PREVISÃO DE SAFRA

A citricultura tem futuro com safra de 365 milhões de caixas de laranjas

A pesquisadora do Cepea e professora da Esalq/USP, Margarete Boteon, abordou o atual cenário econômico da citricultura, durante a 39ª Semana de Citricultura

Edição 199 | Cordeirópolis, Junho de 2017 | Ano XII

A pesquisadora do Cepea e professora da Esalq/USP, Margarete Boteon, abordou o atual cenário econômico da citricultura, durante a 39ª Semana de Citricultura

Na Semana: Especialistas abordaram temas como estimativa de safra, mercado mundial e futuro do setor

A pesquisadora do Cepea e professora da Esalq/USP, Margarete Boteon, ministrou palestra sobre o atual cenário econômico da citricultura, durante a 39ª Semana de Citricultura, 48° Dia do Citricultor e a 43ª Expocitros, no início de junho realizado no Instituto Agronômico - Centro de Citricultura Sylvio Moreira, em Cordeirópolis. Evento que acontece anualmente, reunindo pesquisadores do setor, agrônomos, citricultores, pessoal da indústria e comerciantes para conhecer e entender os dados apresentados por pesquisas, analises e previsões de como será o futuro da citricultura.

Diante de um auditório lotado, Margarete Boteon começou sua fala parabenizando a equipe do Fundecitrus, pelos dados apresentados da estimativa da safra 2017/2018 ser de 365 milhões de caixas de laranja, de um total de 174 milhões de árvores que compõe o cinturão citrícola. “Para nós que trabalhamos com dados é essencial essa divulgação. Sabemos que a apuração é um trabalho de fôlego. Hoje, ter um número para que a gente se posicione é extremamente importante. Parabéns pela iniciativa e pelo trabalho de toda equipe do Fundecitrus”, frisou Margarete.

A pesquisadora apresentou sua analise sobre o impacto dessas 365 milhões de caixas no mercado, tendo o foco também nos dados apresentados pela Citrus BR, estoques de passagem, exportação de suco e a estimativa de safra. Suas considerações passaram pela instabilidade econômica do Brasil, dizendo "não ser possível prever tudo, não sendo possível olhar a longo prazo, justamente pela questão de câmbio". Um estudo, também apresentado por ela, realizado pela equipe do Cepea, mostrou a viabilidade da formação de um pomar de laranja, nesse atual momento e, qual seria seu rendimento, custos, investimentos e possível retorno do capital num prazo de 18 anos.

Os dados do Fundecitrus
Expondo os dados, Margarete citou que houve uma redução nos pomares em 7 anos, passando de 700 mil hectares para atuais 400 mil hectares. Os números mostram que a redução vem num ritmo lento, entretanto, o adensamento de árvores vem aumentando, nas áreas de pomar acima de 15 anos tem uma média de 318 pés por hectares e a formação de pomares entre 2015 e 2016 apresentou uma média de 687 pés por hectares. “O poder de frutividade dessas plantas é muito maior daquele do passado. Referente ao adensamento, sabemos que nem todas plantas ficam, devido a alta taxa de erradicação porém, o adensamento deve propiciar uma produtividade maior. A longevidade também diminuiu, 91% das plantas entra em queda de produtividade partir dos 13 anos e praticamente termina seu ciclo produtivo com 18 anos”, observou a pesquisadora. O setor citrícola também teve a característica de concentrar sua produção ano a ano, dados de 2 anos atrás indicam que no cinturão citrícola do Estado de São Paulo e Triângulo Mineiro existiam um total de 7.600 propriedades produtoras com até 10 mil árvores, sendo que 158 propriedades tem mais de 200 mil plantas, representando 49% do total de árvores, “provavelmente, essas propriedades correspondem a produção de 50% de todo setor”, emendou Margarete.

A cultura de citrus perdeu 43.120 hectares entre outubro de 2014 e março de 2017, sendo que 19.718 hectares estão ocupadas com outras culturas e somente 2.344 hectares foram renovados por pomares de laranja. Frente a crise de 2012 a 2014, o nível de reposição de plantas novas em relação a erradicação foi de apenas 11 milhões, esse é um número muito pequeno e mostra que o investimento foi reduzido. A analise que Margarete faz diante desses dados do Fundecitrus é que “temos um cenário com uma área menor de pomares, com plantas mais adensadas, árvores com idade reduzida e um estoque de plantas novas baixo”, analisou.

Impacto das 365
“As perguntas que ficam quando é divulgada a previsão de safra 2017/2018 com 365 milhões de caixas de laranja são: esse é o teto do volume de produção? Não vamos mais chegar nesse número? O que significa esse número no médio e longo prazo? De um modo geral, olhando o nível de reposição de plantas, é difícil manter esse número de caixas pois, são 11 milhões de plantas novas num cenário de 25 milhões de árvores com mais de 15 anos, isso demonstra um desequilíbrio em médio prazo, mesmo levando em conta o adensamento. Ainda sim, a minha percepção é que podemos repetir essa produção de 365 milhões de caixas, mas acima disso, frente as condições atuais é muito difícil”, destacou Margarete.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Diante de um auditório lotado, Margarete Boteon começou sua fala parabenizando a equipe do Fundecitrus, pelos dados apresentados da estimativa da safra 2017/2018

