BIODIVERSIDADE ALIMENTAR

Agroecologia, Sistemas Agrícolas e Dietas Alimentares: um caminho para a era da abundância

Prof. Carlos Armênio Khatounian

Edição 185 - Janeiro 2016

Convite - Seminário Biodiversidade Alimentar e Agroecologia
Seminário de Biodiversidade Alimentar e Agroecologia
Cora Coralina, poetisa goiana, nasceu na cidade de Goiás - capital do estado desde o período colonial. Cora Coralina, uma mocinha de classe média deprimida, de um local em estagnação econômica, casou-se com um advogado, saiu de Goiás para viver em vários outros lugares do país e afinal, com mais de 60 anos, voltou pra cidade de Goiás e começou escrever sobre as experiências dela enquanto menina, que cresceu naquele lugar decadente. Um lugar decadente ao qual baseou sua existência sobretudo nos recursos locais, com uma cultura dominada pelos valores da sua sociedade. Dentre outras coisas ela escreve uma oração do milho e um poema do milho. História da ‘Casa Velha da Ponte’. Querendo fazer um elogio ao milho, planta básica da época, ‘O milho falando pra Deus’: “Senhor, nada valho... Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo, nem de mim se faz o pão alvo e universal...Sou apenas a fartura despreocupada dos paióis, alimento dos rudes e dos animais de carga”, Cora Coralina, 1980.

"O pão é Universal? Na Ásia come-se pão? Na Ásia Central, um pouco na região atrás do Himalaia. Na Ásia, o alimento essencial é o arroz. Na África se come pão? Ao norte do Saara. Na América Latina se come pão? Historicamente não houve grande expressão. O que sobrou desse Universal? Todos os povos para a poetisa são: os alemães, os espanhóis, os franceses, portugueses e ingleses. Esse povo era o ‘Universal' na cabeça de Cora Coralina. O brasileiro é um povo sentado no continente que não olha a oeste, pra Africa, nós olhamos para o norte, para a Europa e aquilo é que o topo do nosso universo", explica o Prof. Carlos Armênio Khatounian. Cora Coralina diz, “valorizando o milho” - “sou apenas a fartura despreocupada dos paióis” - alimentos dos rudes e dos animais de carga”. “Entenda-se: quem come milho é inferior. Tá escrito. Para entender o quanto a nossa alimentação é discriminatória basta ler artigo publicado no Centenário da Independência de 1922, escrito por um médico cientista de muita proeminência na política da época, Pereira Barreto, escreve sobre o feijão: ‘Alimento ótimo para os trabalhadores do machado, a enxada, a foice, mas, incompatível com aqueles de digestão mais delicada’, (disponível no site do jornal Estadão, 07/09/1922)”. “Nesse artigo, o médico demonstra que, se, num primeiro momento a ocupação europeia se deslumbrou com as possibilidades da agrobiodiversidade do Brasil, num segundo momento pelo sucesso biológico dessa agrobiodiversidade não servia para diferenciar as populações", explica Armênio.

“Um exemplo de que não temos consciência de que vivemos num clima e país tropical é que nesta Universidade (ESALQ - USP) não importa a temperatura, no prédio central, os dignatários estarão usando terno com ar condicionado ligado. No Brasil, adota-se comportamentos ao estilo europeu mesmo que pra isso temos que manter uma usina nuclear no Rio de Janeiro, pra gerar energia, pra manter o ar condicionado dos prédios do Rio", exemplifica.

Professor Armênio vai mais longe ao exemplificar como os brasileiros elegeram alguns alimentos com status e outros com menor valor agregado, quando servido a sociedade. "Para organizar uma festa 'chic' usamos vinhos e queijos. Nunca torresmos. Vai servir manga e banana? Não. Só frutas com caroços, ameixas, uvas... Abacaxi? Talvez, se quiser fazer uma festa temática tropical, pode estar presente no cardápio mas não ter relevância no prato principal. Essa é a mentalidade do brasileiro. O que isso tem a ver com a sustentabilidade? Nós tivemos que nos conformar em quatro séculos de história, de que o ambiente tropical definitivamente permitia, de tal forma que esta expectativa de destaque social, o status através do consumo de produtos de origem temperada ficava muito restrito a uma elite restrita e a capacidade de produção era irrisório", explica.
Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Para organizar uma festa 'chic' usamos vinhos e queijos. Nunca torresmos.
Prof. Carlos Armênio Khatounian: Para organizar uma festa 'chic' usamos vinhos e queijos. Nunca torresmos.

Mas houve uma série de modificações, sobretudo a partir dos anos 50. Os adubos minerais possibilitaram que plantas fossem cultivadas fora do seu habitat natural. Uma planta fora do seu ambiente é muito mais perseguida por pragas, não tem vigor para competir com o mato, mas, quando surge os recursos dos inseticidas e irrigação há a tentativa de sucesso. Com situações menos naturais, com um conjunto de controle, podemos produzir muitos alimentos fora do seu ambiente. "Como por exemplo, o alface dos meses de dezembro a fevereiro, o tomate de outubro a março, uva-Itália o ano inteiro, maçã o ano todo, batatinha na maior parte do país. Outra consequência com esses recursos de controle e, que pudemos estender áreas de lavouras tanto de plantas bem adaptadas quanto de plantas mal adaptadas, uma ampliação da dimensão das monoculturas. Se antes uma monocultura podia ser colhida sem herbicida por 50/100 hectares com centenas e milhares de hectares. Isso causou maior impacto ambiental por si e pelas quantidades maiores de mobilização de terreno", conta. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
“É verdadeiro que com isso produzimos mais alimentos. O drama é que embora produzindo mais alimentos numa quantidade desconhecida no planeta, desde 2004, o mapa de subnutrição do planeta continua preocupante com uma população entre 850 e 950 milhões de pessoas subnutridas e ao mesmo tempo convivemos hoje, com mais de 1 bilhão de pessoas com sobrepeso e obesidade. No Brasil nós pudemos dar vazão à nossa expectativa de mimetismo (adaptação) alimentar. Nas últimas três décadas do século passado. Não estou falando de algo abstrato. Coletivamente se percebe que fomos aumentando o tamanho dos alimentos que nos interessava comercialmente. Tivemos indicadores positivos de valor nutricional como calorias, fibras, cálcio, ferro e vitamina A?”, questiona o Prof. Carlos Armênio Khatounian. Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
© 2013 - Jornal Pires Rural