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A história da família que produz o seu alimento

Benedito José Ramos (Dito Paraná) e Maria Helena Zaia Ramos (dona Lena)
Janeiro 2018

Família Ramos, os pilares que estimulam os vizinhos a se engajar na agricultura

A ONG Viva Pires valoriza a agricultura familiar e a permanência do homem no campo. Através do Projeto “A história da família que produz seu alimento” a entidade registra e faz história. Acompanhe a memória desses causos pelas redes sociais (Facebook: @ongvivapires)

O casal Benedito José Ramos (Dito Paraná) e Maria Helena Zaia Ramos (dona Lena) são moradores de bairro de Cascalho em Cordeirópolis, eles são os pilares que estimulam os vizinhos a se engajar na agricultura através da capacitação pelos cursos oferecidos gratuitamente por instituições e universidades, com o intuito de melhorar a própria renda familiar e aperfeiçoamento de técnicas de plantio, cuidados no manejo e escolha de alimentos que tenham um maior valor, no preço de venda, comparado a outras atividades agrícolas mais comuns na região. Em uma conversa com o casal, eles revelaram o desafio da agricultura familiar como modo de vida e como incentivam os produtores rurais do bairro Cascalho e de outras regiões. Saiba agora, como é esse impulso da família Ramos que produz o seu alimento.

Benedito José Ramos, chegou em Cordeirópolis por volta de 1978, veio de Santa Cruz do Rio Pardo (SP), divisa com o Paraná, por isso ganhou o apelido Dito Paraná. Uma de suas irmãs já vivia na cidade na qual ele veio tentar a sorte. Conheceu Maria Helena Zaia, cujo pai, Odécio Zaia tinha um sítio no bairro de Cascalho e era um excelente mestre na arte de embutidos, ou seja, produção artesanal de linguiça pura de porco e seus derivados. Dito Paraná, depois de 5 anos trabalhando numa empresa da cidade, teve a oferta da família Zanetti para gerenciar e formar uma fazenda de laranja em Barretos, era 1982. “Depois que fui pra Barretos, eu vinha a cada 15 dias namorar a Lena. Ao todo, namoramos por 7 anos. Construímos uma casa no centro de Cordeirópolis e quando casamos, em 1985, fomos morar lá em Barretos. Como eu me desentendi com um dos donos da fazenda, resolvi vir emborano outro ano e não trabalhar mais pra ninguém, vou fazer as coisas pra mim”, ele descreveu.

Casada, Maria Helena virou Dona Lena, que agora entra na conversa, “voltando de Barretos, consegui emprego em um escritório contábil. Morávamos em nossa casa no centro e vínhamos visitar meus pais no sítio. O Dito ficava só observando meu pai preparar as linguiças, até que um dia meu pai deixou tudo mais ou menos preparado, só faltava temperar, e foi numa consulta”. Seu Dito completa, “tinha um monte de 'massa' em cima da mesa e esse homem tava demorando muito pra chegar. Pensei comigo mesmo, eu é que vou temperar. Peguei aquele monte de alho, piquei bem picadinho na faca, coloquei pimenta vermelha, um pouco de pimenta-do-reino e preparei tudo no olho, não tinha balança naquela época. Quando ele chegou, viu tudo pronto e pegou um pouco pra testar na frigideira e já saiu dizendo que ele não ia mais temperar a linguiça que já podia ficar pra mim”. Dona Lena relembra, “quando aconteceu isso com a linguiça, o Dito me disse ‘é por aqui que nós vamos’. Eu fiquei trabalhando no escritório e o Dito vinha pro sítio fazer linguiça. A freguesia foi aumentando, tive que começar a ajudar com a linguiça. Chegava de um serviço e ficava até 9 ou 10 horas da noite ajudando no outro. Como eu não dirigia, 'breganhamos' a nossa casa na cidade por essa chácara, que era de uma prima minha, tinha 34 mil metros e, é vizinha do meu pai”, ela contou.

