II Seminário Internacional sobre Infâncias e pós-colonialismo

Reconhecimento das diferenças

Pesquisas em busca de Pedagogias Descolonizadoras; Entre os tratados coloniais e a emancipação humana o reconhecimento das diferenças

Edição 184

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva

Palestrante Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, UFSCar e Stanford University, Indicada pelo movimento negro para a Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação. Petronilha integrou como relatora a comissão que elaborou o parecer CNE/CP nº 3/2004. O documento regulamenta a lei nº 10.639/2003 e estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para educação das relações étnico-raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos termos do Artigo 26 da Lei 9394/1996 das Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Estamos vivenciando uma fase histórica de intolerância ao outro na nossa sociedade. O movimento sobre a espetacularização do outro é tão forte que nos põe fragilizados em contrariar o que está posto. A nossa sociedade brasileira sempre esteve à margem tanto quando vive desigualdades tanto quando tenta buscar um título de País em desenvolvimento. Há uma negação de identidade do povo brasileiro na auto afirmação de um povo civilizado e aceito por países marcados por colonizar. Como fica a nossa escola nesse processo de negação da humanidade cultural brasileira? É difícil aceitar que a escola tem contribuído para excluir a nossa humanidade.

O que é humano? "O sentimento, a compreensão de se pertencer a humanidade começa desde sempre. Mas, o que é pertencer à humanidade? Pertencer à humanidade nos intitula a partir de lugares que frequentamos, modos de vestir, nas relações das diferentes relações se processam e resultam em processos educativos, onde mais e menos experientes e mais e menos velhos constroem seu pertencimento à humanidade. A educação é a construção do pertencimento à humanidade ou da exclusão do pertencimento à humanidade", afirma.

É dessa forma que as crianças aprendem a construir ou a desconstruir estereótipos que tem mantido uma hierarquia racial e uma hierarquia social. "Os meios de comunicação, notadamente, a televisão contribui para mostrar, incentivar acolhimento e hostilidade contra certas pessoas em virtude do seu tipo físico como cor de pele, expressões culturais e outras. Diariamente os meios de comunicação exibem filhos e netos de pessoas que migraram da Europa no século XIX, início século XX em busca de melhores condições de vida hostilizarem novos migrantes que vem ao Brasil pelas mesmas razões. As hostilidades não se esgotam em olhares depreciativos ou palavras agressivas, cotidianamente ouve-se agressões dos descendentes de imigrantes atacando nossos imigrantes. Da-se a impressão de que os mesmos esqueceram que durante o Nazismo, muitos migraram para a África nas mesmas condições em que migram hoje para o continente", afirma.

Estes fatos, assim como olhares , palavras e gestos são dirigidos todos os dias a pessoas negras, indígenas, ciganos, fazendo com que cada pessoa, até mesmo as crianças se deem conta de que a sociedade lhes reserva certos lugares, oportunidades, direitos revelando que a humanidade não pertence a todos.
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Reflexão

É difícil aceitar que a escola tem contribuído para excluir a nossa humanidade.


"Os preconceitos sobre os quais se constrói a nação brasileira continuam cultivando os sentidos e ideias de que para pertencer a humanidade é preciso ser descendentes de europeus, ou ser branco e, mais humano seria. Há quem avalie que a formação étnica do brasileiro marcada fortemente por maioria africana e indígenas prejudicaria a humanidade dos brasileiros. Recentemente, temos conhecimento de que brasileiros têm migrado para a América e Europa em busca de melhores salários e melhores condições de vida ou de status. Este sentimento não é próprio de brasileiros, é de alguns grupos que avaliam que permanecer no Brasil é ser menos humano e portanto gostariam de estar no primeiro mundo, na humanidade. Da mesma forma, como quando aconteceu o Apartheid na África do Sul, descendentes de ingleses e holandeses migraram principalmente para a Austrália, entenderam que a sociedade negra enfraquecia a sociedade e afastava da própria realidade", afirma.

Parte da migração de brasileiros para o exterior busca um lugar onde poderiam viver essa humanidade que aqui seria impossível. "Até meados do século XX, estabelece-se atitudes de caráter higienista que fortaleciam projetos estabelecidos ainda sobre o regime escravista, um projeto de branqueamento com o objetivo de tornar a sociedade brasileira, uma sociedade europeia. O desejo entre os brasileiros ainda permanece no discurso: "Ah! Isso é coisa de 3º mundo!". Este ideal de sociedade persiste e ainda mantém uma sociedade baseada num sistema que foi criado no século XVI", afirma.

O sistema de mundo do século XVI e a forma de organização social ainda persiste. Se observarmos a crise e relações políticas, vemos que há netos dos antigos escravistas brigando por manter no poder e governar os demais, ou seja, aqueles se veem contra os humano, tratando-os como subalternos. As relações entre diferentes grupos sociais e étnico raciais - apesar das propostas educativas no sentido contrário - são marcados por hostilidades, desrespeito e agressões.

"Nós, professores universitários, sabemos disso. Preferimos aceitar como se esse comportamento de discriminar, separar, desumanizar as pessoas pelas mais diferentes razões, fizesse parte do jeito brasileiro. Nós, professores, somos educados de forma que para ser humano é preciso deixar-se assimilar pensamentos e jeitos de ser enraizados no mundo europeu. Não é que se tenha que desprezar a raiz europeia e valorizar igualmente todas as raízes. É nesse contexto, portanto, que são promulgadas e apropriadas as leis 11.645/2008. O Conselho de Educação estabelece as diretrizes curriculares afro-raciais e cultura afro-brasileira, salientando que o estudo do histórico afro-brasileiro, africana e dos povos indígenas só tem sentido se reeducar as relações étnico raciais. Só tem sentido se recuperar a humanidade de todos os brasileiros e educá-los para esta humanidade” asseverou.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Os princípios por quais se dará essa educação envolvendo consciência negra, fortalecimento de identidade, de direitos, ações educativas de combate ao racismo e discriminação, entre outros, é preciso superar a indiferença e justiça. “A desqualificação não se trata dos negros e povos indígenas, dos ciganos e dos imigrantes, há que se criar condições para a afirmação de identidades de historicidade negadas. Há que valorizar a participação de diferentes grupos sociais notadamente étnico-raciais na construção da sociedade brasileira”, destacou.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
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