MERCADO DO ETANOL

Novas perspectivas para os produtos do setor sucroenergético

A indústria sucroenergético teve uma expansão no período Pró-álcool, moldada por uma participação muito intensa do governo. Num segundo momento, em 1990, o setor tomou contato com o mercado interno da produção de açúcar e recentemente a consolidação do veículo Flex foi o principal ‘driver' de expansão.

Edição 186

Luciano Rodrigues, da Unica

Luciano Rodrigues, União da Indústria de Cana-de-açúcar

A palestra "Novas perspectivas para os produtos da indústria sucroenergético" ministrado por Luciano Rodrigues, da Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), no Simpósio de Agronegócio da Esalq, em dezembro, trouxe um panorama da atual condição da produção de cana-de-açúcar no País e a condição das empresas. Existe uma ansiedade geral em buscar dados para contabilizar os setores na tentativa de visualizar a possibilidade mínima de um futuro próximo. Qual é a situação atual do setor sucroenergético e a real capacidade de expandir no curto prazo? O que dá para esperar num longo período (5 a 10 anos)? Dentro da diretriz que o Ministério de Minas e Energia expôs como cenário reuniu muita atenção no Simpósio de Agronegócio, na Esalq.

A indústria sucroenergético teve uma expansão no período Pró-álcool, moldada por uma participação muito intensa do governo. Num segundo momento, em 1990, o setor tomou contato com o mercado interno da produção de açúcar e recentemente a consolidação do veículo Flex foi o principal ‘driver' de expansão. "Ao verificar os últimos anos, de fato, apresentamos forte crescimento de produção, um resultado de mais de 10% ao ano. A produção dobrou em 8 anos devido à uma série de elementos com variáveis que estimulou esse crescimento como a consolidação do veículo Flex com demanda no mercado doméstico", explicou Luciano. Em 2003/2005 quando a decisão de investir foi aceita pelo governo, a expectativa era de cotação de petróleo em alta, o que ocorreu por algum tempo. Além disso, tínhamos no mercado doméstico uma diferenciação grande entre etanol e gasolina dada pela Cide-combustíveis em R$ 0,28 por litro e também pela mudança de ICMS do Estado de São Paulo. (A CIDE - Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico são tributos brasileiros do tipo contribuição especial de competência exclusiva da União, é incidente sobre a importação e a comercialização de combustíveis tipo a gasolina e diesel. Quando foi criada, em 2001, a Cide era de R$ 0,28 por litro de gasolina. Em 2012 foi zerada e voltou em janeiro de 2015 com incidência de R$ 0,22 por litro de gasolina, devendo estimular a renovação dos canaviais no Centro-Sul do Brasil na safra 2016/2017.

"No início de 2004, durante o processo de expansão, tivemos uma redução significativa no imposto estadual. do principal estado consumidor, com 1/3 da frota de veículos leves do País, como um estímulo adicional. Tínhamos o custo de etanol mais baixo e a expectativa de que pudéssemos exportar etanol, de que o mercado mundial de etanol fosse acontecer de forma mais intensa como uma oportunidade para o Brasil. Alguns desses fatores, de fato, se concretizaram. Outros não. Passamos por um período de estagnação. Há sete anos a produção 'anda de lado', cai e sobe. Aquela euforia (de 2005) deu lugar a uma das maiores crises do setor. Porque essa tendência se alterou de forma significativa? Não existe um único elemento, uma única variável. As mais importantes são: crise financeira mundial em 2008, quando era mais fácil comprar usinas em dificuldades do que construir uma usina nova, por pressão ambiental e social com mudanças significativas no ambiente de produção", avaliou Luciano.
Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Simpósio de Agronegócio da Esalq

Projeção da safra 2015/2016 - Simpósio de Agronegócio da Esalq


O item mais visível foi o avanço expressivo da colheita mecanizada com a mudança no sistema de produção e alguns problemas climáticos. "Com a crise, novos grupos entraram no setor mudando o sistema administrativo, o sistema organizacional com 100% da colheita mecanizada trazendo impacto numa curva de aprendizagem porque não houve tempo de sistematizar o canavial, o talhão, e trocar variedades. A colheita mecanizada trouxe consigo o plantio mecanizado. Sabemos que essa é uma atividade em discussão porque no setor industrial passamos a trabalhar com um pouco mais de impurezas, com impacto no índice de extração, moagem e como consequência mudança no sistema de produção. Uma tecnologia nova que foi introduzida por questões ambientais de forma intensa e rápida, isso é uma aprendizagem com tendência para um nível de eficiência mais elevado", apontou Luciano.

