SEGURANÇA ALIMENTAR

Soberania alimentar – você tem fome de quê?

O historiador Sandro Dias aborda nesse artigo um esforço para erradicar a fome

Edição 179 - Outubro 2015

Foto:JPR
Alimentos produzidos pela agricultura familiar.
O século XXI apresenta de forma perfeita todas as contradições do nosso sistema de produção e consumo ao longo do século passado. Sua face mais perversa é escancarada em eventos climáticos e em uma questão ancestral que a humanidade ainda não conseguiu contornar: a fome, que hoje atinge em torno de 1 bilhão de pessoas no mundo. Sem mencionar o outro bilhão que sofre com a fome oculta, carência de micronutrientes necessários à vida com qualidade.

Ainda que a fome tenha diminuído nas últimas décadas do século XX, o número de pessoas subnutridas não baixou. Cerca de 840 milhões estão em situação de desnutrição, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que tem o brasileiro José Graziano da Silva como diretor-geral e estabeleceu a erradicação da fome como meta. A importância do tema é anunciada desde a Conferência Mundial da Alimentação realizada em 1974, em Roma, época em que se iniciou a construção do conceito de segurança alimentar. Àquela altura, o conceito fazia referência à capacidade das nações de suprir as necessidades alimentares de seus habitantes, muitas vezes sem considerar a distância entre a produção e o consumo dentro de um mesmo país.

Essa interpretação levou à ideia de que não haveria alimentos suficientes à demanda mundial e, portanto, a questão era turbinar a produção de alimentos por meio da mecanização e uso de adubos sintéticos, o que, posteriormente, gerou avanços na transgenia e uso de pesticidas, muitos hoje proibidos. Era a chamada Revolução Verde, iniciada na década de 60, desenvolvendo práticas que têm se mostrado insustentáveis.

Décadas depois, em 1996, a Cúpula Mundial da Alimentação reuniu mais de 80 chefes de Estado, que se comprometeram a um esforço para erradicar a fome e reduzir pela metade o número de pessoas em situação de insegurança alimentar exatamente até o ano de 2015.
A origem do problema atual está em pensar a fome isoladamente, sem considerar o predomínio da agricultura dita convencional e sua lógica produtivista, com a ideia de que é necessário produzir sempre mais. Se assim fosse, não teríamos tanto para desperdiçar: 1/3 dos alimentos produzidos no mundo se perde mesmo antes de chegar às pessoas.

Nesse sentido, não basta ser espectador dos problemas, sintomas de um processo aparentemente irreversível. É preciso atacar drasticamente os males desse modelo que menospreza aquele que, efetivamente, produz alimento para o consumo humano: no caso brasileiro, estamos falando de cerca de 70 % dos alimentos produzidos pela agricultura familiar.

Nosso distanciamento da maneira como nossos antepassados compreendiam a natureza e a produção de alimentos levou-nos a essa situação de caos alimentar, com a diminuição de nossa biodiversidade, a ponto de considerarmos outros sistemas de produção agrícola como “alternativos”.

As agriculturas orgânicas, biodinâmicas ou naturais – que, apesar das especificidades de cada uma, em geral, levam em conta um sistema estável e autossustentável e não uma cultura isoladamente – são as que preservam a biodiversidade e combinam sofisticadas técnicas gastronômicas com nossos saberes agrícolas esquecidos, preservando nossa paisagem.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Falamos aqui de soberania alimentar. Só assim estaremos “seguros”, valorizando, por exemplo, as variedades de sementes crioulas, que não foram modificadas geneticamente pelas empresas de biotecnologia. O alimento é o nosso principal elo com a natureza. Nossas escolhas alimentares no último século têm reforçado um sistema de produção e consumo insustentável – a ponto de acreditarmos em mitos como, por exemplo, a ameaça de desabastecimento se houver uma transição para a produção orgânica. São hábitos que nos fazem reféns do uso de “produtos comestíveis” que, provavelmente, nossas avós nem considerariam alimento.

Tal sistema de produção “desterritorializa” a agricultura. Nossos alimentos chegam aos supermercados, muitas vezes, depois de percorrer milhares de quilômetros, em substituição ou concorrência aos produzidos próximos às cidades. Isso provoca um sem-número de desperdícios, custos de transporte, uso de pesticidas. Daí a urgência em pensarmos novas organizações dos atuais intercâmbios internacionais, além de reagrupamentos regionais de países produtores agrícolas.

Precisamos redescobrir os produtores locais, pensar em circuitos alimentares curtos – sistemas de compras com proximidade geográfica e relacional, com apenas um intermediário entre o produtor e o consumidor final ou melhor, dentro do conceito mundialmente conhecido como farm-to-table. Quanto mais regionalizada a produção, normalmente, mais saudável e bem remunerado será aquele que é o principal sujeito desse processo: o agricultor. Defendemos aqui uma verdadeira “desglobalização“ da produção de alimentos.

Passou da hora de conhecermos quem produz, como produz e em que condições são produzidos nossos alimentos. E isso já está acontecendo. Há uma fartura de feiras orgânicas em todo o Brasil, feiras de produtores com os quais podemos saber bem mais do que pode ser escrito num rótulo. Esse movimento já está sendo incorporado por grandes produtores e certas indústrias da alimentação.

Devemos voltar a respeitar os ritmos da natureza, inverter a lógica do nosso consumo, acreditar numa alimentação sazonal. Por que precisamos ter sempre os mesmos alimentos à mesa? Um exemplo poderia ser o uso das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), variedades nativas ou aclimatadas para as quais não damos a devida importância – um mundo de jaracatiás, ora-pro-nobis, taiobas...

Influenciados por essa perspectiva, nos últimos anos assistimos à redescoberta da cozinha nacional em suas expressões regionais: modos de fazer, técnicas, ingredientes, sabores e saberes esquecidos que agora fazem brilhar os olhos dos chefs de cozinha, consolidando a reputação da nossa gastronomia no mundo. Nenhum país é desenvolvido ou rico se não respeitar sua biodiversidade, se não olhar sem preconceitos para a sua cozinha e com mais cuidado para aquilo que come.

*Sandro Dias é historiador, professor do Cotil-Unicamp e dos cursos de Gastronomia, Hotelaria e Pós Graduação do Centro Universitário Senac em disciplinas como: História da Gastronomia, Estudos Contemporâneos de Gastronomia e Hospitalidade e Cultura. Doutorando em Ecologia Aplicada, Área de Concentração: Ambiente e Sociedade pela Esalq/CENA/USPAutorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
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