MEIO AMBIENTE

Fator econômico e produtivo frente às mudanças climáticas

Seminário Mudanças Climáticas Globais e Segurança Alimentar, enfrentando o futuro: mais quente, mais seco e mais úmido aconteceu na Unicamp, organizado pelo Cepagri - Meteorologia da Unicamp, o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação, e a Faculdade de Engenharia de Alimentos - FEA. Durante o seminário o Prof. Dr. Antônio Márcio Buainain, do Instituto de Economia da Unicamp, ministrou o tema: Riscos Agropecuários e Segurança Alimentar.

Edição 189 | Campinas, Maio de 2016 | Ano XI

Antônio Márcio Buainain

Antônio Márcio Buainain, do Instituto de Economia da Unicamp, ministrou o tema: Riscos Agropecuários e Segurança Alimentar, em seminário realizado na Faculdade de Engenharia de Alimentos - FEA, em Campinas


A possibilidade que o crescimento agrícola tenha aumento na demanda pelo contexto de mudanças climáticas e aquecimento global é uma pergunta ainda sem resposta. De fato, neste período mais recente, temos uma explosão dos preços agropecuários pela expansão abrupta da demanda, com a entrada de países como China e Índia e o aumento em países africanos e no Brasil, havendo, com isso, um desequilíbrio entre oferta e demanda. Isso explica o aumento dos preços nos últimos anos. “O aparelho produtivo correspondeu à capacidade de produção de alimentos, cresceu e se ajustou. A expectativa para os próximos 10,15 anos é de que continue ocorrendo, mas isso não é trivial. Nos últimos 10 anos foi relativamente mais fácil por uma série de evidências porque países como Brasil e Argentina tinham conseguido dar essa resposta, que vinha do crescimento da demanda, com tecnologia apropriada para plantar nas áreas de cerrado formada por uma classe de empreendedores dispostos a investir. Quais sãos os riscos que estão hoje colocados na continuidade deste cenário? O risco é que o sucesso do passado não é nenhuma garantia de sucesso no futuro, ou seja, o arranjo que foi possível montar para viabilizar a expansão da produção de alimentos não será garantia de uma nova expansão porque as condições estão mudando de uma maneira muito rápido, e precisamos estar preparados" enfatizou Prof. Antônio Márcio.

Segurança Alimentar
Segundo ele, a instabilização do regime de chuvas traz problemas sérios como o ocorrido neste ano em Mato Grosso do Sul. Essa instabilidade afeta a questão da segurança alimentar, ele comenta; “a segurança alimentar está relacionada com as mudanças climáticas no ponto da instabilidade, pode alterar a oferta, as perdas econômicas dos produtores, comprometendo a capacidade de produção por alguns anos. A pressão da instabilidade é resolvida com políticas públicas e formam estoques estratégicos. Nós não podemos trabalhar com os modelos de extremos, mas não podemos desconsiderar a possibilidade de um cenário extremo vir a acontecer, como a crise hídrica que a tingiu o estado de São Paulo”, citou.

Modelo Agrícola Romântico
No caso dos alimentos, relata o professor, devemos sempre considerar a hipótese e estar preparado para assegurar o sistema alimentar. Países como China e Estados Unidos e países da União Europeia mantém estoques reguladores estratégicos para garantir o abastecimento em períodos de emergência num cenário de crescimento como tivemos no Brasil nos últimos anos. “É evidente que não podemos imaginar que essa demanda será atendida com base num modelo agrícola romântico, baseado na agroecologia, baseado numa cultura orgânica, de baixa produtividade. É evidente que, na produção em massa passe a utilizar tecnologias e sistemas produtivos que são cada vez mais agroecológicos, que são cada vez mais orgânicos, que são cada vez mais sustentáveis. Não estamos em condições de nos dar ao luxo de abandonar alguns progressos das últimas décadas e inegavelmente tem um custo ambiental para produzir de uma maneira mais sustentável. O que temos que fazer é uma transição aonde vamos tornando aos poucos esses pacotes mais sustentáveis, usando tudo que já conhecemos para aumentar a oferta alimentar. Porque quando projeta o crescimento da demanda de fato, teríamos vários choques", afirmou Prof. Antônio Márcio.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Prof. Dr. Antônio Márcio Buainain

"Precisamos desenvolver tecnologias para esse cenário de aquecimento global, para o cenário de mudanças de chuvas que inevitavelmente ocorrerá mas, não vejo movimentos sólidos”, apontou Antônio Márcio Buainain.


Padrão de Consumo
Aumentar a produção agrícola nos remete a um aproveitamento muito mais intenso por recursos naturais, de terra, que hoje é tremendamente desperdiçado em áreas degradadas, espaços periurbanos não utilizados. Do lado da demanda também é preciso avançar porque temos um padrão de consumo de alimentos que é insustentável. “Podemos comparar o padrão de consumo de alimentos ao padrão de consumo de automóveis. Quando o automóvel vira objeto de consumo de massa em países como Brasil e China, fica evidente um padrão de consumo insustentável. Então, da mesma maneira que o padrão de consumo geral da sociedade de hoje é insustentável, precisamos mudar de um consumo de tangíveis altamente consumidor por recursos naturais para intangíveis com menos consumidores de produtos naturais. Precisamos mudar o padrão de consumo de alimentos porque estamos gerando uma sociedade de obesos com uma alimentação distorcida. O sistema como um todo tem que mudar reduzindo fortemente o serviço, com mudanças profundas no padrão de produção de alimentos, no padrão de consumo de alimentos, na própria cadeia de alimentos, uma mudança cultural intensa. A indústria e todo o sistema começa a se preocupar com o desperdício e investimentos gerando uma transição tecnológica para um cenário sustentável, aí está o ‘calcanhar de Aquiles’ porque a trajetória das inovações das empresas está ocorrendo em função da realidade que elas têm. Hoje, não temos grandes atores trabalhando em rupturas. Os grandes líderes da inovação tecnológica na agricultura ainda estão explorando progressos tecnológicos dentro do paradigma de gente. Temos que imaginar tecnologias para daqui 20 anos com a Embrapa preocupada com uma agenda de hoje. Se a Embrapa tivesse se preocupado com a agenda do hoje nos anos 1970, não teríamos a exploração do cerrado. Nós precisamos de uma agenda para daqui 20 anos, não enxergo isso hoje no nosso portfólio de ciência e tecnologia", destacou Prof. Antônio Márcio.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
O aquecimento e as mudanças climáticas pode ter um impacto na mudança da geografia agrícola muito significativa. A tecnologia de produção atual não têm respondido a cenários de aquecimento. "Precisamos desenvolver tecnologias para esse cenário de aquecimento global, para o cenário de mudanças de chuvas que inevitavelmente ocorrerá mas, não vejo movimentos sólidos de preparação. As iniciativas são muitas na Unicamp, Embrapa, Governo Federal, sem orçamento suficiente para o desafio. Não há nada consistente no Brasil em termos de investimento para enfrentar esse problema. Temos o risco do futuro chegar e não estarmos preparados. Nos últimos anos temos melhorado as sementes. Não temos como dar respostas para o enfrentamento das mudanças climáticas sem ciência, tecnologia e inovação e investimentos ", concluiu Prof. Antônio Márcio.
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