LAICIDADE E INTOLERÂNCIA

Estado laico e sociedade religiosa

Magali Cunha, Programa de Pós-graduação em Comunicação da UMESP (Universidade
Metodista de São Paulo) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas

Edição 181

Magali Cunha da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo)

Magali Cunha, colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas

"Não é mais possível ignorar ou negar a visibilidade pública das religiões no tempo presente". Com essa afirmação, Magali Cunha, responsável pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas, iniciou sua fala no Fórum Laicidade e Intolerância, realizado na Unicamp. Segundo Magali, nunca na história deste País a religião esteve tão em evidência; seja no âmbito do cotidiano que é o motivo da religiosidade e também no plano das expressões da indústria cultural pelas mídias, produção e consumo de ideias, de entretenimento, constituição das próprias celebridades religiosas e na esfera da representação e da participação política institucionalizada ou não. "Esse contexto da mais visibilidade à pluralidade religiosa e a religião como componente que constitui entidades múltiplas, identidades plurais que marcam a sociedade contemporânea. Por isso se torna possível tanto a emergência de novas formas de comunicação e diálogo como as reações de violência e intolerância", afirmou.

Nos últimos anos, com a força da bancada evangélica no Congresso Nacional e particularmente com o segmento religioso pentecostal referente ao crescimento de espaço geográfico, midiático e político partidário. "Essa visibilidade pública passou a chamar mais atenção nos segmentos sociais em geral espalhando dúvidas e perplexidade. Entretanto é preciso reconhecer que há um lugar consolidado das religiões no espaço público brasileiro delineando formas na relação entre religião e política no País. Essa relação tem ido muito além da participação político partidário, temos de listar vários elementos, como exemplo, inúmeros programas sociais em parceria com o poder público, com Ongs, com movimentos sociais, presença de religiosos nas Comissões, nos Conselhos de Direitos, Políticas Públicas, Gestão de Políticas Sociais específicas”, constatou.

As atuações de grupos religiosos em redes de articulações em âmbito nacional, estadual e municipal de diversas outras frentes e episódios mostram essa força que vai sendo adquirida e consolidada.

Nosso maior desafio
"A relação entre religião e política não é nova, sempre existiu. Foi construída historicamente pela estreita relação entre religião e cultura, faz parte do cotidiano e também nas fronteiras entre público e privado nas diversas eras. A questão que se coloca no tempo presente é como se dá a relação de fronteira entre religião e política, ou seja, entre o público e o privado. A fronteira permanece mas é preciso compreender em que situações essa fronteira é ponte ou é muro, e, quando é entreluzam? A fronteira pode acontecer na bipolaridade público /privado, entre a religião e a política, entre dominantes e dominados. Aqui está o nosso maior desafio. Fronteira nem sempre é espaço de exclusão e conflito. A fronteira é também um espaço que se move os grupos minoritários, transitando entre passado e futuro. Entre o poder e o saber. Entre o ser e o sobreviver", revelou.

A presença da religião É possível observar a participação das religiões na economia como oferta de entretenimento religioso, turismo, lazer, e intensa presença em todas as mídias. "A presença nas demandas contemporâneas em torno das políticas culturais, do pluralismo, do consumo, dos movimentos sociais, de rede de articulação social, da política partidária, há presença das religiões sim e deve ser reconhecida seja ela avaliada de forma positiva, crítica ou relativizada, mas existe", afirma. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Brasil um estado Laico

Há um lugar consolidado das religiões no espaço público brasileiro


O Estado Laico está sempre sob ameaça O Estado Laico é uma construção. A laicidade do Estado é um processo. Não existem Estados totalmente laicos. Assim como não existem Estados totalmente democráticos. A democracia é um processo de construção social e política, o Estado Laico também é. "Nesse processo há avanços e recuos. O exemplo de avanço histórico e a aprovação do divórcio mesmo com a oposição da Igreja Católica Romana. Um exemplo de recuo é a intolerância, a religião versus política. Devemos considerar um equívoco a possibilidade da "bancada evangélica " colocar em risco a laicidade do Estado, porque esse processo é contínuo. O Estado Laico está sempre sob ameaça. Quando ocorrem retrocessos e atribuímos aos trabalhos e pressões da "bancada evangélica " seria limitar demais, pois, há uma condescendência midiática com os movimentos para privilegiar ao catolicismo e reacionários que partem da Igreja Católica em vários momentos como movimentos autônomos. Em outros momentos acontecem em parceria com a "bancada evangélica ". Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Desta forma, os evangélicos não estão sozinhos. "Podemos nos atentar para o movimento contra a inclusão temática de gênero no Plano Nacional de Educação, Estadual e Municipal. Nos atentar quanto a "guerra" contra os fundamentos que reforçam a intolerância e polarizações, levando à ampliação dos jogos de poder. Reduzir a reflexão sobre religião e política à política partidária, neste sentido, cria-se armadilhas com a afirmação de que existe um voto evangélico. Outro equívoco comprovado por pesquisas", concluiu. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
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