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A história da família que produz o seu alimento

O casal Moacir e Ivani e o filho Edmar
Fevereiro 2018

Com trabalho e dedicação a família Asbahr e Tetzner contribui para a agricultura do Brasil

A ONG Viva Pires valoriza a agricultura familiar e a permanência do homem no campo. Através do Projeto “A história da família que produz seu alimento” a entidade registra e faz história. Acompanhe a memória desses causos pelas redes sociais (Facebook: @ongvivapires)

Plantar laranja no Bairro dos Pires já foi sinônimo de tranquilidade com os compromissos financeiros, época de ganhos e acúmulo de capital mas, já se vai ao longe esse período. Essa região é composta por pequenas propriedades rurais, às vezes divididas por estradas, heranças ou até mesmo pela distância entre um ou outro sítio. Sendo bem poucos os proprietários que tem 10 alqueires, para viabilizar, de fato, um agronegócio, como é o caso do setor da citricultura, manter-se na atividade é mais que um desafio. Apesar das terras divididas, a citricultura enfrentar um sobe e desce de preço, pragas, doenças, legislações normativas, sem falar nas intempéries climáticas, como uma família sobrevive tirando seu sustento nesse cenário?

A família Asbahr, representada pelo casal Moacir e Ivani e o filho Edmar, são descendentes dos imigrantes alemães que se instalaram no bairro dos Pires, por volta de 1.853, fato que os livros de história registraram detalhadamente. Nossa missão aqui é registrar outra parte da história; o presente. No ano em que Ivani Maria Tetzner chorava por estar nascendo, Moacir Asbahr, então com oito anos, chorava, infelizmente, pela perda de sua mãe, Ana Luiza Bull Asbarh. Os anos se passaram e foi durante a lida na roça, junto com seu pai José Asbahr, que Moacir observava, uma garotinha passar todos os dias, de bicicleta, levando o almoço dos pais enquanto trabalhavam, ele conta: “eu estava trabalhando no nosso sítio, os pais da Ivani, no sítio ao lado e, lá vinha ela com a bicicletinha. Mas só fomos conversar na Igreja Luterana, que ia com a família”. Ivani completa, “naquela época o namoro era até as 10 hs. Dava hora de dormir, tinha que ir embora e nada mais, pronto! Namoramos por 3 anos, toda quarta, sábado, domingo e dia santo. Os outros dias da semana, quando se via, cumprimentava de longe. Nós nos casamos em 12 de maio de 1979”.

Casados, foram morar no sítio dos pais de Ivani, João Artur Tetzner e Irma Sorg Tetzner. “Continuei trabalhando no sítio da minha família. Eu vinha, dormia e ia embora no outro dia cedo e voltava a tarde, assim foi até 1989”, revelou Moacir, citando que o sogro teve que dividir a propriedade com os herdeiros de seus irmãos, que haviam falecido. “Quando meu sogro perdeu os irmãos, seu conhecimento era com tração animal e enxada. Precisei ajudar a tocar a propriedade, porque os irmãos não deram chance para ele aprender a usar o trator, as viúvas não se interessavam, ficou tudo abandonado. Meu sogro precisava tratar da criação, plantar milho, arroz e feijão, pra ter o que comer, fomos arrancando pomar ruim, pra ter alimentos na despensa”, relata Moacir.

Nesse período, o sustento das famílias Asbarh e Tetzner eram vendas das caixas de frutas das laranjeiras e a produção de mudas de citros. “Nós formávamos mudas no campo, tanto em nossas propriedades como em qualquer terreninho que achávamos para arrendamento. Vivíamos sossegados com a renda que dava desse negócio. Só pra citar, em 1985, a indústria de suco, me adiantou um pagamento e eu dei de entrada num Corcel II semi-novo. Tiramos um trator só com o dinheiro das mudas de laranjas. Aqui, na família do meu sogro, eles dividiam em 3 partes iguais o que eles plantavam em 15 alqueires de terras. Só pra dizer como era bom o negócio, eles tinham uma propriedade no bairro Nova Campinas, coisa de 5 alqueires, com 3 mil pés de (laranja) pera coroa, onde colhiam 30 mil caixas, eu nunca vi coisa igual. O pomar deles tinha umas plantas enormes, era um plantio espaçado, num terreno plano mas, quase não dava pra passar com o trator de tão monstro que eram as árvores. Era um enxerto num cavalo de caipira. Isso aconteceu entre 1960 e 1970, foi uma atração entre os produtores, a laranja era um doce”, destacou Moacir.

