METEOROLOGIA

Os eventos da variabilidade do clima

O Prof. Dr. Pedro Leite da Silva Dias, da Universidade de São Paulo, ministrou o tema "Como enfrentar as incertezas nas mudanças climáticas?”, na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), Unicamp, em Campinas. A palestra fez parte do “Seminário Mudanças Climáticas Globais e Segurança Alimentar, enfrentando o futuro: mais quente, mais seco e mais úmido”. De um passado, avaliado como um problema atmosférico hoje, as mudanças climáticas devem ser avaliadas através da química da atmosfera, química do solo, química da água, numa compreensão muito importante no estudo desses processos, esse e outros eventos foram abordados pelo professor, acompanhe.

Edição 189 | Campinas, Maio de 2016 | Ano XI

Pedro Leite da Silva Dias

O Prof. Dr. Pedro Leite da Silva Dias, da Universidade de São Paulo, ministrou o tema "Como enfrentar as incertezas nas mudanças climáticas?” destaca “à medida que o tempo passa, percebemos que a complexidade do problema (climático) é muito maior, pois, a forma como eu via o tema do aquecimento global desde os anos 80 até hoje, ocorreu uma mudança absurda.


Neste ano, o tema proposto pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) é: enfrentando o futuro: mais quente, mais seco e mais úmido. Ondas de calor, secas prolongadas em alguns lugares, chuvas intensas e enchentes em outros, estão se tornando eventos cada vez mais frequentes. Os eventos climáticos afetam todos os setores da sociedade. Na agricultura, os parâmetros climáticos exercem influência sobre todos os estágios da cadeia de produção agrícola, incluindo a preparação da terra, a semeadura, o crescimento dos cultivos, a colheita, a armazenagem, o transporte e a comercialização. Essas mudanças impactará a produção de alimentos e também sua industrialização.

Pedro Dias destaca, “à medida que o tempo passa, percebemos que a complexidade do problema (climático) é muito maior, pois, a forma como eu via o tema do aquecimento global desde os anos 80 até hoje, ocorreu uma mudança absurda. Como metereologista olhávamos para o problema no passado como um problema atmosférico. No final dos anos 1980, os meteorologistas chegam à conclusão de que não basta olhar para o céu, é preciso olhar para o oceano também. Nos anos 1990, ocorre uma mudança muito significativa na compreensão do processo, que é perceber a biosfera, o reservatório de carbono na biota (dióxido de carbono), tem um papel fundamental. No final dos anos 90 temos a conclusão de que o processo deve ser avaliado através da química da atmosfera, química do solo, química da água, uma conclusão muito importante nesse processo. Isso revela a conclusão da evolução do sistema climático da terra”, explica Dr. Pedro Dias.

O último levantamento do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) traz a grande novidade - o derretimento do sistema da camada gelada do solo - algo fundamental que tem muito a ver com agricultura. “A questão da fertilização da biota é importante porque ela aumenta a concentração de CO₂ , com a disponibilidade dos nutrientes - a questão climática já influencia os nutrientes do solo - o ciclo biogeoquímico. Os aerossóis de nuvens, fundamental na formação da chuva, as alterações das correntes oceânicas com chuva e degelo é algo que é muito interessante. A interação com a economia ocorre porque as emissões estão ligadas à atividades de ordem econômica", afirmou Dr. Pedro.

Segundo ele, para detectar a mudança climática, é necessário saber quais são as causas que levaram a variabilidade normal do clima do planeta, observar mudanças abruptas de clima de aquecimento e resfriamento. “Parte importante desse processo é controlado por mudanças orbitais nos registros de gelo da Antártida. Percebeu-se que claramente nos últimos 400 milhões de anos, ciclos de aquecimento e resfriamento nas eras glaciais. Esses grandes ciclos são associados à mudanças orbitais. Em cima desses grandes ciclos ocorreram outros associados com variações do próprio sol, que não é constante, outros efeitos, como mecanismo que permite mudanças significativas além de asteróides que impactou na terra e provoca mudanças no sistema terrestre", afirmou Dr. Pedro Dias.