Além dessas questões exógenas, ocorreu uma mudança na estrutura produtiva da indústria com crescimento rápido para áreas novas. Nenhum setor passou ileso disso. Nesse período o país contava com 300 usinas, das quais 120 novas usinas foram construídas. O setor não contava com mão-de-obra qualificada, a produção foi para áreas novas em que o sistema de produção não foi muito diferente das áreas tradicionais. "Se calcularmos em valor absoluto a quantidade de cana processada em cada um dos Estados produtores, veremos uma alteração expressiva, pois, de fato, fomos para áreas novas de expansão no ritmo que aconteceu gerando ineficiência e tende a voltar pro ponto de equilíbrio. A relação com investimentos está diretamente ligada às dívidas das empresas antes e depois sem condições de reforma de canaviais, de tratos culturais adequado, com grande desafio de recuperar a produtividade num cenário econômico e financeiro complicado", explicou Luciano.

Ez importante ponderar ao dizer que o setor sucroenergético perdeu produtividade e perdeu eficiência porque isso aconteceu ao longo de toda a história toda vez que não tinha condições financeiras de manter o nível de investimento adequado em tecnologia. "O último elemento que influenciou esse processo foi o controle de preço da gasolina. De fato, com o boom de expansão de decisão de investimento aconteceu quando tínhamos uma diferenciação tributária razoável entre etanol e gasolina, depois, por questões macroeconômico, passamos sete anos com o preço da gasolina congelado estabelecendo um período com aumento de impostos com receita com teto de receita. O interessante é que neste período, o preço líquido da Petrobras a longo prazo aumentou 40%, então o preço do etanol teve um teto, ao passo que o seu substituto teve aumento de 40%, a Cide foi zerada e passada a eleição presidencial, a preocupação com a inflação deu lugar a preocupação com o déficit público. No início de 2015 a Cide foi restabelecida. A condição financeira da Petrobras exigiu aumento dos combustíveis e de novo tivemos aumento. De fato, restabelecemos uma parcela do diferencial tributário e o problema é que o resquício desse período fica ainda em evidência", detalhou Luciano.

O nível de endividamento das usinas, apontado por ele, e o que se gasta hoje para pagar juros com uma parcela significativa do custo de produção, é consequência da dívida assumida ao longo do período onde a receita era inferior ao que se tinha de custo de produção. O número de usinas fechadas são mais de oitenta no país, contando as que estão paradas e as que estão em operação. De fato, a fotografia que se tem hoje não é das melhores.
Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
"Com um detalhamento maior são 155 unidades, 400 milhões de toneladas de cana (dados publicado sem balanços). O endividamento líquido da safra passada foi de R$ 157,00 por tonelada, equivalente a 120% do faturamento anual dessa indústria. Hoje, em média, a indústria deve mais do que fatura no ano. O que interessa aqui para essa discussão específica é a despesa financeira líquida, no último ano, o valor médio pago de juros por despesas financeiras pela indústria foi de R$ 23,00 a tonelada. Se imaginarmos que uma tonelada de cana faz 80/85 litros de etanol estamos falando de algo próximo de R$ 0,25 por litro de etanol de pagamento de juros. Ainda que esse diferencial de tributo (Cide) entre etanol e gasolina tenha sido restabelecido, ficou para trás um peso adicional com custo de produção das empresas", destacou Luciano. O que dá para esperar para os próximos 3 anos, oferta desse ano e preços, e o que podemos deslumbrar no curto prazo em termos de produção, a despeito da condição financeira das empresas é que teremos a maior safra da história do país. "A moagem de cana deve atingir 600 milhões de toneladas no Centro- Sul , 50/60 toneladas Norte-Nordeste - um volume significativo mesmo considerando que temos um canavial mais velho - pela condição climática, projeção até outubro/2015 de 74 toneladas. O volume acumulado até outubro/2014 foi de 75 toneladas de cana e como consequência teremos mais cana do que capacidade de moagem", concluiu. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
© 2013 - Jornal Pires Rural