rádio tinha lá sua importância como formador de cultura - este é o ponto - vincular a comunicação no território das mudanças culturais - o rádio tinha um lugar histórico e cultural decisivo na cultura brasileira. Naquela época sujeitos como Anisio Teixeira, Edgar Roquette-Pinto, Fernando Azevedo, o pessoal da "Escola Nova", passaram a olhar para a presença do rádio como uma potencialidade educativa única num país rural, com 75% da população de analfabetos. Eles visualizaram a potencialidade que o rádio oferecia para uma população de tradição oral e uso da linguagem oral. Na cultura da oralidade, apenas 25% da população sabia ler. O grande escrito foi de Anisio Teixeira, com a primeira reflexão sobre a utilização do rádio como estratégia didático pedagógico de ensinamento”, conta.

Nos anos 1970 aconteceu a expansão do sistema de televisão. "Neste momento muda a experiência educacional das pessoas, vindo de muitos problemas com o conceito de ‘Rede Nacional' - um só canal falar ao mesmo tempo para Porto Alegre a Manaus, modelo inventado durante a Ditadura Militar, a televisão se coloca como segundo mecanismo de comunicação", explica. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
"Linguagem da comunicação e desafios educacionais "Prof. Dr. Adilson Odair Citelli-USP.

CARTAZ: Uma das pesquisas relevantes sobre inovação em educação aponta que inovações educacionais melhoram os resultados de aprendizagem. As inovações também poderiam ajudar a melhorar a equidade no acesso e aproveitamento da educação, bem como a igualdade nos resultados de aprendizagem. Com o tema central “ Inovação Pedagógica”, o LANTEC, promove o III Simpósio Internacional de Inovação em Educação, com a missão de “estabelecer uma relação de intercâmbio entre pesquisadores” contribuindo para o fortalecimento da pesquisa contextualizada nos aspectos Teóricos, Metodológicos, Didático e Práticas Inovadoras em Sala de Aula.


Nos anos 1990, a larga presença dos sistemas digitais, a comunicação medida com intermediação técnico (dispositivos de comunicação) e não de mídia ou meio. “Fui dando conta de que o raio de ação dos processos de comunicação foi se alargando tanto que já não havia mais segmento da vida e da existência que não fosse de alguma maneira afetado por esses sistemas e não poderia estar fora disso a educação, a instituição educativa, a educação formal. Desta forma, a relação comunicação-educação foi estreitando-se, muito próximo, de interface, interconexão. No final dos anos 1980, me fez pensar nessa questão de vincular comunicação e educação. Esse vínculo se dá com a Educomunicação, um curso de licenciatura criado há 5 anos na Escola de Comunicação e Artes da USP", explica.

Temos que enfrentar um problema novo do ponto de vista da educação formal. Se impôs por uma mediação cultural, mudanças no sensório no campo perceptivo, no campo cultural, que são evidentes. Das relações pessoais até uma transação bancária está dentro desse processo, promovendo alterações muito profundas. "Escola, Educação, Comunicação - um sistema complexo - um sistema de signos que alimentam essas linguagens, discursos pedagógicos, midiáticos, podem acionar conjuntos de signos e códigos muito distintos, sobretudo os mecanismos de comunicação podem fazer isso. A televisão forma signos porque dentro de um programa de televisão, no anúncio publicitário temos a combinatória de signos e códigos diferentes entre si, visuais, verbais, cores, coreografias - um sistema complexo", explica.

Trabalhar a comunicação na escola significa abrir um território com signos diferentes, potencializando as competências. "A escola tem requisitos diferentes para lidar com comunicação e educação, requisito conceitual, valores que não combinam sempre com a comunicação. Tanto para a escola como para os meios de comunicação e internet, o que a escola faz em última análise? Produz linguagem. Não produz objetos. Trabalha em conjunto simbólico como linguagem da matemática, da química, da física, das línguas, isso faz a educação formal potente", explica. Quanto à mídia, é necessário comprar o dispositivo, porque traz algo dentro, que faz uma relação alienada das pessoas com o objeto e também traz um mundo de linguagem. Comparado a compra de um CD, compramos as músicas que queremos ouvir. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
"A linguagem escolar é feita de palavras não só porque acionam signos e códigos, mas, porque a forma como nós (escola) trabalhamos também muda, de professor para professor, de classe pra classe. As passagens de linguagem entre educação, comunicação e escola são muito intensas, pois, hoje, vivemos em circunstâncias que o auto capitalismo requisita o nosso tempo de uma forma dramática, passamos a ter vergonha do descanso. O ideal americano é fazer a sociedade trabalhar 24h/ 7 dias da semana. A aceleração social nos faz pensar o que fazer com os nossos meninos (alunos) marcados pela dispersão e pela aceleração do tempo. Dentro da globalidade desse processo está a escola, a criança, a sala de aula, o professor. Hoje tudo deságua na escola, educação para o trânsito, noção de higiene, prevenção da dengue, dando a entender que tudo o que não dá certo, a escola resolve. Nesse pacote querem mandar pra escola a alfabetização midiática, o transliterar, os nomes são vários, o que não podemos de fato é ignorar a presença dos mecanismos educacionais", conclui.
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