AGROINDUSTRIAL

A importância das perdas na agricultura brasileira

Nós não vamos resolver o problema global da fome reduzindo o desperdício dos países ricos porque os sistemas não são tão interligados assim como imaginamos

Edição 213 | PIRACICABA, Março de 2018 | Ano XIII

Prof. Walter Belik, do Instituto de Economia da Unicamp

A China saltou de um consumo de 2.500 calorias/dia para algo em torno de 3.200 calorias/dia

Existe uma diferença entre o que significa perdas e desperdícios. Perdas: perda de massa ou valor nutricional em produtos originalmente destinados ao consumo humano. Ocorrem na fase inicial da produção (no campo), no transporte ou estocagem. Deve-se a problemas no processo produtivo ou a eventuais variações de preços. O desperdício: trata-se do alimento que apropriado para o consumo humano é descartado. Ocorre na fase de comercialização, restauração ou no consumo doméstico. Deve-se a problemas de planejamento ou previsão de vendas (data de validade) ou mesmo a falta de consciência do consumidor.

Aconteceu em março, na USP/Esalq, o 15º Seminário Internacional em Logística Agroindustrial (SILA), promovido pelo Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial - ESALQ-LOG. Prof. Walter Belik, do Instituto de Economia da Unicamp fez apresentação: "A importância das perdas na agricultura brasileira".

Há agravantes que contribuem para as perdas na agricultura como as mudanças climáticas, o problema de escassez de terras (uma disputa por terras porque os preços das terras estão disparados), um problema natural de água. “Mudanças no padrão de consumo, não só porque tem mais chinês consumindo como os chineses estão consumindo coisas diferentes. Em outras palavras, estão consumindo carnes e carne demanda uma quantidade de água enorme por quilo caloria produzida e, demanda produz uma demanda enorme de efeitos de gases estufa”, afirmou Belik.

Consumo de calorias
Os dados demonstram a China em três períodos diferentes 1992 a 2001, 2002 e 2014. A China saltou de um consumo de 2.500 calorias/dia para algo em torno de 3.200 calorias/dia, então, não há sistema econômico que consiga aguentar uma pressão de demanda. “Países que eram relativamente fechados, por exemplo, Myanmar (uma autarquia) onde tinham uma grande quantidade de subnutridos, subiu de um nível de subnutrição de 1.600 calorias/dia para 2.520 calorias/dia. O mundo está caminhando para uma mudança de dieta e essa mudança implica em um tipo de produção, um tipo de transporte, um tipo de logística, tudo diferente. Em função disso, como vamos enfrentar o problema? Basicamente temos duas opções colocadas. A primeira opção que é a mais lógica, aumentar a produção, pra isso temos que inventar e nos reinventar de alguma forma. Surgem os arautos de uma nova revolução verde, revolucionar as tecnologias, introduzir um monte de outras coisas. Haverão resistências culturais pra tentar aumentar a produção rapidamente. Vamos produzir alimentos sintéticos, chamado food 2.0, explorar os recursos marinhos, dado que a taxa de consumo em relação aos recursos marinhos ainda é muito baixo. Há uma série de soluções que estão sendo colocadas na mesa e que se apresentam no sentido de tentar resolver o problema rapidamente. A alternativa dois, é como enfrentar esse problema reduzindo perdas, dados que os estudos internacionais da própria FAO, se conseguirmos reduzir as perdas em 50%, como está colocado pelos objetivos de desenvolvimento sustentável, a nossa oferta de produção vai ser apenas 25% e não 60 e 80%”, explicou Belik.

