AGRONEGÓCIO DAS FLORES

Terra de negócios, terra de trabalho – a produção de flores em Holambra/SP

A elaboração argumentativa do texto de Juliana Dourado Bueno (Cientista Social. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos/SP), está pautada no uso de referencial teórico sobre os seguintes temas: terra como meio de trabalho e mercadoria; agricultura e capitalismo; e a complexidade de relações no espaço rural. Foram realizadas pesquisa empírica em propriedades produtoras de flores e plantas ornamentais (pequenas, médias e grandes) localizadas nos municípios paulistas de Artur Nogueira, Holambra e Santo Antônio de Posse; e entrevistas com trabalhadoras das estufas e com moradores que vivem em uma Associação de Agricultores Familiares.

Edição 164 - Janeiro 2015

Foto:Marcel Menconi

A terra que até então era um “espaço de vida”, com sociabilidades e relações sociais peculiares se transforma em “terra de negócio” por meio da mercantilização da natureza que há pouco era elemento constituinte da convivência entre grupos humanos. Se, por um lado, a terra perde seu protagonismo enquanto componente material de produção do rural, a emergência das estufas revela uma complexidade de situações que passam a compor o rural. As estufas simbolizam transformações com significados para além da implantação de novas técnicas agrícolas.

Localizado na Região Metropolitana de Campinas (RMC), o município de Holambra é o maior produtor de flores do Brasil. O destaque nacional está no fato de abrigar, em território latino-americano, a maior cooperativa de comercialização de flores, o Veiling, e a maior festa de celebração das flores e cultura holandesa, a Expoflora. Cenário propício para que a terra seja vista como um importante campo de investimento. A fertilidade do solo acaba tendo uma relevância secundária no processo de formação da renda do setor, isso porque a maioria das flores produzidas em Holambra cresce em ambientes protegidos – estufas. As estufas resultam do desenvolvimento de técnicas que buscam a diminuição do tempo de dependência dos ciclos naturais, sendo possível controlar em seu interior a temperatura e a intensidade de luz ideais para o crescimento das plantas.

Tecnologia Verde e Limpa
A cultura de flores e plantas ornamentais é desenvolvida a partir da aplicação de alta tecnologia na produção de sementes. Estão localizadas na região de Holambra, empresas, que comercializam ao produtor, material de propagação oriundo de sementes importadas de laboratórios de Chicago/Estados Unidos. Na busca pela chamada “tecnologia verde e limpa”, as empresas que trabalham com tecnologia e inovação de sementes propõem um aumento na produtividade por meio da racionalização de recursos (terra, água, mão de obra, fertilizantes e agroquímicos). Tal racionalidade é uma forma de eliminar aqueles fatores que seriam os limites do desenvolvimento do capitalismo na agricultura: a natureza orgânica, a terra e o espaço.
É preciso considerar, nesse contexto da “terra de negócios” a apropriação das subjetividades pelo capital, principalmente porque no caso do comércio em massa de flores, além da mercantilização da natureza, os afetos (como amor, paixão e gratidão) também se transformam em mercadoria. Nesse sentido, compreendemos que a realização da Expoflora em Holambra pode ser interpretada não só como uma feira de exposição e comércio de plantas e flores, mas também como um processo de reprodução do capital ancorado na subjetividade dos consumidores. Nessa festa existem mostras de paisagismo e exposição de flores que ressaltam sentimentos de romantismo, tranquilidade e a paz que as plantas podem proporcionar. Além disso, há um destaque acentuado para a cultura e tradição holandesas, associadas à produção de flores.

Terra de trabalho
Visualizar o rural de Holambra como “terra de trabalho” é também contemplá-lo em sua inserção na chamada agricultura intensiva em um contexto de capitalismo globalizado. Produzidas em grande escala, a produção de flores é marcada pelo paradoxo da coexistência de uma agricultura sofisticada do século 21 com relações de trabalho do século 19. Há certas hierarquias: o assalariamento com remuneração razoável, condição desfrutada pelos trabalhadores locais, em sua maioria homens e brancos; por outro lado, o trabalho eventual dos picos das colheitas agrícolas, realizado por migrantes, em sua maioria, mulheres.
Por um lado, novas categorias de trabalhadores com qualificações elevadas são requeridas para entrar em contato direto com as novas tecnologias. Ao mesmo tempo, a precariedade e eventualidade de certos trabalhos se aprofundam como forma de baratear os custos de produção. Cria-se, então, uma dualidade nas qualificações de trabalho: incremento das qualificações no topo da hierarquia (gerentes, engenheiros) e ampliação do processo de desvalorização e desqualificação do trabalho manual. As mulheres são empregadas nas atividades cujo ritmo é imposto pela tecnologia, no qual o trabalho humano é apenas um apêndice da máquina, tarefas intensiva e repetitiva. As tarefas controladas exclusivamente por homens, por sua vez, são aquelas com maior reconhecimento profissional, com remuneração mais elevada. As trabalhadoras ficam praticamente ausentes das esferas de controle e concepção.

