MARICULTURA

Colhendo os frutos do mar

A maricultura no litoral norte do Estado de São Paulo é tão forte como a pesca,
são cerca de 90 produtores e uma produção média de 100 toneladas por ano.

Edição 174 - Julho 2015

Foto:JPR
Mariscos do Seu Gino: como produtor familiar ele possui a DAP e a colheita do ano passado foi de 12 toneladas.
Euzébio Higino de Oliveira, conhecido como “Seu Gino”, é pescador artesanal, viúvo, descendentes de índios e escravos, está com 71 anos de idade, e há 50 anos mora com a família na praia de Barra Seca, em Ubatuba, onde tem um quiosque para atender aos turistas.

Já em casa, Seu Gino nos contou como é viver dos frutos do mar. Logo de cara foi crítico quanto a uma marina de barcos que instalaram na praia de Barra Seca, quase em cima de seu terreno causando um enorme dano ambiental, no aumento do tráfego de barcos, no despejo de materiais poluentes, disputa de terra, destruindo mangue e causando dissabor para sua família que chegou primeiro ao local e ganhou a concessão do uso da área pelo Governo Federal. Trabalhando boa parte de sua vida em grandes barcos de pesca, em 1993 resolve começar a cultivar mariscos, usando apenas uma Long-line. “Quando menino, eu tirava o marisco das pedras e vendia nos restaurantes. Meu pai dizia ‘um dia vai acabar esse marisco da pedra de tanto consumo’, aí eu pensava: era bom se pudesse plantar. Quando apareceu um curso, no Instituto de Pesca, vi que era possível plantar o marisco e aprendi dentro da lei. É dessa plantação que estou vivendo hoje.”

O relevo da praia de Barra Seca ajuda na criação dos mariscos, é uma praia com remanso, mar de águas calmas, está há 5 km do centro de Ubatuba. Em terra firme, Seu Gino mostra como é o sistema Long-line de plantação dos mariscos. A construção de um Long-line, é bem simples, consiste em colocar paralelamente cabos de polietileno (cabo mestre), cujo comprimento pode variar, porém para melhor facilidade de manejo não ultrapassar 100 m. Esses cabos serão mantidos horizontalmente sobre a água por bóias e amarrados em poitas colocadas no fundo do mar. As bóias poderão ser tambores de plástico entre 20 a 200 litros, amarrados em linha com o cabo mestre, separados na distancia de um metro.
No espaço entre um tambor e outro serão penduradas as redes de cultivo com as “sementes”, ou seja, os pequenos mariscos. Quando precisa de sementes a retirada dos mariscos são das pedras costeiras, ou de seu próprio cultivo. Seu Gino explicou que é preciso fazer um manejo adequado para não afetar a reprodução das espécies, “no costão rochoso, um fica na canoa e outro na pedra, aí se tira o marisco por ordem, como aprendemos no curso de educação ambiental, retirando em faixas, sem retirar tudo, e os que ficaram, com a desova, vão repondo o que foi removido. Não podemos tirar tudo, temos que proteger o local, não podemos deixar faltar as sementes, isso tudo aprendemos com o ambiental” explicou.
Chamada de fazenda marinha, o espaço da maricultura de Seu Gino tem 2 mil metros, regularizado em forma de concessão e como produtor familiar ele possui a DAP. Para trabalhar o manejo de sua produção, Seu Gino mantém no local uma balsa de serviço estacionada, que acessa de canoa toda vez que precisa ir colher os mexilhões. Essa balsa, de 5m por 4m, serve de plataforma de trabalho para o manejo das redes, vistorias periódicas, colheitas, semeadura e o beneficiamento prévio dos mexilhões despescados. “Entre cada espaço dos tambores amarramos 5 redes recheadas com as sementes de mariscos, no comprimento de 2 m. Conforme eles vão se reproduzindo, vão tomando o espaço da malha da rede, depois cada Long-line chega a pesar 520 kg. Nossa colheita o ano passado foi de 12 toneladas. Um pedido de restaurante chega a 30 kg por dia, para o nosso quiosque vou tirando conforme chegam os clientes. Nessa época o movimento é menor, mas na alta temporada o movimento é grande”, detalhou. A colheita, ou despesca dos mexilhões é feita quando os animais atingem o tamanho de 5 cm, com o tempo de engorda em torno de 9 a 12 meses.

Incentivo
“Estamos há mais de 20 anos trabalhando com maricultura e nesse tempo todo tentando conseguir a licença da área. Desde há época do governo Fernando Henrique mandamos os documentos para Brasília, aí, quando o presidente Lula entrou, ele incentivou a maricultura e aprovou e cedeu a licença. A turma pode falar o que for dele, mas foi ele quem incentivou e ajudou a maricultura”, destacou Seu Gino.
Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Foto:JPR
Seu Gino: "Mudei para Barra Seca em 1967 quando me casei e construi essa casa de pau-a-pique. Nasceram os filhos, todos moram aqui e vivemos da pesca artesanal".

O cafuzo também contou um pouco da trajetória de seus descendentes. Nascido na praia de Itamambuca, que fica a 14 km do centro de Ubatuba, foi criado na roça, “Minha avó era índia e meu avô foi escravo, terminou a escravidão dele no bairro de Itamambuca. Nessa terra produzíamos mandioca, cana e café. Aí venderam a terra a ‘troco de banana’, ninguém imaginava que iria sair a rodovia Rio-Santos. Vínhamos a pé ou de canoa até o mercado de Ubatuba trazendo a mandioca, a farinha e também o café para venda. Mudei para Barra Seca em 1967 quando me casei e construi essa casa de pau-a-pique. Nasceram 6 filhos, 3 homens e 3 mulheres e quando chegam os filhos tem que ter conforto, aí fomos reformando a casa com banheiro e mais quartos. Todos os filhos moram aqui. Os vizinhos foram morrendo e venderam a terra que em 2002 começaram a destruição do mangue para construir a marina para os barcos. Tem um tanque aí se acontecer um incêndio a Barra Seca vai tudo abaixo”, lamentou o produtor artesanal.

Fazendas mexilhoneiras
A maricultura no litoral norte do Estado de São Paulo é tão forte como a pesca, são cerca de 90 produtores e uma produção média de 100 toneladas por ano. Foram as ações do Instituto de Pesca nos últimos anos que incentivaram essa produção, utilizando um mapeamento e cadastramento de áreas propícias no litoral norte para esse tipo de cultivo. São 31 pontos em Ubatuba, 17 em Ilhabela, 5 em São Sebastião e 3 em Caraguatatuba. A fundação da Associação dos Maricultores do Estado de São Paulo (Amesp) e a implantação de sistema de geo-referenciamento, foram ações coordenadas pelo Instituto de Pesca, propiciando o desenvolvimento ordenado das fazendas mexilhoneiras.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
O Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Litoral Norte do Instituto de Pesca desenvolve atividades de educação ambiental envolvendo estabelecimentos de ensino, a Secretaria de Assistência Social e cooperativas educacionais. Usam como equipamento de ensino aos estudantes a fazenda marinha de Seu Gino. Para a divulgação do mexilhão promovem um festival regional, sendo um evento oficial do município de Ubatuba. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
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