Adriana Fonsaca
Entrevistei José Carlos Sacchi para conhecer a história que envolve a construção da Capela Santa Luzia, rodovia Limeira-Mogi Mirim km, inaugurada em 13 de dezembro de 2001.
“A minha família sempre morou na Usina Orlanda, na Fazenda Saíra, no bairro Campo Alegre. O seu Osvaldo Morente, proprietário do posto de gasolina, bar e restaurante Santa Luzia, na rodovia Limeira-Mogi Mirim, quiz vender – quando ele comprou já era um ponto comercial pequeno. A propriedade foi de três proprietários antes do meu pai comprar: Eduardo Gachet, Bagnolo e Osvaldo Morente. O Eduardo Gachet começou com um barzinho, um ponto comercial pequeno, quando a rodovia ainda não era pavimentada. Nós compramos o posto de gasolina, o bar e o restaurante – Posto e Restaurante Santa Luzia; com um alqueire de terra. Aqui tinha uma oficina, e também um açougue, do Cidão Bange. O meu pai comprou num sábado, e na segunda-feira eu já vim pra cá, com 12 anos e meio. Eu fiquei morando num quartinho, também morava um peão – eu fiquei aqui pra aprender o atendimento no bar e restaurante e tocar o negócio. Faz 55 anos que eu estou aqui. E pra trabalhar no posto de gasolina veio o meu irmão mais velho, o Santo Sacchi (in memorian). Mas ele ainda ficou morando lá em casa com a família na usina, no bairro Campo Alegre – com o tempo, ele mudou pra cá com a esposa. E assim ficamos, ele tocando o posto e eu com a lanchonete desde o dia que eu cheguei”, contou Carlos.
A vida do adolescente sofreu uma grande mudança pois, além de lhe ser outorgado uma responsabilidade que era o atendimento dos fregueses, ele passou a morar no trabalho longe da dinâmica familiar. O pai investiu em um novo negócio e consequentemente na formação do filho adolescente para tocar o novo empreendimento.
Carlos já conhecia o local e não esperava que ali passaria grande parte da sua vida e que também seria a sua realização profissional. “Quando eu vinha do sítio do meu pai em Engenheiro Coelho (SP) e passava aqui (antes da família comprar), eu tinha vergonha de descer no posto de gasolina e no restaurante – eu não descia do carro. A turma que trabalhava com o meu pai descia e eu não. Quando o meu pai comprou, ele me disse: ‘Você vai ter que ir lá’. Apesar de que, a gente já tinha o armazém na colônia da Fazenda Saíra e eu ajudava no que precisava”, disse Carlos.
“Eu fiquei na antiga construção do restaurante por muitos anos, ali servíamos o comercial e aos domingos a macarronada, o pernil, a farofa e maionese. O prédio era pequeno sem estrutura pra evoluir, não tinha nem forro – tinha o bar mas não a lanchonete. Em 2000, ampliamos as edificações e os negócios. Quando nós mudamos para o novo prédio, somente o posto de gasolina seria nomeado Santa Luzia; o restaurante não teria mais o mesmo nome”, disse.
João Sacchi veio do bairro rural Paula Leite, próximo de Leme (SP). “Ele era mascate, trabalhava com a carrocinha vendendo pão, frango, sorvete; comentaram com ele que o homem estava procurando alguém pra montar o armazém na Fazenda Saíra, no Campo Alegre – então, ele investiu no comércio. Quando chegamos na Fazenda Saíra, o proprietário trabalhava com mandioca. A usina de cana-de-açúcar era na Fazenda São Jerônimo. O pai era um homem visionário, não tinha estudo, mas era muito inteligente. Lá na Usina São Jerônimo foram os meus irmãos mais velhos, o Santo, o Nelson que foram trabalhar – éramos em treze irmãos. A gente foi comprando sítios então, cada um dos filhos ia mexendo com uma coisa diferente. As minhas irmãs ajudavam e fomos criados todos ali na Saíra. A mãe tomava conta dos filhos, era dona de casa e também ia no armazém. Tínhamos produção de mandioca com terreno arrendado na Saíra, depois que fechou – a gente (filhos) ia na escola e quando saía, almoçava e ia pra roça, tinha que trabalhar. Foram passando os anos e a nossa dedicação foi nesse tipo de serviço. Quando o pai estava só com o armazém da Saíra o contato da família com a cidade era em Limeira. Quando ele pegou o armazém da Usina São Jerônimo, uma parte da usina pertencia a Limeira e outra pertencia a Araras (SP) e Cordeirópolis (SP), o córrego dividia a colônia. Hoje, a São Jerônimo é uma propriedade particular, mas ainda tem algumas poucas famílias que tinham os seus terrenos na divisa do córrego, construíram suas casas e permanecem lá até hoje”, contou.