A conversa enveredou para a qualidade das laranjas, as mudanças no clima e o uso de agroquímicos, onde Moacir esclareceu essa questão, a partir de sua experiência. “A família da minha esposa, foi um dos primeiros 'pomaristas' do bairro dos Pires. Na época ninguém tinha tanta laranja como eles. O cuidado com o pomar era primoroso e praticamente usavam só a roçadeira e grade. Era um tempo que fazia muito frio, chegava a gear, o dedão ‘véio' do pé ficava roxo de frio. O frio “segurava” a planta e quando chovia “liberava”. No mês de setembro, encalhava o trator no pomar de tanta chuva que caía. Hoje em dia, o clima não muda mais, são apenas frente fria, que logo passa. Não se usava nenhum tipo de veneno, depois de muito tempo chegou os primeiros herbicidas mas, a qualidade da laranja foi se perdendo, na minha opinião, com a mudança de clone, passou do chamado clone velho para o clone novo, que são plantas que não aguentam a grade do trator e, são contaminadas pela gomose, se gradear o pomar. Lembro que foi por volta de 1972, que meu pai comprou o primeiro pulverizador. Mas, aqui na família do meu sogro já tinham comprado um tanque de pulverização, num dos primeiros comércio agrícola de Limeira, na Avenida Major José Levy Sobrinho. Acho que isso foi em 1971, eles vieram aqui, puseram na mente da família que tinham que fazer um tratamento com novos produtos que estavam surgindo, pra melhorar o pomar de laranja. Ao usar os produtos, deram uma bobeada no tratamento, que a laranja “mulateou” tudo. Nossa! Eles ficaram desnorteados. Foi prato cheio pro pessoal do veneno receitar outros produtos. A partir disso não pararam mais. Deu laranja bonita mas, as pragas, ao invés de diminuir foi só aumentando. Combatia um aparecia outro. Antes de aparecer esses produtos, se controlava, a natureza dava conta”, ele explicou.

Em 1980, nasce o filho Edmar, mais conhecido pelo apelido de “Cenora”, a mãe recorda; “desde 2, 3 anos ele queria estar na roça. Ele não ficava em casa. Eu falava; ‘fica aí com a vó’, vê lá! Ele ia no meio dos canteiros de mudas, brincava nos pés de manga. A vida inteira junto da gente. Ele foi pra escola, eu insistia para ele estudar, ele não quis continuar. A professor ficava encantada com os trabalhos que ele fazia relacionado com plantações, ela me contou que na sala de aula, ele dizia o tempo todo que queria ajudar o pai na roça. Quando terminou a oitava série nunca mais quis saber de escola”, ela relembrou.

Há 4 anos atrás, resolveram modificar a produção, Cenora é quem conta; "por causa das pragas começamos a mudar nossos cultivos. A laranja é melhor porque não existe outra cultura que num espaço de 2m a 3m de área você consegue tirar uma renda de R$100 mas, as pragas inviabilizam nossa produção, pois, o tratamento é intensivo, os produtos de combate são caros e você não faz outra coisa se não ficar em cima do trator pulverizando veneno. Fomos pesquisando, o que podíamos fazer, em alternativa a laranja, encontramos a soja, e achamos que daria certo. Já fazem 4 anos que estamos cultivando soja. No início não tivemos uma boa produção, mas a nossa meta é chegar em 100 sacos por hectares, que dá rendimento. A média são 60 sacas, que dá pra pagar o investimento e tem uma pequena sobra. Estamos plantando em 30 hectares de terra. O segredo para alcançar uma boa produção está na terra, ela tem que estar bem equilibrada, as analises de solos são essenciais pra saber se precisa aplicar calcário, gesso, potássio e o que mais precisar através da adubação”, descreveu Cenora, empolgado com o novo cultivo.

Segundo Moacir o setor da citricultura veio se tornando inviável para o pequeno produtor, “cada vez aparecia um produto novo, uma praga nova. Proibiram de cultivar as mudas no campo, agora só pode em viveiros telados. E, até que chegou o greening, aí a citricultura acabou pra nós. Estamos vivendo, mas, não tão bem quando tínhamos as mudas e as laranja pra vender às fábricas. Era outro tempo, outra coisa, era fácil de fazer. Até com um trator velho, uma roçadeira pequena, dava conta sozinho de um pomar. Hoje, você vai investir R$8 em uma muda, que só vai começar produzir bem, em 4 anos, se ela pegar o greening em 2 anos você tem arrancar tudo”, lamentou.

A família tem buscado alternativas para o uso da terra, juntamente com o conhecimento adquirido nos anos de trabalho no campo. Milho, eles sempre plantam pois, serve para o uso no trato dos animais. A safra de soja colhida em meados de 2017, foi seguida pelo plantio de 18 hectares de feijão, que estava com o preço em alta mas, justamente na hora da colheita o preço caiu e não tiveram rendimento. Infelizmente são intempéries do mercado que os produtores são mais suscetíveis. “Estamos devagar tentando novos caminhos. Acredito que seja através da tecnologia. A soja é difícil, é muita tecnologia envolvida e cada ano tem novidades na hora do plantio e se não acompanhar essas mudanças em 5 anos fica inviável a produção. Mas, eu digo uma verdade; igual a laranja, não existe, porque o pé fica lá, você vai tirando as safras e o pé permanece, vem outras safras e assim vai, ele aguenta as mudanças climáticas e até a seca. Se não fosse esse bichinho sem vergonha do greening, que se espalhou muito rapidamente, estaríamos todos bem melhor”, concluiu Moacir.


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