Diante de um auditório lotado, Margarete Boteon começou sua fala parabenizando a equipe do Fundecitrus, pelos dados apresentados da estimativa da safra 2017/2018


Preços
A indústria é a base de referência dos preços pago ao produtor, esse preço é balizado pelos estoques de suco nas fábricas, de um ano para outro, e segundo dados da Citrus BR a previsão para julho de 2017 é cerca de 70 mil de toneladas, é um dos menores volume de suco apresentado pela indústria. Na safra 2012/2013 os estoques de suco estavam em 765 mil toneladas e o preço médio pago ao produtor foi de R$9,45 por caixa com 40,8 kg de laranja, ao passo que na safra 2015/2016 os estoques caíram para 351 mil toneladas e o preço da caixa subiu para R$14,70. Isso significa dizer que a citricultura é muito suscetível a volatilidade de preços, dessa forma “é praticamente impossível se manter nesse mercado se você não tem um proteção de risco. A variação de preço pago saiu de R$9,45 por caixa, em 2012, sendo que não colheram todas as caixas disponíveis na safra, passou para R$14,70 em 2016, chegando a R$23,80 agora em 2017. É muito difícil de administrar por isso, muita gente saiu do setor”, ela disse.

Margarete apontou que esse ano a perspectiva de estoques de passagem (de um ano para outro) é maior em relação ao ano anterior, portanto é de se esperar preços médios inferiores ao ano passado. Em volume de suco sua previsão, num cenário onde tudo ocorra normalmente, ou seja, a indústria consiga processar 365 milhões de caixas e ter um bom rendimento, que não é uma tarefa simples, será próximo a 1.100 milhão toneladas de suco. "As exportações devem aumentar em torno de 20%, não é muito. Os estoques de plantas, não é muito grande, o saldo no volume de sucos, do que sai e do que entra, é negativo, não se tem a perspectivas de super safra, então 200 mil toneladas (previsão de estoque de passagem em 2018) não é um número grande pra pressionar os preços para baixo”.

Em números: na safra 2016/2017 tivemos uma colheita em 200 milhões de caixas que renderam 700 mil toneladas de suco de laranja. No exercício da previsão de safra 2017/2018, é previsto uma colheita de 365 milhões de caixas e um volume de produção de suco em torno de 1.100 milhão de toneladas. Agregando às exportações um volume superior em 20%, seria algo em torno de 900 mil toneladas, restando, em estoques de passagem em junho de 2018, 200 mil toneladas de suco, volume este, segundo a pesquisadora, não pressiona para muito baixo os preços pagos para a caixa de laranja de 40,8 kg. “Se a indústria processar 100 milhões de caixas a mais que o ano passado, equivale a mais de uma safra da Flórida, os cálculos mostram que não tem uma crise citrícola (baixo estoque) pelo números levantados”, observou Margarete.

Futuro da citricultura
De acordo com a pesquisadora, para prever e calcular os próximos anos, temos que levar em conta o número de plantas novas nos pomares novos, que está abaixo de manter o atual parque citrícola (produzir as 365 milhões de caixas previstas). Os dados do Fundecitrus mostram que esse ano a safra é mais um teto do que uma média de produção. Os estoques de suco nas indústria vão recuperar os níveis estratégicos e não produzirá excedentes em 2018. A Flórida vai manter uma dependência, em parte, do suco brasileiro, porque os estoques deles caem em 2017/2018. Incertezas políticas podem influenciar no câmbio. Essas dados dão um cenário positivo à citricultura, diz ela e emenda, "mas isso não quer dizer que é um negócio positivo, porque aí vem as perguntas: Eu consigo produzir uma caixa a US$6? Qual minha taxa de endividamento? Qual o nível de Greening no pomar? Qual é o volume de produção? Se não chegar a 700 caixas por hectare o custo da citricultura se inviabiliza para o produtor. Mais do que fazer conta, o produtor tem que controlar riscos, pois o cenário da citricultura é positivo mas o risco da produção é muito grande. Risco alto, preço alto!”, observa.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Possíveis estratégias
Sair do mercado de spot (quando a entrega da mercadoria é imediata e o pagamento é feito à vista). Para quem negocia no portão, mais o preço vai cair. A saída é tentar diminuir os riscos de preços baixos. Aumentar a produtividade é essencial, portanto deve-se avaliar o que fazer para ter uma alta produtividade, mesmo assumindo alguns riscos inerentes a cultura em termos de produtividade e as alternativas para não depender só do mercado citrícola. "Quem se manteve no setor após crise de 2012 a 2014, é porque teve alguma forma de amenizar o fluxo negativo de caixa, ou porque tinha grãos, ou porque tinha mercado doméstico, ou porque tinha dinheiro ou porque vendeu patrimônio para apostar na citricultura. Pensando em um projeto de 18 anos para a laranja, é pensar qual é a capacidade para se manter em anos negativos, laranja não aceita mais desaforo, não dá mais pra ficar um ano sem adubar ou pulverizar, aí o negócio vai pro brejo. É mais que um casamento, porque esse tem divórcio. A citricultura tem um futuro mas não é para todos”, concluiu Margarete.
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