Desperdício
Diante desse cenário colocado, há um caminho que talvez possa resolver o problema. Há uma quantidade de perdas muito grande que pode ser absorvida pelo sistema e, essa quantidade de perda, representam uma enormidade em termos de emissão de gases de efeito estufa. “Com isso entramos no lado da sustentabilidade, conseguir atender os objetivos da COP 21. A gente consegue reduzir a quantidade de água, calcula-se que a perda de alimentos todo ano corresponde a vazão inteira do Rio Volga — 250 km m cúbicos de água por ano. A gente consegue resolver os problemas das terras e também diminuir investimento na agricultura e na transformação da agropecuária, que é jogado no lixo, seria em torno de 750 bilhões /ano, que se diferenciam claramente. Desperdício é intencional, porque o consumidor joga fora o produto porque compra demais, porque não se planejou ou porque a etiqueta e a data de validade está confusa então ele joga fora. Então, o fenômeno do desperdício diz muito mais respeito aos elos, mais a jusante da cadeia produtiva, mais perto do consumidor, ou seja, a parte de distribuição e a parte de consumo doméstico desses alimentos ao paço que as perdas dizem respeito mais aos setores ao montante do processo produtivo. O campo pra dentro da porteira, processamento e logística e distribuição”, disse.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Prof. Walter Belik, da Unicamp fez apresentação na Usp/Esalq

A perda e o desperdício apresentam três dimensões; a dimensão econômica, a dimensão social, a dimensão ambiental


Cálculo
Segundo Belik, é importante discutir o que são perdas normais e o que são perdas anormais porque é muito comum se considerar determinadas perdas que são normais no processo produtivo. Por exemplo, choveu, teve uma tempestade, acontece, podemos prever essas questões, no entanto são perdas. “Não posso atribuir isso como uma perda. Estamos falando de perdas físicas, é muito comum o feirante ou o expedicionário de um Ceasa dizer 'eu perdi cinco mil reais na semana passada'. Como é que isso se traduz em termos físicos? Essa precificação, é muito complicado. Como é que eu faço a conversão de preço em peso ou em calorias? Existem uma série de problemas que nos levam, nos induzem a erros como, por exemplo, recorrer a literatura antiga sobre o assunto. É muito comum vermos entrevistas dizendo que as perdas de alimentos no Brasil são 'xis'. Como é que se fez esse cálculo? Eu nunca ouvi falar sobre algum cálculo sobre perdas de alimentos no Brasil. Eu posso ter a perda do mamão, da laranja, do grão. Como é que somo o mamão com o grão? Como fazer essa conta? E o dado do mamão que é perdido na Bahia em 1998 passa a ser extrapolado para 2018? Não pode. Então a literatura antiga nos induz a uma série de questões que não estão ligadas à uma ideia de uma política pública ou mesmo de decisões microeconômicas que os empresários têm que tomar. Precisamos tomar muito cuidado com isso”, observou Belik.

Comparação
Não há dados específicos sobre perdas e desperdícios do Brasil, na FAO. Para Belik isso é extremamente complicado porque um dos erros comuns é o que está colocado o desperdício per capita. “Temos o desperdício per capita colocado nesse eixo e a população em outro eixo, se pegarmos a população da Ásia, Índia e China; obviamente, com uma população muito grande e com um nível de desperdício per capita pequeno, teremos muito desperdício. E regiões onde a população é pequena, exemplo América Latina, temos um desperdício per capita relativamente alto mas a população é pequena. Se considerarmos 223 kg/capita/ano nós teríamos aproximadamente 46 milhões de toneladas de alimentos que são perdidos no Brasil, esse dado que a imprensa usa, que é um dado que está errado. É uma extrapolação bem típica de jornalista que quer um dado pra divulgar. Porque 46 milhões se for comparado com a produção de grãos, esse dado seria menos de um quinto, então não chega nos 30% de perdas. Não tem cabimento essa comparação”, explicitou Belik.

Três dimensões
A perda e o desperdício apresentam três dimensões; a dimensão econômica, a dimensão social, a dimensão ambiental. Segundo Belik, dividir essas dimensões em três esferas importantes, a micro, a meso e a macro, "porque muitas vezes estamos falando de assuntos que são macro em termos de Brasil", no nosso sistema agroalimentar mas, isso reflete muito pouco no micro. “Um exemplo claro é a questão das perdas. Perde-se um terço dos alimentos que estão sendo consumidos e como é que essa perda afeta as empresas? Eu diria que se a empresa tem o monopólio de um determinado produto, depende da estrutura de mercado e dane-se, é a resposta. Porque se há perdas quem paga é o consumidor, pois as empresas empurram prejuízo para o consumidor. Se eu participo de um mercado competitivo nacional ou internacional aí é melhor começar se preocupar com perdas. Porque perda e desperdício não tem sido preocupação no Brasil? Porque o mercado é muito concentrado e quem paga é o sistema como um todo. Aqui funciona a socialização do prejuízo da perda e a empresa transfere a culpa para o governo”, destacou Belik.

