FESTIVAL LITERÁRIO - FLIPOÇOS

Procurador da Lava Jato revela detalhes da operação

Foi lançado no Festival Literário de Poços de Caldas, o Flipoços, o livro “A luta contra a corrupção – A Lava Jato e o futuro de um país marcado pela impunidade”, do procurador da República, Deltan Dallagnol. O Flipoços foi o primeiro festival literário que o procurador participou. Durante sua preleção teve como parceiro de conversa o jornalista da TV Globo, Vladimir Netto. Leia a seguir trechos dessa participação de Deltan Dallagnol, durante a Flipoços 2017.

Edição 198 | Poços de Caldas, Maio de 2017 | Ano XII

Deltan Dallagnol, procurador do Ministério Público Federal

O procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol, lançou o livro "A Luta Contra a Corrupção - A Lava Jato de Um País Marcado Pela Impunidade", durante a Flipoços, Feira literária de Poços de Caldas - MG.


O impulso para escrever um livro e revelar o que se passou na força-tarefa da Lava Jato, veio após a leitura de Deltan Dallagnol do livro “Lava Jato: O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil”, de Vladimir Netto. "Me perguntei; ‘porque no livro, Vladimir não avaliou o sistema que gerou essa corrupção toda?’ Eu senti falta de algo mais, o que me motivou ir além e escrever”, disse Deltan.

"No início da investigação”, conta Deltan, “investigávamos doleiros que movimentavam dinheiro ilegal, mas não sabíamos pra onde foi esse dinheiro errado. Esses doleiros são profissionais na lavagem de dinheiro. Investigávamos 4 organizações criminosas chefiadas por eles. Nessa primeira fase da Lava Jato apreendemos 80 mil documentos. Fomos investigando e por sorte nós chegamos no Paulo Roberto Costa (engenheiro e ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, entre 2004 e 2012). Quando acusamos o Paulo Roberto por lavagem de dinheiro vindo de corrupção, ele resolveu colaborar (através delação premiada) dizendo o seguinte: “sabe esse contrato que vocês acham que tem corrupção? Tem mesmo. Mas não só esse contrato, todos os contratos dessa grande empresa tiveram corrupção. Todos os contrato da minha área (de Abastecimento da Petrobras) tinha corrupção e de muitas outras diretorias da Petrobras. Tem mais, eu desconfio que isso aconteça no país inteiro porque é um esquema político partidário e não tem razão de estar restrito só a Petrobras, sendo que a maior parte do dinheiro vai para os políticos”, foi isso que falou (na delação) e abriu nosso horizonte. Não íamos chegar nem a um décimo se não fosse a delação do Paulo Roberto e do doleiro Alberto Youssef”, destacou Dallagnol.

O momento da virada
Nesse rumo tomado pela Lava Jato, observa Dallagnol, a operação começou a sofrer pressão e ataques no sentido de anular os processos. No meio dessa correnteza os procuradores perceberam que estavam num caminho sem volta como ilustra Dallagnol, “sabe aqueles desenhos animados, onde o personagem corre por uma ponte e ela começa a desabar nas costa dele? Era a sensação que sentíamos. Resolvemos fortalecer nossas operações. A cada 20 dias estávamos nas ruas para manter a sociedade conosco e a Lava Jato correr menos risco. Esse foi o momento da virada. Sentíamos que estávamos fortes o suficiente para fazer algo que jamais tinha sido feito, colocamos no polo dos réus um conjunto de várias empreiteiras dentre assumais, as maiores do país. Quando falo isso, me refiro não só ao poder econômico, mas também a poder político que elas carregam. A colaboração da Odebrecht revelou que eles tinham uma bancada no Congresso. Colocar sob investigação esse conjunto de 7 empreiteiras, foi colocar toda uma bancada do Congresso contra nós. A sétima fase da operação, foi o início de uma guerra mais pesada”, avaliou o procurador.

