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A história da família que produz o seu alimento

Maurício e Moacir Carvalho Dias produtores de café e oliveiras em Poços de Caldas
Novembro 2017

Com trabalho e dedicação a família Dias contribui para a agricultura do Brasil

Fomos visitar a fazenda Irarema, Poços de Caldas-MG, propriedade de Maurício Carvalho Dias, um produtor de grãos que se encantou pela produção de oliveiras, diversificou os negócios e investiu no setor de lagar — oficina com máquinas adequadas para extrair frutos (uva e azeitona) para reduzi-la a líquido - para atender o turismo na propriedade. O produtor participou do 1º Workshop de Olivicultura Nacional do Fundação Oliveiras do Brasil, na oportunidade, apresentou juntamente com o filho Moacir Carvalho Dias — administrador responsável pelo lagar — todo o investimento na propriedade voltado ao setor da olivicultura. Com trabalho e dedicação a família Dias contribui para a Agricultura do Brasil.

O produtor comprou a fazenda Irarema com produção tradicional de café, segundo sr. Maurício havia ali um dos melhores cafés do Brasil — produzido no microclima no Vale da Grama. “No primeiro ano como proprietário, passei o café para o meu genro e sobrinho - na família a gente se casa com parente para não dividir heranças. Nesse primeiro ano meu genro decidiu enviar o café para o Concurso Nacional de Café, um concurso muito importante no Brasil e o nosso café foi premiado”, contou.

Como experiente produtor de grãos tinha a pretensão de diversificar a produção como uma nova experiência na fazenda Irarema. “Eu estava um pouco perdido porque eu sempre fui produtor de grãos e não entendia nada de oliveiras mas, aconteceu um fato comigo que me marcou muito, foi o primeiro ano que extraíram o azeite de oliva na nossa região, na fazenda do Roberto Marinho. Meu primo Renato me convidou para ver a extração e no local estava um grego — amigo do Roberto Irineu Marinho — o qual plantou oliveiras no Brasil. Fomos ver a primeira extração de azeite dele. Quando o azeite começou a sair dourado o grego gritava, impossible! O olfato e paladar do grego não estava acreditando que no Brasil um olival de três anos pudesse produzir um azeite daquela qualidade”, descreveu.

O tempo passou. “Minha mulher disse que sonhou que estávamos morando na fazenda. Eu disse: mulher, você está ficando doida! Acabei de vender uma fazenda no Mato Grosso e você quer morar na fazenda? Que fazenda que tem por aqui (em Poços de Caldas)? Ela disse: Ali pra baixo tem duas fazendas. Eu e meu filho Moacir fomos ver a fazenda. Chegando lá tem a fazenda de uma prima que não será vendida nunca porque não precisam daquilo pra viver. Fomos ver a fazenda Galeno, foi de um tio meu. Depois passou para um grupo da Noruega. Esse povo da Noruega tem tradição em produção de café tanto que o avô do dono comprou café do meu avô, porque são torrefadores de café na Noruega. E vi que haviam feito muitas benfeitorias na fazenda inclusive a reforma na sede, que eu moro hoje”, revelou.

Segundo sr. Maurício, os noruegueses não se acostumaram com as leis trabalhistas do Brasil e a fazenda virou uma indústria de levar os noruegueses na Lei. “O empregado trabalhava oito meses, levava na lei e ganhava R$ 20.000,00, e assim muitos fizeram. A fazenda começou dar prejuízo, então, compraram 46% da fazenda Ipanema em Alfenas e lá tudo mecanizado passaram a ter lucro e abandonaram a fazenda aqui em Poços por quatro anos. Quando eu e meu filho chegamos na fazenda, a primeira pessoa que avistamos foi o norueguês, conversamos e ele propôs que comprássemos a fazenda dele. Mas ele tinha um gerente que queria 2 milhões e 900 mil na ‘custa dele’, por isso que não vendia a propriedade . Eu disse: Essa fazenda está muito cara! O norueguês: Vou ficar no Brasil até terça-feira, faça a sua proposta. Eu fiz uma proposta bem baixinha. O norueguês: Aí também não! Sobe um pouquinho! Eu subi mais um pouco. Mais um pouco e fechamos por um valor muito aquém dos valores da região", relembrou.

O sr. Maurício conta que teve muito trabalho para poder habitar e reconhecer todo o espaço da fazenda. “Eu gastei um ano e oito meses com o trator e esteira limpando a fazenda, até em volta da casa dos colonos foi limpo. A fazenda não tinha água, tive que descobrir onde estava a água. Foi interessante porque um dia dei carona para um velho e ele disse que a melhor nascente estava no alto do morro debaixo de uma pedreira. Fomos até lá, numa pirambeira, chegamos e vimos que a caixa d’água estava destruída mas a água estava lá”, disse.

Depois de todo esse trabalho e dedicação conseguiu enfim plantar as oliveiras. “Eu acho que tudo na agricultura pede bom senso. Encontramos a Ramute Jaloveckaite e o Celso Camilo Ribeiro da Fundação Oliveiras do Brasil, fomos ver o trabalho deles nas fazendas de oliveiras. Pensei, agora acertei. Porque vi três olivais completamente carregados de azeitonas, com adubação e pulverização corretos. O meu olival recebeu os cuidados, evoluiu, equalizou o vigor. Em dois anos, em dezembro deste ano, vamos tirar os frutos”, conta com satisfação.