Carga pesada
Os homens se encarregam das atividades de transporte de carrinhos com flores, preparam a terra com o trator, irrigam, aplicam veneno e são empregados em cargos de liderança. As mulheres fazem a seleção das plantas, picotam as mudas, fazem o “espaçamento das plantas”, podam as folhas, classificam as plantas de acordo com o tamanho, fazem o enxerto no matrizeiro, colhem as flores e trabalham no setor de embalagens. Os justificativas apresentados por homens e mulheres para que exista essa divisão entre as tarefas estão assentadas na atribuição de características como “força” e “coragem” aos homens, enquanto as mulheres são classificadas como “sensíveis”, “jeitosas” e “caprichosas”. Na ambiente de trabalho, os homens são destinados a aplicar o veneno. Estudos apontam que a produção de flores é uma atividade com elevado emprego de agrotóxicos. A utilização ampliada de agrotóxico é para cumprir as exigências de qualidade na comercialização das flores. As mulheres estão praticamente ausentes da atividade de aplicação do veneno, mas não estão livres da contaminação por agrotóxicos, pois os produtos ficam impregnados no ambiente da estufa e nas plantas que serão manuseadas por elas. Como consequência da intensidade das tarefas tem-se o afastamento do trabalho em razão de problemas respiratórios, problemas na coluna causados pela realização de atividades na posição agachada e tendinites geradas pela repetitividade dos movimentos nos braços. O desgaste físico é acentuado em razão da temperatura elevada no interior das estufas e do ruído acentuado gerado pelo aquecedor.
autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Mãos à obra
Nos campos e estufas de flores estão presentes os “Trabalhadores de estufas”, “floristas”, “alagoanos”, “brasileiros”. As diferentes denominações para os sujeitos assalariados da cultura das flores revelam a complexidade de relações sociais aí envolvidas. Boa parte das pessoas empregadas nas estufas da região vive em bairros periféricos de Holambra, Artur Nogueira, Engenheiro Coelho e Cosmópolis. Partem diariamente para os campos e estufas de flores. Sujeitos constituintes do “rural moderno”, muitos desses trabalhadores eram colonos, sitiantes e arrendatários que se tornaram assalariados.
Algumas das pessoas que trabalham “na diária” das flores transitam por outras atividades durante o ano, como a colheita da laranja e a colheita do café no Sul de Minas Gerais. Os picos de produção com aumento no número de pessoas contratadas geram um cenário no qual muitas pessoas são descartadas após o auge da colheita dos produtos agrícolas. Forma-se, assim, um assalariado rural com pluriatividade de base agrária, no qual os trabalhadores e as trabalhadoras se empregam em dois ou mais ciclos produtivos ao longo do ano. Observa-se a existência de um assalariado com pluriatividade multisetorial, ou seja, pessoas que combinam tarefas urbanas de caráter temporário nos setores de serviços e indústria com o trabalho agrícola sazonal.
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Cooperativismo
A produção de flores em Holambra não está restrita aos médios e grandes produtores. Nela estão presentes também os pequenos produtores, muitos dos quais estão em sítios nas áreas rurais do município. Alguns deles produzem por meio da AAFHOL – Associação dos Agricultores Familiares de Holambra. A área que abriga a associação é composta por 13 glebas de terra com dois hectares cada uma. A Associação teve início a partir de uma reunião de técnicos agrícolas que trabalhavam nas grandes estufas da região e que desejavam ter um pedaço de terra para tocar o próprio negócio. Assim, no final do ano 2000, por meio de financiamento oferecido pelo programa Banco da Terra, do Governo Federal, a AAFHOL comprou coletivamente a terra. Atualmente, boa parte dos produtores de flores da AAFHOL destinam as flores para o Veiling. Esta cooperativa exige um contrato de exclusividade com os produtores. Fornece consultorias técnicas e aluga os potes e os carrinhos para os produtores. Em troca, exige que os produtores entreguem as flores com um padrão mínimo de qualidade. Caso esse padrão não seja atingido ou as flores não sejam vendidas no leilão por um preço mínimo estabelecido, as flores são descartadas e o Veiling devolve os materiais (vaso e carrinho) para os produtores.
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Foto:Marcel Menconi
Flores: produtos altamente perecíveis

Integração
É preciso, diante de tais circunstâncias, lançar um olhar crítico, analisando os prejuízos que envolvem a integração dos pequenos produtores aos grandes empresários. É descrito pelos pequenos produtores das estufas de flores em Holambra no que diz respeito à comercialização por intermédio do Veiling. Os produtores que enviam pequenas quantidades de vasos encontram dificuldades já que não conseguem arcar com os custos da produção quando o preço das flores cai. Isso não acontece com os grandes produtores – em primeiro lugar porque já lucraram com a venda das mudas e com o aluguel dos carrinhos e porta-vasos; em segundo lugar porque compensam os preços baixos de algumas plantas com o lucro obtido na venda de outras plantas. Com isso, configura-se um cenário marcado pela parceria assimétrica entre a agricultura familiar e a agroindústria. Por meio dos contratos, as agroindústrias ditam o ritmo do trabalho que deve ser desenvolvido, na medida em que exigem um padrão mínimo de qualidade e ameaçam retirar a parceria dos pequenos produtores caso não sigam as imposições estabelecidas pelas empresas.

Considerações Finais
O entendimento da terra como espaço de negócios, trabalho e vida mostrou não só a heterogeneidade do meio rural como a diversidade de sujeitos presentes nesses espaços. Destarte, com esse texto, intentou-se mostrar a heterogeneidade do rural a partir de um universo empírico que, a despeito de ser marcado por particularidades, é carregado de significados que podem nos fornecer pistas para a reflexão acerca das ruralidades no Brasil. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
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