PEDAGOGIA COLONIZADORA

Precisamos de imagens múltiplas de mundo para educar as crianças

II Seminário Internacional sobre Infâncias e Pós-Colonialismos: Pesquisas em busca de Pedagogias Descolonizadoras

Edição 185 | Limeira, Janeiro de 2016 | Ano XI |

Prof.  Dra. Maria Carmem de Oliveira Barbosa

Ao centro a professora Dra. Maria Carmem de Oliveira Barbosa durante o II Seminário Internacional sobre Infâncias e Pós-Colonialismos


No Brasil, tem-se a impressão de que, quanto mais se investe em educação, menos resultados reais alcançamos. O que tem dado errado? Por que as crianças permanecem tanto tempo nas escolas e não aprendem o suficiente para que a educação forme alunos competitivos? Será que os profissionais da educação conseguem se comunicar com as crianças? A pedagogia que está posta, dá conta da proposta a que veio? As perguntas são muitas. O II Seminário Internacional sobre Infâncias e Pós-Colonialismo, na Unicamp, questionou-se a postura dos adultos perante as crianças e a relação infância e pedagogia como contemporaneidade no pós-colonialismo. As crianças pequenas têm uma grande capacidade. Necessitam ser ouvidas, respeitadas e ocuparem um lugar diferenciado no mundo. Nós temos o compromisso de uma educação que possibilite as relações das crianças com os adultos, de forma a habitar o mundo que vivem, aprender, criar, imaginar, conviver, aprender a viver juntos. A atual necessidade de sobreviver neste planeta aponta para a procura daquilo que nos diz respeito como seres que compartilham um mundo em comum.

Segundo Maria Carmem de Oliveira Barbosa, professora doutora da Faculdade de Educação da UFRS, há duas maneiras de perder-se nas relações com as crianças. Por segregação, atrás das muralhas do particular ou por diminuição no universal, pois, o universo está constituído pela relação recíproca de todas as singularidades. "Sim, as crianças pequenas são muito fortes e com suas singularidades decoram o mundo que criamos, com os modos de viver, de organizar tempo e espaço, de desvalorizar o desejo de ir apagando a vida presente. Manoel de Barros comentava que, com certeza, a liberdade e a poesia, a gente aprende com as crianças" aponta Carmem. Para pensar a educação das crianças é preciso ter uma percepção sobre o futuro, uma ideia breve, aberta, um projeto não findando. Porque não queremos um projeto unificado de futuro. "Não queremos um único mundo desenhado por nós, que julgamos saber qual mundo melhor para todos. Um mundo em que os processos educativos tenham lugar no presente é preciso agir com olhos para o futuro porque a perspectiva única de mundo que temos é oásis neoliberal de educação, de vida de criança, vida de professor. E talvez a possibilidade de romper com essa narrativa é poder olhar o mundo neoliberal. Precisamos de imagens múltiplas de mundos para educar as crianças. Os modos de propor a educação das crianças pequenas na atualidade pode e deve romper com o projeto etnocêntrico, as crianças têm o direito de conhecer os mundos a partir de outros pontos de vista pois assim terão outros modos de narrá-lo e viverem neles", explica Carmem.

Multiversos
Os cosmólogos dizem que não podemos mais falar em universo, sim em multiversos. E quantos mundos temos? São muitos. Cada um de nós tem em si muitos mundos. Nossas identidades cada vez mais se multiplicam, se compõe com outras, se reorganizam, isso tem relação com as crianças, as escolas, as pedagogias. "Nesse 'mundo único' que vivemos tudo que é local, é global, tudo que está no norte está no sul, apesar das separações sempre que retomamos do ponto de vista ecológico, nunca mais haverá separação. Isso nos coloca frente a problemas para propor um projeto educacional, pois toda escolarização moderna foi assentada numa visão binária. É possível mudar se os mundos são muitos e o planeta é um só? Crise ambiental com a presença da possibilidade do fim do mundo põe em suspensão a atitude de otimismo humanista de vivermos. E nos coloca como cidadãos e professores em situação de pensar que a natureza e meio ambiente são demasiado importantes para serem deixados nas mãos dos cientistas naturais ou dos políticos, e que precisamos agir tanto como cidadãos quanto professores. A ecologia e tantos outros tópicos como classe-gênero-raça são grandes tópicos que precisam preencher a escola dos professores para que os mesmos produzam efeitos no campo da pedagogia. Não apenas como temas a serem estudados, mas, como constituição de modos a ficcionar esse mundo como imagens, como metodologias de ações coletivas", descreve Carmem. Sobre o tema ecologia, ela apresenta duas soluções extremas assim como na educação. 1) A economia política da aceleração, afirma que com a técnica e gestão de recursos ou com mais capitalismos tudo vai se regular, na busca por um mundo feliz. 2) Por outro lado, há aqueles que defendem uma ecologia política, da lentidão, do menos. "Na educação temos esses dois pontos opostos colocados como escolhas pedagógicas. Trata-se de muitas versões que falam do desenvolvimento econômico como um único destino social. É necessário irmos além do desenvolvimento, pois é sempre incompatível com a justiça social e direitos e com a sobrevivência cultural", avaliou Carmem.

Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Formação sustentada em princípios democráticos

Pensar a educação dos meninos e meninas pequenas exige pedagogos que vivenciam uma formação sustentada em princípios democráticos


Desenvolvimento
A palavra desenvolvimento vem sendo criticada fortemente do ponto de vista econômico-político. Os adultos esperam que as crianças se desenvolvam através das escolas, mas, sempre haverá vítimas do desenvolvimento, ainda que pareça emancipatória e democrático sempre haverá autoritarismo e controle científico, mais desalojados, mais marginalizados. O desenvolvimento é incompatível com certas tradições culturais das nossas crianças. "O que se espera do desenvolvimento das crianças na escola? A questão que procuramos enfrentar sobre a pedagogia é pensar a escola como único ou lugar certo para as crianças. A infância e a escola são invenções da modernidade. E como afirmam os pensadores e coloniais, a modernidade só existe porque houve a colonização da América. A colonização trouxe a escravidão, o furto das riquezas, as guerras, o armamento e a destruição da história de povos inteiros - se iniciou a modernidade europeias como modelo de desenvolvimento para a América Latina. O nosso modelo de educação é pautado no modelo europeu. Isso sacrifica nossas relações do ponto de vista da nossa identidade, nossa cultura, nossa história", explica Carmem. Esse modo de relação com o mundo criou uma ciência que estipulou um modo único de ser criança e criou uma instituição especifica - a escola. Uma instituição que afastou as crianças do mundo adulto. Uma escola que constituiu um vocabulário que pra nós parece ser único, o vocabulário escolar.

Colonialidades
"Numa educação pós-colônia é fundamental que mudemos o nosso vocabulário para discutir a pedagogia. Há uma lógica. Três tipos de colonialidades: a colonialidade do poder, a colonialidade da economia e da política (do saber, da filosofia, a científica, das relações entre as línguas e o conhecimento) e a colonialidade do ser que é a da subjetividade (do controle da sexualidade, do gênero, dos sentimentos e das etnias). Essas colonialidades colocaram os adultos em oposição às crianças e no processo de colonização colocam os adultos embrutecidos ao colonizar o outro. Como a colonização trabalha primeiro para ‘des' civilizar ao colonizador, para embrutecê-lo, para degradá-lo, em nome do desenvolvimento temos degradado nossas relações ", revelou Carmem. Empobrecemos o mundo em que vivemos e exigimos que as crianças cresçam mais cedo, mais rápido para serem consumidas no mundo. Crescer é um processo longo. As crianças precisam de tempos longos. É possível pensar e propor, fazer um processo educacional que não seja colonizador? Há de haver uma relação de adultos e crianças pautada na confiança, na construção de um espaço radicalmente democrático. Na educação das crianças, alguns gestos lhes foram subtraídos como os gestos corporais, os gestos de atenção, os gestos de ficção, os gestos de linguagem. Não podemos nos contentar com o não interromper. Há algo mais a ceder e alargar o tempo das crianças. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
"Se tivesse que dizer numa única frase, a tarefa de educar as crianças, diria, educar só insiste em fazer durar a infância todo o tempo possível, perder-se com elas em um porto sem divisões nem de regiões de privilégios, deter-se com elas numa ficção de travessias e experiências. Os humanos não nascem sabendo sonhar, imaginar, perceber, agir e pensar. Aprendem com os outros a tornarem-se capazes de escolhas, tomar decisões sem vigiar a complexidade da faixa de idade impõe não recuar da potência dos menores, das crianças pequenas que iniciaram ações no mundo. Pensar a educação dos meninos e meninas pequenas exige pedagogos que vivenciam uma formação sustentada em princípios democráticos com métodos que influenciem a presença da participação das crianças. O pensamento pedagógico constantemente refletido, exigente, comprometido. Essa descoberta exige um esforço de criação daqueles que convivem diariamente com bebês e crianças pequenas, exige a intencionalidade de reencantar o mundo na multiplicidade dos reencontros com as crianças", completou Carmem. O pedagogo pode fazer do espaço público da escola um lugar de encontro, um laboratório de colaborações no sentido de responsabilizar o docente na tarefa de partilhar, onde o aprender, o ensinar, o admirar, o conviver e o constituir convivem sempre na busca de novas possibilidades.
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