O sr. Maurício faz questão de destacar o grande problema que o Brasil enfrenta hoje com as falsificações dos azeites. “Nós temos obrigação de produzir um produto bom. A bandalheira que é o azeite no mundo hoje, está levando os pequenos produtores de azeite abandonarem a produção por causa das grandes indústrias Unilever e Cargil, que atuam no mundo do azeite e tem prejudicado os pequenos lagares porque não tem condições de se juntarem através do cooperativismo”, afirmou.

Ao visitar a Espanha, o maior produtor de azeites do mundo a família constatou que 25% dos lagares atendem a demanda do turismo, a fazenda Irarema situada num município turístico, o foco com o lagar foi direcionado para fomentar o turismo. O lagar da fazenda Irarema está sendo administrado pelo filho de sr. Maurício, o Moacir Carvalho Dias. “Pensamos no designer do negócio para atender o turismo no local, as pedras da fachada da indústria (lagar) vieram do pasto — onde iam fazer um furo para plantar uma oliveira. As pedras eram retiradas para compor a fachada do prédio”, explicou Moacir.

O Projeto de plantio de oliveiras da fazenda compõe desde a colheita da fruta, extração, a degustação de azeites — para que o turista saia com o conceito de um bom azeite — e a loja com vários produtos oriundos da produção da fazenda como sorvetes de lavanda, alecrim, manjericão, geleias das jabuticabeiras centenárias e de azeite. Com os galhos das oliveiras que são descartados, serão transformados em utensílios valorizados pela beleza da madeira da planta (rajada). O lagar — central de extração de azeites — já está funcionando. Toda a estrutura do local foi planejado para a indústria, como não há legislação para indústria de azeites no Brasil “Pedimos pra Vigilancia Sanitária um parâmetro legal para a construção com os paramentos das normas da indústria de laticínios. Fizemos o Projeto com investimento para trabalhar com o cooperativismo. Eu almejo ter 100 pequenos produtores da região. Já temos a nossa marca que é o azeite Irarema e vamos ter a marca azeite Serras Altas — o azeite cooperativo”, completou sr. Maurício.

Um azeite de qualidade não depende somente da qualidade da máquina de extração. Segundo Moacir, a qualidade do azeite começa na colheita da fruta no campo. A fruta deve estar saudável (sem doenças e frescas), inteira, é preciso saber o grau de maturação da fruta. Existem dois métodos para achar a curva de maturação da fruta; pelo penetrômetro ou pela curva de rain. O teste com o penetrômetro é um aparelho que fura a fruta e se o material coletado der o resultado abaixo de 250g por ml2, a fruta está mole. “Se a fruta mole for transferida para uma caixa, após a colheita, ela vai dar início a oxidação. Se a fruta ficar entre 250 e 350g por ml2 é o ideal para a colheita, com uma fruta firme . A curva de rain consiste em colher entre três e quatro a curva de maturação - colhe-se 100 frutos aleatórios de cinco árvores e vai montar a sua coloração. “Eu discordo desse método para o Brasil porque se eu colher as azeitonas na curva entre 3/4 que indica a literatura, a azeitona terá uma vida útil de apenas seis meses. Tivemos a experiência de colheita no grau de maturação nível 1, ontem à noite experimentei o azeite de 10 meses está perfeito. Não importa o tipo e a técnica utilizada na colheita, desde que os coletores não pisem nas frutas - o pisoteamento faz romper a película, já inicia a oxidação e o azeite será de má qualidade. O armazenamento da fruta, o transporte em caixas de 20kg que seria o ideal é complicado mas a caixa tem ventilação e nós temos azeitonas muito pequenas - se baterem na beirada da caixa vai machucar e oxidar. Acredito que a melhor forma é a do Sítio Pica Pau, como não pode usar caixas de plástico sem ventilação, foi acrescentado um tela fina dentro das caixas para a planta não bater nas fissuras da caixa. Um detalhe como esse, é mais um detalhe da preservação integral da fruta na colheita, no final dá diferença de qualidade. E na colheita evitar pico de temperatura entre 11 e 14:00 hs, após a colheita preservar a fruta numa temperatura inferior até o recolhimento é muito importante”, frisou Moacir.

A fazenda Irarema tem feito a extração do azeite assim que realiza a colheita da fruta. “O melhor em todos os mundos é colher e processar no máximo 4 hs depois. A higiene do lagar influência na qualidade do azeite, se passar 2 horas e não tiver nenhum processamento a máquina deve ser limpa de verdade, porque as impurezas são absorvidas pelo azeite. Uma experiência para comprovar o quanto o azeite absorve odores é derramar azeite sobre um prato, passar o seu melhor perfume e sentar em frente ao prato por 5 minutos, depois no dia seguinte cheirar esse azeite, a essência do seu perfume ficou no azeite. Então, os odores e resíduos devem ser totalmente descartados do lagar para você tirar um bom aroma do azeite. A água usada no lagar não pode ser reaproveitadas de rio, açude, água de estação de tratamento urbano, porque o processo de extração consome muita água e para separar o azeite da água é necessário injetar mais água e, se a água não for de qualidade acaba até contaminando o azeite. A temperatura deve ser abaixo de 27º, porque acima perde os polifenóis e a validade do seu azeite, influencia na análise sensorial a perda de polifenóis no processo. Para extrair um azeite espetacular não adianta passar por uma máquina com tecnologia de ponta e o armazenamento ser de forma inadequada. Três são os fatores que estragam o azeite; luz, temperatura e oxigênio — fazem acelerar a oxidação — o indicado é um ambiente escuro com temperatura controlada sem oscilações”, concluiu Moacir.

No início de 2018 a fazenda Irarema vai realizar a primeira colheita de azeitonas e extrair o primeiro azeite próprio. Com muito trabalho e dedicação a família Carvalho Dias contribui para a agricultura do Brasil.


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