Além do ciclo solar, grandes vulcões dispararam a idade do gelo durante alguns séculos entendidas como variações naturais como o vulcanismo, o qual provocou um efeito climático muito grande. “Uma das coisas que mudaram muito ao longo do entendimento das pesquisas do clima é a avaliação de quanto tempo um vulcão grande impactam na vida terrestre. Se me perguntassem há 10 anos atrás, responderia 3/5 anos no máximo. É o clima terrestre alterado por um grande vulcão. Se olharmos IPCC mais recentes, vários estudos apontam que o efeito do vulcanismo pode se estender por décadas, até 50 anos. Quando olhamos para essas concentrações de gases armazenados no gelo, por exemplo, na Antártida, coletou-se amostras de quase um milhão de anos. Temos variações em escala menor - 1940/1975 - esse período teve um impacto significativo na agricultura com clima muito mais seco nesse período, na Argentina - toda a agricultura presente no norte da Argentina não seria viável neste período", afirmou Dr. Pedro.

Os dados apontam que o Atlântico tem uma variabilidade intensa da ordem de 60 anos. A variabilidade da água do mar nos oceanos Pacífico e Atlântico podem ser medidas como impacto de chuvas no sul do Brasil. Último IPCC apresenta como seria o clima no século XX, sem a ação do homem, sem gases efeito estufa. De 1910 a 2010 apresentou aumento de temperatura e demonstra claramente que, mesmo considerando toda a incerteza da probabilidade climática, foi a introdução do efeito dos gases estufa que provocou o aquecimento observados. O aumento significativo da precipitação na América do Sul, norte da Argentina e sul e sudeste do Brasil, com mudanças em outras partes do mundo também estão demonstrados.

“Algo que vem assustando, nos dados do IPCC de 2007, me chamou muito a atenção foi o derretimento do gelo continental, foi evidente, e a taxa de degelo aumentou muito nos últimos anos - não se encontra nos últimos dois mil anos algo semelhante - tivemos períodos com pouco gelo na escala de 2 a 3 mil anos - um período em que o gelo praticamente desapareceu numa uma relação direta com a atividade solar e essas variações ocorreram na escala de muitos séculos. O que é diferente hoje, é a velocidade com que o gelo está derretendo. O aumento da água do mar já tem efeitos reais no Brasil como no município de São Vicente, SP, é visível a mudança da Costa do mar que está associado à mudança no nível do mar", exemplificou Dr. Pedro.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Pedro Leite da Silva Dias

“A questão da fertilização da biota é importante porque ela aumenta a concentração de CO₂ , com a disponibilidade dos nutrientes - a questão climática já influencia os nutrientes do solo ”, apontou Pedro Leite da Silva Dias.


Várias reportagens atribuíram que o desmatamento da Amazônia estava relacionado ao período de estiagem de 2013 e 2014. Foram publicados uns 30 artigos os quais trabalharam com o impacto do desmatamento da Amazônia. “De fato, o desmatamento aumentou a temperatura, na ordem de 2º na Amazônia e mudanças na precipitação (20% de diminuição de chuvas na Amazônia), porém, a maior parte produz o que se chama de dipolo, ou seja, diminui na Amazônia e provoca aumento em outro lugar. Onde aumenta? Em geral, o aumento da chuva em regiões vizinhas, inclusive no Sudeste", relatou Dr. Pedro.Autorizada a reprodução desde que citada a fonte: Jornal Pires Rural - Limeira - www.dospires.com.br
Outro fato que se revelou assustador é o degelo no Ártico, pois, os dados apontam que ainda neste século teremos o primeiro verão sem gelo no por lá. Há informações de que o local já está sendo usado pelas companhias de transporte marítimo a travessia pelo Ártico como uma alternativa para não passar pelo canal do Panamá. "Regionalmente encontramos diferenças significativas como na Amazônia o aumento e a diminuição das precipitações, na média diminui. O ponto importante é que muito foi feito em cima desses dados num modelo de extremo considerado perigoso porque nem sempre este modelo sobrevive por muito tempo. Eu já vi isso acontecer muitas vezes. Será possível produzir com as mudanças climáticas? Será possível produzir toda a energia num cenário de mudanças climáticas? Qual serão os impactos? Estamos trabalhando na recuperação de áreas degradadas, no adensamento de florestas nativas, na substituição de carvão mineral por carvão vegetal, na substituição de combustíveis de petróleo, na tentativa de diminuir o nível de desmatamento (a grande contribuição dos últimos 10 anos), no aumento da eficiência da genética na agricultura e bovinos (o que já é uma realidade), no plantio direto. Em ciência não temos absoluta certeza. Temos perfis de cientistas envolvidos nas pesquisas como o cientista honesto, aquele que dá as alternativas, lida diretamente com as incertezas científicas, interage com o formulador de políticas públicas oferecendo probabilidades e esse é o nosso papel, atuar da honestidade", finalizou Pedro Dias.
© 2013 - Jornal Pires Rural