SEGURANÇA ALIMENTAR

A economia do consumidor invade a produção agrícola

O dia Meteorológico Mundial trás o tema, proposto pela Organização Meteorológica Mundial (OMM): Enfrentando o futuro: mais quente, mais seco e mais úmido. Ondas de calor, secas prolongadas, chuvas intensas e enchentes, estão se tornando eventos cada vez mais frequentes.

Edição 189 | Campinas, Maio de 2016 | Ano XI

Pedro Abel Vieira Jr. da Embrapa

"Na década de 70, tomou-se a decisão de que o Brasil seria uma "Potência Agrícola" ocupando o cerrado e o semiárido. Hoje isso é realidade", observou Pedro Abel Vieira Jr. da Embrapa Tecnologia Agropecuária e Segurança Alimentar


Os eventos climáticos extremos afetam todos os setores da sociedade. Na agricultura, os parâmetros climáticos exercem influência sobre todos os estágios da cadeia de produção agrícola, incluindo a preparação da terra, a semeadura, o crescimento dos cultivos, a colheita, a armazenagem, o transporte e a comercialização. Estas mudanças impactarão a produção de alimentos e também a sua industrialização. Abordando esses aspectos o Seminário de Mudanças Climáticas Globais e Segurança Alimentar proposto pela Unicamp, na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), com participação da Cepagri - Metereologia Unicamp e o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação convidou o Dr. Pedro Abel Vieira Jr. da Embrapa Tecnologia Agropecuária e Segurança Alimentar para propor uma discussão sobre o tema. Leia a seguir o discurso do pesquisador.

A previsão de que em 2050 teremos 9 milhões de habitantes na terra, e as projeções da FAO dão conta de que o Brasil precisa aumentar em 40% a sua produção de alimentos para alimentar esses 9 milhões de pessoas, isso têm mobilizado os pesquisadores e cientistas. Será que nos próximos dez ou vinte anos conseguiremos responder sobre aumentar em 40% a nossa produção de alimentos?

Segundo Dr. Pedro, até hoje, o Brasil e a Argentina responderam a produção de alimentos porque tinham um estoque de conhecimento. O Brasil tinha um estoque de conhecimento acumulado que é a produção agrícola no cerrado e isso deu muito trabalho e precisou de determinação e planejamento, como ele explica, “na década de 70, tomou-se a decisão de que o Brasil seria uma "Potência Agrícola" ocupando o cerrado e o semiárido. Hoje isso é realidade. Estamos colhendo os frutos, podendo atender a demanda da China com a decisão tomada na década de 70 e perseguido com obstinação", afirma Dr. Pedro.

Na década de 1990 a variação dos estoques de alimentos foram considerados problemas sérios, pois, tínhamos um estoque de abastecimento de alimentos no mundo e uma política de subsídios aos agricultores nos países europeus, e como consequência a instabilidade econômica do sistema.

Certeza ao agricultor, dá-se certeza ao pesquisador e a indústria
“O Brasil enfrentou dificuldades e a Embrapa mesmo sem recursos persistiu juntamente com Esalq, Unicamp, e conseguimos reagir ao desafio. Então, a pesquisa precisa que o sistema econômico esteja funcionando normalmente como incentivo aos investimentos. Eu vejo com otimismo o trabalho das refinarias. Quando Estados Unidos resolveu produzir etanol de milho causou um problema sério - quanto à ameaça de que os mexicanos não teriam mais tortilha porque ia faltar milho - isso foi uma ajustamento na economia. Hoje, a produção de milho dos Estados Unidos tem uma garantia maior porque além da produção de alimentos pode ser destinado para a produção de energia. Isso dá certeza ao agricultor de que ele pode produzir milho que o país vai consumir o milho. Dando certeza ao agricultor, dá-se certeza ao pesquisador, e a indústria, podendo investirem em tecnologia para aumentar a produtividade de milho. Eu vejo com otimismo essa diversificação de que as refinarias podem dar maior estabilidade ao sistema agrícola como um todo, estabilidade econômica garantindo o investimento", frisou Dr. Pedro. No Brasil, na década de 1960, fazíamos uso de mecanização a tração animal, que hoje é ultrapassado. Na década de 1980 começávamos a ocupar o cerrado. Agora temos drones monitorando a nossa produção agrícola. Pedro Vieira diz: "isso traz uma complicação maior, porque os drones significam que o consumidor europeu, a dona de casa europeia, quer saber do rastreamento da uva que ela consome, por exemplo. Em tempo real, está vendo a produção e até se envolveu trabalho escravo na propriedade, ou seja, esse avanço trouxe novos riscos para a produção agrícola. O consumidor tem o poder de decisão sobre a produção do produtor rural, isso impõe riscos. A economia do consumidor invade a produção agrícola” aborda.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Pedro Abel Vieira Jr. da Embrapa

Pedro Abel Vieira Jr. da Embrapa, fala durante Seminário de Mudanças Climáticas Globais e Segurança Alimentar proposto pela Unicamp, na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), com participação da Cepagri - Metereologia Unicamp e o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação


Uma manga em 3D
Se no passado importávamos sementes de soja dos Estados Unidos - hoje temos condições de manipulação do gene - podemos produzir proteínas em laboratório, avançamos na desconstrução e reconstrução da biomassa. Falando, Pedro Vieira observou que: “temos um problema de abastecimento de estoques pois, se faltar soja no mundo não terá óleo de soja para consumo. Se tiver uma estiagem grave e doenças atacarem a produção no Vale do Rio São Francisco o europeu não terá manga para consumo. A desconstrução e reconstrução da biomassa permite que replique uma manga usando celulose de eucalipto, a essência da manga e açúcar da cana de açúcar através de uma impressora 3D. Será produzido o filezinho de manga a partir de outras fontes. Isso seria um tremendo avanço pra regular o abastecimento, para não depender mais da soja, do milho, da manga, da uva. Podemos reconstruir os nossos alimentos como bem quisermos, mas, isso ainda é embrionário, ainda é preciso avanço", destacou Dr. Pedro.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
A solução vem da biologia
Na questão ambiental, a roça dos indígenas do passado foi transformado pela expansão de área, pela aplicação de defensivos agrícolas, avançou para o plantio direto e os sistemas integrados. Numa mesma área produz grãos, carne, madeira, frutas, um ganho de estabilidade econômica para o produtor. “O principal argumento da produção integrada é que hoje o Brasil é um grande player na questão ambiental. Hoje o Brasil é protagonista na área ambiental. Mas continuamos dependendo do clima que influencia na regularidade da produção de alimentos. A solução da agricultura não vem mais da química, vem da biologia, pois, temos um enorme caminho pra trabalhar com inimigos naturais, controle biológico, micro-organismos selecionados com pesquisas indo a campo. Mas, não há investimentos necessários no momento para pesquisas sobre mudanças climáticas. É preciso mostrar para a Sociedade Científica Internacional as nossas possibilidades de pesquisas na área do clima assim, como apresentamos o plantio direto, o etanol foi reconhecido como combustível renovável. Os pesquisadores americanos e europeus tiveram que aceitar os nossos resultados. E a sociedade em geral tem que saber dos resultados, o pesquisador precisa se comunicar com a sociedade", concluiu Dr. Pedro.
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