As 10 medidas
O ritmo de trabalho dos procuradores era frenético, Deltan conta que teve momentos de ir ao supermercado para comprar suprimentos pois, o estoque estava zerado. Não havia tempo para irem almoçar, faziam as refeições no gabinete da sede da Polícia Federal em Curitiba. Numa das idas ao mercado, o procurador Diogo Castor de Mattos, questionou Dallagnol, que eles deveriam fazer algo contra essa corrupção sistemática. Deltan comentou, “eu descrevo esse momento no livro como a briga de Davi contra o gigante Golias. Quando a gente enfrenta as empreiteiras, é um batalhão de 100 advogados. Com assessores jurídicos e procuradores, nossa equipe é composta de apenas 20 pessoas. Hoje, temos uma batalha com 400 advogados do outro lado. Além de trabalhar nos processo, temos as investigações, as reuniões de colaboração, e a relação com um quinto dos países do mundo que nos ligam, marcam reuniões, vídeos conferências. Se não existisse a sociedade ao nosso lado, não íamos a lugar algum. Vocês são a parte essencial desse trabalho. Quando o Diogo me disse: 'Deltan a sociedade está esperando de nós uma mudança no Brasil, eles querem que acabemos com a corrupção mas, com esse sistema de impunidade não dá. Vamos aproveitar o momento e propor mudanças, propor reformas’. Minha resposta pra ele foi imediata; não! Não temos tempo. Só que continuei uns 10 dias refletindo sobre o que Diogo tinha me dito, e pensei que ele está certo. Informei toda a equipe, sobre o que o Diogo tinha me dito e completei, há momentos que exige um esforço cívico maior em cada um de nós, esse era o momento. Começamos a liderar um processo de proposta de 10 medidas contra a corrupção com a colaboração de pessoas de todo o Brasil. Elas foram redigidas, revisadas e apresentado à sociedade no início de 2015. No começo pensamos em apresentar ao Congresso e a princípio achamos que o Congresso iria olhar como uma agenda positiva, era uma oportunidade de virar a página do escândalo. Duas semanas depois de ter apresentado as 10 medidas à sociedade, nada aconteceu. Aí me senti impotente de mudar o sistema corrupto que funciona e impotente diante dos governantes em Brasília, que poderiam trazer as mudanças mas não traziam”, citou. Diante dessa frustração, o procurador iniciou palestras com tema da corrupção e foi durante uma dessas palestras que um grupo começou a se organizar para que a proposta das 10 medidas virasse uma campanha, mobilizando o Brasil de norte a sul, recolhendo assinaturas de cidadãos apoiando as dez medidas para aprimorar a prevenção e o combate à corrupção e à impunidade, para apresentar como projeto de lei de iniciativa popular ao Congresso Nacional. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Vladimir Netto e Deltan Dallagnol

Mediado pelo jornalista Vladimir Netto, da TV Globo, o procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol, contou como surgiu a ideia de escrever um livro e destacou como foram os momentos mais tensos na maior operação contra a corrupção no País


A melhor resposta
Quando o projeto de lei das 10 medidas foi votado pelo Congresso, na mesma madrugada em que acontecia o acidente fatal com o avião que transportava o time da Chapecoense, os deputados em Brasília desfiguraram todo o conteúdo do projeto de 10 medidas, o interesse dos políticos caminhava para a sugestão de que o juiz que investigasse casos de corrupção, sofreria sanções. “Enquanto o Brasil chorava a tragédia, o pacote foi destruído numa madrugada, na calada da noite. O pior de ser destruído, foi ele ser substituído por uma proposta que amarrava as investigações da corrupção. Essa foi a primeira vez que pensei em desistir, porque se a Lava Jato ficar só nela, é insuficiente. Temos o direito de ter um governante de respeito, temos o direito de que o dinheiro que pagamos de impostos seja investido em beneficio da população. Agora, esse direito não vai ser respeitado se não houver uma mudança maior que a Lava Jato. Ela é um passo, precisamos dar mais passos”, descreveu o procurador. Dois dias depois desse episódio no Congresso, veio a melhor resposta da Lava Jato; a assinatura da colaboração premiada da Odebrecht. “Isso foi trazer a tona toda a podridão que existe, para que você cidadão olhe e diga: 'é muito absurdo, tem que mudar essa doença’. Pra mudar precisamos sair da posição de quem espera heróis salvadores e passemos a assumir o protagonismo da história de nosso destino. A grande verdade é que não vamos alcançar a transformação no Brasil, se cada um de nós não tomar sua parte nisso. Devemos sair da posição de vítimas de representantes que ‘não nos representam’ e assumir a nossa história. Aí sim teremos uma transformação”, enfatizou.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Crime de alto risco
Deltan descreve, "na elaboração das 10 medidas, procuramos buscar as falhas em nosso sistema jurídico. As lacunas do sistema só beneficiam ricos e poderosos, é um sistema que pune muito pouco os ricos e poderosos, a taxa de punição fica em 3% dos crimes que são comprovados, é algo irrisório, e ainda não quer dizer que vai colocar pessoas na cadeia. Mostramos que existem essas falhas, e buscamos coagir pelas 10 medidas. Veja, que essas medidas não são uma solução mágica. Não é isso, elas são soluções para problemas da corrupção. O que não podemos, é continuar com o problema na mão como se ele não existisse. Não tem como dizer que tem coisa errada em tudo isso. As pessoas podem discordar da minha opinião mas, ofereçam soluções. Vamos ter um sistema que funcione, ao qual cometer um crime de corrupção, desvio de dinheiro, seja um crime de alto risco. Precisamos caminhar, insistir e resolver esses problemas. Precisamos não desistir de nosso País, assim como nós, não desistiríamos de pessoas ao qual amamos, igual quando temos uma pessoa doente na família, onde não desistimos da vida dela e lutar pelo País é lutar pelas pessoas que nós mais amamos na face da terra. Por isso eu digo no livro, nós não vamos desistir de nosso País. Eu sou brasileiro não desisto nunca, nós todos temos que dizer: somos brasileiros e nós não vamos desistir de nosso País”, assim Dr. Deltan Dallagnol finalizou sua palestra e gentilmente atendeu aos presentes, que gostariam de sua dedicatória no livro que acabará de lançar. O livro é do selo Primeira Pessoa, da Editora Sextante e apresenta uma perspectiva inédita de quem luta contra a corrupção de dentro do sistema judicial.
© 2013 - Jornal Pires Rural