Novo ofício
Seu Dito virou produtor e vendedor de derivados de carne bovina e suína na rua, matava 7 porcos por semana, mais 3 novilhas ou bois, "eu fazia de tudo, codiguim, figadel, chouriço, torresmo, banha, peças de carne embalada. Era uma época que a produção agrícola não tinha valor, o milho que eu plantava, não dava renda nenhuma, a mesma coisa com a laranja que eu tinha. Não cheguei a plantar abacate porque ele era vendido a R$3,00 a caixa de 20 kg, hoje está saindo por R$25,00. Arranquei minhas laranjas e plantei o milho só pra não largar a terra sem nada. O meu negócio se tornou preparar os cortes das carnes, fazer as linguiças, buscar queijo de Minas Gerais, doces e sair vendendo. Eu lotava a Kombi. Tinha um senhor que me ajudava com o gado e pouca coisa que tinha no sítio. Mas me virava mesmo como um mascate na rua, 4 vezes por semana. Tinha 287 clientes no caderno, foram 20 anos nesse negócio. Construi uma estrutura de açougue aqui no sítio, tinha serra, máquina de moer, pra encher linguiça, pia grande pra lavar as coisas, tudo azulejado. Nesses 20 anos trabalhando com a linguiça, nunca nenhum freguês reclamou que alguma mercadoria estava estragada. Era tudo fresquinho, no maior capricho e higiene”, emendou seu Dito.

Embutidos e in natura
“Eu sempre fui de fazer cursos, quando calhou um curso sobre plantio da banana, comecei a fazer as contas e vi que era algo pra dar certo e, um vizinho, o falecido Nelson Zanetti, era o único que plantava banana aqui no Cascalho, ele me dizia que era um ótimo negócio, e o plantio dele não tinha técnica e o manejo era largadão. Resolvi plantar 1.600 pés para começar, em 2003. Após 15 meses do plantio, na primeira safra vendi tudo particular. O comprador vinha de Piracicaba e colhia tudo. Enquanto isso também trabalhava fazendo e vendendo a linguiça e engordando 60 bois no cocho”, contou seu Dito. Comercializar a outra safra da banana foi difícil, o comprador de Piracicaba não quis mais, o jeito foi usar a cabeça, “pela embalagem de um doce de banana que comprei no bar, vi um telefone de uma fábrica em Santa Rita do Passa Quatro. Liguei lá e eles compravam. Junto com meu empregado começamos a colher pra mandar pra essa fábrica, depois descobri outras em Iracemápolis e São José do Rio Pardo. Eu não tinha câmara de maturação e pagava esse serviço lá em Araras. Eu tinha que levar e depois buscar no Parque das Árvores, 20 km daqui de casa, fiquei um ano fazendo isso. Cortar, levar, buscar e entregar as bananas. Quando eu descobri que podia vender pra merenda escolar, financiei uma câmara de maturação pra poder pagar em 10 anos. A câmara é pra 200 caixas de bananas. Quando instalei, ela tomou metade do espaço da linguiça”, explicou. Já equipado pra poder fornecer as bananas na maturação ideal e entregar nas escolas, seu Dito foi falar com o prefeito de Cordeirópolis; “O Fêio ainda era o prefeito daqui, ele me disse que compraria as bananas, mas eu tinha que falar com o secretário de educação da época, que hoje é o nosso atual prefeito Adinan Ortalan”.

Merenda escolar
Seu Dito era o presidente da Associação de Produtores Rurais do Bairro de Cascalho, cargo que ocupou até 2007, depois voltou em 2014 para poder transformar a Associação em uma Cooperativa dos Produtores Rurais de Cordeirópolis, fato que ocorreu em 2015. “Conforme eu vi que o negócio foi dando certo, eu comecei a chamar outros produtores de alimentos. Só que ninguém acreditava. A maioria falava que a prefeitura não paga. Só depois que o Everaldo Sanguini veio trabalhar com pai dele aqui em Cascalho que começou a ganhar volume entregar pela Associação”, ele disse. Depois de 7 anos de experiência com entrega nas escolas de Cordeirópolis e Rio Claro, a Associação ficou pequena, hora de virar cooperativa. “Pra virar cooperativa buscamos na CATI de Piracicaba uma pessoa capaz de nos ensinar as leis e como funciona tudo. Começou um curso, que acontecia a noite aqui em Cascalho, nós íamos buscar a Tatiane e depois levar até Piracicaba. Agora, entregamos pela Cooperativa aqui em Cordeirópolis, ponto-a-ponto”, falou seu Dito.