Prejuízo das perdas
Para Belik, quando a explicação para o prejuízo das perdas desce ao nível micro, os números empatam, seja na esfera econômica, seja na esfera social. A empresa que tem prejuízo com perdas tem um lucro menor, consequentemente não pode pagar bons salários para os trabalhadores, deixa faltar produto no mercado e do ponto de vista ambiental há uma geração de lixo e resíduos que acaba sendo custo para a empresa. “Existem causas separadas em elos da cadeia produtiva, porque são diferenciadas e quando observadas uma questão que está colocada numa ponta da cadeia produtiva, muitas vezes o problema não é da ponta da cadeia produtiva, o problema está em todo o processo. O produto muitas vezes é colhido e embalado de forma errada, transportado errado e vira lixo no Ceasa. Aí, a reportagem vai no Ceasa e coloca a culpa no Ceasa. Mas é um reflexo de tudo o que está errado ao longo dessa cadeia que é preciso discutir”, enfatizou.

Hortifruti
Na cadeia produtiva ao analisar os produtos em si, um indicador interessante é a perecibilidade e o problema de estoque desses produtos. Quando falamos de hortifruti, o maior problema de perda está no campo ou na distribuição porque o destino final não assume as questões das perdas — o supermercado não recebe os produtos que estejam deteriorados então é empurrado pra trás da cadeia. “Isso ocorre porque o produto tem alta perecibilidade, tem informação imprecisa sobre demanda — o produtor leva o produto ao Ceasa achando que vai comercializar e não consegue. Ao passo que se eu tenho um produto onde, eu tenho um processo mais longo desta cadeia produtiva, os elos posteriores da cadeia acumulam estoque, os elos posteriores da cadeia podem demorar na decisão de compra e ter um longo período de transporte”, explica.

Soluções
Para Belik as soluções são simples e fáceis de resolver através de informação de mercado para o agricultor, de como fazer o mínimo de processamento na roça (porteira pra dentro), o produto ser armazenado no resfriador. “São maneiras muito simples aplicadas no Brasil e em outros países em desenvolvimento. De qualquer forma temos uma pirâmide invertida de como resolver esse problema. Primeiro passo, prevenção em campanhas, ensinando produtores e consumidores maior clareza quanto à classificação de produtos e datas de validade, refrigeração de produtos. Quando é inevitável a perda, o desperdício, uma saída são bancos de alimentos — quando o produto já não é considerado alimento, ainda pode ter um aproveitamento, seja via alimentação animal, seja matéria prima industrial, biofermentação e vamos descendo até a compostagem, até que chega ao aterro sanitário pra onde é destinado o dejeto. Portanto, há todo uma sequência para aproveitamento dos alimentos de tal forma que isso não seja descartado na natureza, de tal forma que o trabalho que foi envolvido na produção deste produto não se perca. Nós não vamos resolver o problema global da fome reduzindo o desperdício dos países ricos porque os sistemas não são tão interligados assim como imaginamos. A nossa mãe dizia: 'Come meu filho porque tem muita gente passando fome', não é bem assim”, apontou.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Há uma aproximação cada vez maior desse nosso tema da perda e desperdício de alimentos com os temas da sustentabilidade e da segurança alimentar nutricional, é o mesmo assunto. A sociedade tem que reconhecer que a redução de perdas é uma ação importante. "A academia ainda deve muito a esse tema porque, não temos insumos pra fornecer ao governo, para que possa fazer um planejamento e as empresas possam trabalhar em nível de cadeia. Existe a necessidade de aprofundar os estudos indo a campo, levantar dados reais e de fato conhecer a realidade brasileira”, orientou Walter Belik.
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