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Histórias, famílias e alimento

Daniel, Anderson e Rogério, Rosa Argentina Marrafon dos Santos e Domingos David dos Santos
Outubro 2017

A história da família que produz o seu alimento

Sabe o que tem em comum entre um agrônomo, um professor de educação física e um profissional da área de análise de sistema de informática? Resposta: A produção de alimentos! Daniel, Anderson e Rogério são os graduados, os pais: Rosa Argentina Marrafon dos Santos e Domingos David dos Santos, casaram-se em 1973, e fixaram residência na Avenida Santa Bárbara, em Limeira. Sr. Domingos após vender o Bar 45, para seu irmão José Luiz, comprou 2 alqueires de terra no bairro Lagoa Nova e começou a produção de hortaliças em parceria com o caseiro que morava nesse sítio, era o ano de 1985.

Assim conta seu Domingos, “meu pai, Sebastião dos Santos, tinha uma padaria na avenida Santa Bárbara, como eu casei em 1973, transformei a padaria em um Bar e fui morar com a minha esposa, na casa que era dos pais dela, oito casas pra cima desse bar”. Dona Rosa continua “logo depois de casada, eu entrei para trabalhar no centro odontológico do SESI, que ficava na rua Santa Terezinha, esquina com a Boa Morte, depois mudou para o SESÃO, na entrada da cidade. Fiquei lá até 1999. Nossos filhos nasceram e foram estudar no SESI”, ela descreve.

Seu Domingos disse que na época de adolescente ajudava o pai na criação de boi e de porco, é desse período sua afinidade com a terra, era um sonho ter o próprio sítio. Na terrinha adquirida começou o plantio de hortaliças, agora, era preciso escoar a produção. Na pequena garagem da casa que era da sogra, foi o início do comércio de frutas e verduras produzidas no sítio do Lagoa Nova. “Além de vender na garagem, entregávamos em algumas quitandas, quando abriu o supermercado Super-Vale compravam 90% da nossa horta”, contou.

O novo negócio da família foi expandindo e quando os filhos se deram conta já estavam envolvidos 100% com a atividade. A produção de hortaliças passou de 2 para 8 alqueires, sendo 6 alqueires arrendados dos vizinhos. O filho Rogério é quem se recorda, “acho que o nosso maior erro, nessa época, foi ter apenas um comprador grande. Conquistamos esse comprador em 1992. Como os pedidos eram volumosos, exigiu de nós arrendar 6 alqueires para dar conta das entregas. Num belo dia, depois de mais de 5 anos fornecendo diariamente, esse supermercado resolveu parar de comprar nossa produção sem nos avisar. Eu só fui descobrir, depois de dois dias seguidos sem pedidos, no terceiro dia fui até lá. Quando cheguei, já tinha um fornecedor de Campinas em nosso lugar. Percebi com o tempo, que isso ia ocorrer frequentemente”, ele revelou. Segundo Rogério, esse corte foi um baque muito grande pra família, eles foram conversar com o caseiro que cuidava das hortaliças e ficava com metade da produção, enquanto a família arcava com todos os custos de insumos, sementes, energia elétrica, distribuição, etc. “Era outubro de 1997, eu e meu irmão Anderson falamos para o caseiro, quando virar o ano vamos ter que dividir meio a meio tudo o que comprarmos e tudo o que vendermos. Ele não quis e resolveu sair. Só que não tínhamos nenhuma experiência com horta, confesso que ficamos com medo. A sorte foi encontrar um novo segmento pra vender as hortaliças”, ele explicou.

Por indicação de um parente procuraram Clodomiro Rossi, que gerenciava as cozinhas industriais de empresas como Varga, Fumagalli, Citropectina e Invicta, além do Miro’s Restaurante no centro de Limeira. Rogério descreve, “nessa época já não estávamos na garagem de casa, alugamos um barracão no jardim Ibirapuera e meu tio que era encarregado do restaurante da Fumagalli, ajeitou pra que nossa produção de hortaliças fosse comprada pelo Miro. Foi uma salvação, inicialmente começamos vendendo apenas folhosas mas, meu pai trazia outros produtos do Ceasa Campinas, sempre sobrava mercadoria que aos poucos o Miro também comprava. Quando começaram a aparecer as empresas especializadas em refeições coletivas, o Miro perdeu quase todos os pontos que tinha dentro das indústrias, e nós ficamos sem comprador novamente. A solução foi telefonar para as empresas de refeições coletivas, pra tentar uma negociação. Assim foi feito com a Cosnal na empresa Invicta e Embrasa na TRW”, detalhou Rogério.

Expandindo as vendas para as novas empresas de refeições, seu Domingos criou a distribuição ROANDA, que são as iniciais dos nomes de cada filho. Rogério que é analista de sistema cuida da logística, Anderson que é formado em educação física gerência a produção agrícola e Daniel, agrônomo, é o administrador da empresa que surgiu do sonho de seu Domingos em ter uma terra produtiva. Rosa Argentina, a matriarca, circula e auxilia em todos os setores depois que saiu do SESI. No ano de 2000, as vendas deram um 'boom', cresceram vertiginosamente. “Com as entregas nas empresas terceirizadas, começaram a nos indicar para as outras, e fomos conquistando mercado. A quantidade que a gente vendia naquela época dava conta de produzir tranquilamente, eram plantados cerca de 400 mil pés de hortaliças mensalmente”, declarou Daniel. Formado em Agronomia pela UFSCAR, em Araras, fazia as entregas no percurso para a faculdade, “pegava antes das 6 horas, junto com minha mãe e quando chegava umas 7 e pouco, ia até a rodovia Anhanguera pegar carona pra faculdade, porque não tinha carro sobrando. Só no último ano passei a ir de carro, depois de fazer as entregas. E, ainda tinha que voltar, depois das aulas, pra ajudar no barracão”, contou.

Os irmãos revelaram que o pai dizia, como ‘vocês trabalham tanto e nunca tem dinheiro’. Sem o pai saber eles tinham comprado um terreno e começaram a construir um barracão para abrigar a empresa Roanda, que ainda não tinha um galpão próprio. Revelaram ao pai só quando já estavam no acabamento da obra e se mudaram para a nova sede em 2005.

Conforme disse dona Rosa, “foi meio no susto mas, meu filho Anderson pegou as manhãs na produção. Hoje, o clima mudou tudo e tivemos que investir em outra forma de cultivo”. Anderson falou sobre os novos investimentos, “estamos estruturando e planejando melhor. Aumentamos nosso investimento em hidroponia, compramos um programa que controla irrigação pelo celular. Queremos ter um sistema de irrigação mais controlado, sair do 'achismo' e do aspersor que molha muito sem eficiência. Vamos pra 8 mil metros de estufas em hidroponia e 1.500 metros de estufas no sistema de gotejamento e continuaremos plantado na terra, no sistema convencional, que corresponde a 80% da nossa produção. Também fizemos uma embalagem com rótulo e código de barras. Temos a consciência que aumentou a concorrência, temos que controlar os custos, porque todo mundo quer preço baixo, ficam pechinchando. Por lado sabemos que o consumo das famílias aumentou” revelou.

Para concluir a palavra da mãe: “É um orgulho tão grande ter meus filhos envolvidos nesse negócio. Trabalhar em família é gostoso. Saber que tivemos sucesso. Foi aos trancos e barracos, erramos um dia, andamos de ré, dando um passo pra frente, dois pra traz, mas crescemos. É um orgulho, apesar do serviço ser tão pesado, foram eles que escolheram”, finalizou dona Rosa.


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