COMPORTAMENTO

A agricultura não fará conexão com a vida urbana nunca. O alimento sim

Comunicação na Agricultura, um diálogo entre ciência e sociedade

Edição 193 | Limeira, Fevereiro de 2017 | Ano XIII

Fernando Barros, jornalista, gerente executivo Instituto Fórum do Futuro

Fernando Barros, jornalista, gerente executivo Instituto Fórum do Futuro,
à esquerda o ex-ministro Alysson Paolinelli

Fernando Barros, jornalista, gerente executivo do Instituto Fórum do Futuro, esteve na Esalq/USP, sua história com o Fórum do Futuro se dá há quatro anos, iniciou quando o ex-ministro Alysson Paolinelli estava recendo homenagem na Câmara dos Deputados e o jornalista Fernando Barros o reencontrou com um discurso sustentável sem exposição. Tiveram uma conversa e daí se consolidou o "Fórum do Futuro: propostas para um desenvolvimento sustentável”. Evento periódico, que mostra um diálogo entre ciência e sociedade, com o objetivo de descobrir novos talentos. Na edição de 2016, as categorias trouxeram o "Prêmio das Américas" e o " Prêmio Brasil” com o desafio da produção de alimentos, financiamentos pra pesquisa, questões indígenas, quilombolas e ambiental.

"Entendemos que a percepção de valor que a sociedade tem sobre o agronegócio é considerado uma tarefa difícil. É preciso intensificar a produção de significados para ocupar o espaço na relevância da informação da ciência na sociedade, pois, esta tem perdido espaço para informação que é considerado superficial, principalmente na mídia digital. Quem pode responder a isso e sistematizar os dados e convertendo-nos em algo compreensível, são vocês”, explicou Barros, apontando para os alunos da Esalq.

A narrativa científica mostra que a informação não transforma. O cidadão recebe a informação sobre o agronegócio e apresenta dificuldades em entender, mesmo que o cientista apresente todos os dados. "Para tentar convencer o leitor ou expectador no sentido de mudança de paradigma se faz necessário fazer produção social de sentido (algo que faça sentido para a população) porque o mesmo não muda o conjunto de valores que exercitou uma vida inteira.
Outra visão de comunicação entre ciência e sociedade que acredito, é a aproximação de todas as áreas do conhecimento para apoiar uma percepção de valor diante da sociedade. Esse bate-papo aqui, dentro dessa sala com pessoas selecionadas, só é compreendido por 8% dos brasileiros, ou seja, somente uma pequena parcela da sociedade consegue produzir e compreender dados complexos. Isso é considerado um drama porque uma coisa é produzirmos conhecimento dentro da "casinha" (universidade) com as pessoas e setores que entendem a sua linguagem. A outra é comunicar resultados da ciência que a cada dia se tornam mais complexos, com especificidades”, explicou Barros.

Ainda de acordo com o jornalista, a pesquisa do Conselho Federal de Biotecnologia aponta que apenas 23% dos brasileiros relacionam ciência e alimento. "Esse dado nos faz pensar que apenas 23% da população reconhece que a academia (universidade) de ensino realiza um trabalho imprescindível que atinge o dia-a dia da população”, disse. A narrativa informacional tem sido atingida pelo compartilhamento de ideias e discursos. O dado de que o Brasil produz o equivalente a 80 milhões de dólares do PIB em alimentos não é absorvido pelos brasileiros.