A escolhar
Mas os ossos do ofício do trabalho árduo, pesou. Por problemas na coluna e algumas cirurgias depois, seu Dito teve que parar com a produção dos embutidos, mesmo não matando mais os porcos, já comprando limpos e abatidos, contanto com a ajuda do cunhado, foi preciso escolher. A escolha foi ficar com a produção do sítio onde, além das bananas, tem algumas cabeças de gado, frango caipira, ovos, porco pra engorda, abacaxi, alho, chuchu, mandioca, cará, inhame, batata-doce e tem uma área que já está reservada para abóbora, diz que vai plantar 60 pés de limão e enfrentar a “praga do greening”. Seu Dito e dona Lena precisaram também parar com o ponto que tinham na feira do produtor de Cordeirópolis, Hoje as tarefas são divididas com Dona Lena que cuida da “papelada” e seu Dito nos contatos com produtores, fornecedores e compradores. 100% do que produz de bananas são entregues na merenda escolar. No sítio de 7,3 hectare o manejo e produção é divida com meeiros, “graças a Deus apareceu essa ideia”, desabafa dona Lena e seu Dito relembra; “essa ideia de meeiro veio com um curso de capacitação rural que da Associação. Todos os cinco professores falaram que o melhor sistema de trabalho é através da parceria e nunca plantar uma coisa só na propriedade. É assim que está funcionando nossa produção da banana. Fazemos um contrato de arrendamento com o meeiro, plantamos em parceria, a pessoa trabalha ali, a gente favorece ele e ele ajuda a gente. Com esse contrato ele pode tirar a DAP (Declaração de Aptidão de Produtor Familiar), um talão de nota fiscal e tem o direito de vender R$360 mil por ano, em diversas prefeituras pelos programas PAA, PNAE e PPAIS. É muito mais tranquilo essa parceria de amigos, cada um tem sua porcentagem e quanto mais trabalhar mais vai ganhar. O segredo de encontrar um meeiro parceiro é ir atrás de quem já tem experiência. Esse meu parceiro da banana veio do Vale do Ribeira (SP)”.

Dona Lena conclui qual foi o impulso da mudança, “o que mais ajudou a gente foi a visão que o pessoal está tendo depois de fazerem os cursos. Na pequena propriedade, você tem que plantar em cada pedaço um pouco de cada coisa, pra ter uma rotatividade. Já plantamos maracujá, colhemos feijão, esses dias colhemos 4 canteiros de alho, vendemos uma parte e outra ficou pro gasto. O feijão foi plantado no meio do abacaxi e da mandioca, quando nova. Como a propriedade é pequena não pode ter só banana ou só laranja e ficar esperando a safra pra vender, tem que ter uma outra saída, se não você não tem renda. Os antigos são assim, ninguém fazia curso algum e, foi fazendo esses cursos que a gente se animou”, disse.

Pra encerrar seu Dito soltou: “não temos nenhum filho mas, temos uma ‘sobrinhada' que não sai daqui”, ou seja, o trabalho e investimento no campo não param nunca. Por falar em investimento na agricultura seu Dito não mede esforço, curioso do jeito que é, estava doido pra comprar um pedaço de terra que encarou uma viagem até o Tocantins. Foi um total de 2.200 km, sendo 480 km em estrada de terra, dentro de um Fusca, em 1989 mas, isso já é uma outra história de uma família que produz o seu alimento…


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