"Em 2060 a previdência vai consumir 20% do PIB. Quantas pessoas têm noção do que é orçamento da Previdência? Digo ao ex-ministro Paolinelli que escrever um artigo para a "Página Dois" do Jornal Estadão é muito importante porque atinge 80.000 pessoas. Esse público que consome os artigos da "Página Dois”, faz parte do mesmo grupo social (8% dos brasileiros), dos quais se compreendem e tem a mesma visão estratégica do País, mas, não passa disso. Antonio Gramsci, filósofo marxista, jornalista, pensou a comunicação para as massas operárias na tentativa de levar o marxismo até essas massas. A estratégia usada foi, de num primeiro momento, usar informações na tentativa de "demonizar", depois criar parâmetros entre o bem e o mal, esquerda e direita, rico e pobre, norte e sul. De toda forma, o mundo todo se comporta desta forma ocular. O candidato Trump demonizou seus discursos. A candidata Hillary tinha 56% de aprovação. Com as estratégias, Trump "demonizou" e construiu sua campanha fazendo comparativos. O Brexit - junção das palavras Britain (Grã-Bretanha) e exit (saída) - no Reino Unido, foi outro evento na mesma linha. Eu não conheço na história política, algo tão bonito quanto a história da União Europeia, construída com a intenção de interromper a guerra entre europeus, só que, Bruxelas nunca se preocupou em contar isso para os europeus como o verdadeiro significado que motivou a criação da União Europeia. Até que um dia, um populista levantou a bandeira da separação entre os países da União Europeia e ocorreu uma vitória contra a luta do processo civilizatório que a população não tinha consciência da sua importância", destacou Barros.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Página do Instituto Fórum do Futuro no Facebook

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Para o jornalista, a forma de se comunicar é um assunto tão relevante que o número de blogs administrados por pessoas que disseminam informações, sem domínio do assunto, levam temas como o consumo de carnes tomar proporções sem precedentes. "Se uma blogueira disser que não é pra consumir algum alimento, sem embasamento científico, fará muito mais seguidores do que o discurso de uma nova descoberta científica. Isso é um fato grave. Não acredite que a informação de vocês (cientistas) é mais relevante do que essa realidade. Não é. É relevante no mérito e não no processo", frisou Barros.

O jornalista fez uma breve explanação do que aconteceu com a história do frango. Segundo ele, o frango foi domesticado há 7.000 anos, mas, até 1.000 anos atrás a ave não era servida nas mesas das famílias porque as mesmas só comiam carne de caça. Num belo pronunciamento do Papa, veio a afirmação de que nos dias de jejum os católicos não poderiam ingerir carne. Aí entrou o frango. Mas, a espécie da ave era um animal magro, treinado para briga. Anos depois, Dom João foi convencido de que a canja de galinha curava lepra e todo convento e hospital teriam que produzir aves. No século XVIII as freiras descobriram que as claras de ovos serviam para engomar as camisas e os famosos pasteis de Belém é um produto oriundo dessa decisão, pois, as gemas não poderiam ser descartadas.
"Em 1974, quando o ministro Paolinelli assume o Ministério da Agricultura o tempo de abate de um frango era de seis meses. Hoje, o tempo de abate de um frango é de 28 dias graças ao trabalho da Esalq. A Esalq democratizou a proteína que hoje está em toda e qualquer casa da família brasileira e esses consumidores não sabem que foi a Esalq-Usp que proporcionou esse avanço para a nutrição dos brasileiros. Em 2015, produzimos 6 bilhões de aves. O quanto a qualidade dos alimentos impactou a longevidade no Brasil? É preciso vincular o que a academia faz ao impacto socioeconômico-ambiental porque a sociedade não percebe por si só. A aferição é importante porque coloca o problema na linha da metodologia científica. A história da Universidade é a busca pelo melhor alimento possível. O "Fórum do Futuro" propõe que pensemos o alimento e não o agrário, porque a agricultura não fará conexão com a vida urbana nunca. O alimento sim", apontou Barros.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Os parâmetros e valores da vida urbana são outros. Na prática, a sociologia pode ajudar na construção de um diálogo. "A realidade do trabalhador exige que os alimentos consumidos nas refeições ofereçam praticidade, desde como é ofertado, na geladeira do supermercado, quantidade, tempo de cozimento, pois, o casal sai de casa as 5hs da manhã e chega às 21hs e se aquele que pesquisa os alimentos não considerar isso desde a produção com o parâmetro da realidade de mercado, a conexão com o urbano fica cada vez mais distante. A possibilidade de gastronomia dentro da universidade das ciências agrárias ajudaria a observar as tendências de mercado. A rede de supermercados Pão de Açúcar através das lojas Compre Bem cujo foco é o consumidor de baixa renda aumentou as vendas porque o formato da embalagem e peso do alimento respondeu às necessidades do público consumidor. Se não fizermos as contas, em termos do que é ideal no consumo de carne, dentro da Academia, isso, vai ser feito pelos blogueiros", concluiu Barros.
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