Carlos mantém na memória muitas recordações da infância na fazenda. “Eu nasci ali, em 1957. A colônia tinha duas escolas, tinha farmácia, tinha república, tinha pensão, campo de futebol. E, era gostoso porque a gente ficava na rua até tarde da noite, brincando, andando de pneu e passava o tempo. Era como um bairro rural onde um conhecia o outro, porque a maioria trabalhava na empresa que tinha lá – eu tenho amizades que permanecem até hoje. A casinha do Antonio Siqueira ainda existe, um dos mais antigos ali. Tem outros moradores que partiram e os filhos ainda estão ali. Antigamente não tinha a igreja na fazenda, então, os moradores faziam as rezas nas casas. Hoje, tem a Capela São Judas Tadeu que a indústria Emanoel Rocco construiu quando adquiria a área. Mas a Rocco fechou e a maior parte dos moradores se mudaram dali. Chegou uma época que a gente não tinha nem energia porque foi cortado, a iluminação era só na base da luz de lampião, de lamparina, ou vela – nessa época, eu já estava aqui no restaurante. Meu pai ficou morando lá e tocando o armazém, mas com a saída dos moradores, ele passou a se dedicar ao armazém da Usina São Jerônimo; ele tinha dois armazéns. O pessoal da Fazenda Saíra ia no armazém da São Jerônimo fazer as compras e a gente fazia as entregas pra eles. Eu, mesmo trabalhando aqui no restaurante, na época de pagamento, eu ia ajudar o meu irmão lá na entrega das compras. No final do ano era uma correria, eu saia daqui de madrugada pra ir até lá no armazém, pra pesar os mantimentos. A turma entregava a lista de compras no armazém e a gente pesava os alimentos, aprontava e levava na casa de cada um e conferia na frente do freguês. A compra era mensal e o pagamento também – o freguês pagava e fazia outra compra”, contou Carlos.
Para abastecer o estoque de alimentos dos armazéns, João Sacchi também comprava os alimentos de sitiantes, muitas vezes, o pagamento era na base da troca de mercadorias. “Quando os alimentos começaram ser empacotados a gente tinha a balança que pesava e a máquina que empacotava pra ser mais rápido”, disse Carlos.
Osvaldo Morente, ex-proprietário do posto de gasolina, bar e restaurante Santa Luzia e a mãe de Carlos, Josefa Paganoti Sacchi, ambos tinham um sonho, queriam ver a realização da construção da Capela Santa Luzia. A conversa sobre construção da Capela em devoção à Santa Luzia aconteceu com o padre Newton José Barban, da Paróquia São Sebastião. “Ele me disse: ‘Faz ela pequena, mas faz meia alta com os vitrais bem grandes pra não aparentar muito pequena’. A gente sempre foi amigo do padre Newton. E quando foi inaugurada a capela, ele veio fazer a benção”.

“Quando inaugurou a Capela de Santa Luzia, o senhor Osvaldo participou da primeira missa com a gente. Ele estava super feliz porque era um sonho dele e também da minha mãe. E, pela minha mãe Josefa, temos uma imagem de Santa Josefa na Capela”, descreveu.
As imagens escolhidas para a capela foram todas adquiridas novas. “Compramos todas. Eu fui na época, conversar com o padre Newton pra saber se existia a Santa Josefa, queríamos fazer uma homenagem à minha mãe Josefa. O padre pesquisou e achou a Santa Josefa fora do Brasil. E de lá, eles citaram uma instituição em Campinas (SP), das Irmãs Filhas de Nossa Senhora da Misericórdia. O padre entrou em contato e as irmãs enviaram uma imagem pequena de Santa Josefa pra nós, e mandamos transformar numa imagem maior. Eu tinha um prazo pra entregar a imagem pequena para o artesão construir a imagem grande pra estar pronta no dia da inauguração da capela. Enviamos no prazo e não chegava a imagem de jeito nenhum. A imagem chegou justo no dia da inauguração ao meio-dia. A hora que o cara abriu a caixa, o sino da capela tocou ao meio-dia – o sino toca às 6h, às 12h, às 18h até hoje; ficou marcado. Os meus irmãos Santo e o Paulo estavam presentes. Infelizmente, o artesão não devolveu a imagem doada pelas irmãs”, disse.
Depois, passado um tempo, as irmãs vieram de Campinas conhecer a capela onde estava a Santa Josefa. “Foi uma alegria. Elas foram até a Paróquia São Sebastião perguntar onde estava a Santa Josefa. Por acaso, o meu irmão Nelson e minha cunhada Teresa estavam na missa, foram apresentados às freiras e vieram aqui conhecer – nos visitaram duas vezes”, afirmou.

O projeto da capela foi discutido com um engenheiro. Carlos organizou a cronologia da construção. Ele mantém o livro da capela com os desenhos da construção. O livro traz também registros dos agradecimentos da inauguração, em dezembro de 2001. E muitas fotos das pessoas presentes na primeira missa e benção do Padre Newton. “Quando eu comecei a construção, pensei: e agora? Um amigo meu indicou a arquiteta, decoradora, Fabiana Massaro Bertolotto. Fomos conversar, ela ficou surpresa, me disse: ‘Eu já fiz de tudo, menos igreja. Se a gente trabalhar juntos, posso tentar’. A parceria deu certo”, contou.
Os vitrais da capela chamam muito a atenção no projeto, resultado do conselho do padre Newton. “Eu adorava ir nas igrejas, sempre estava na igreja São Benedito e lá tinha os vitrais, eu perguntei quem fez. O rapaz veio de São Paulo, fez alguns desenhos que poderia serem feitos”, contou.
O jardim do entorno da capela teve orientação do amigo Florindo Cardoso (Mané), paisagista e florista. “Ele sempre passava por aqui e me incentivou também. Na ocasião, as plantas do jardim da capela estavam plantadas nos vasos; ele me orientou plantar todas na terra. Fomos envolvendo os profissionais, cada um dava um palpite e assim o projeto foi realizado em pouco mais de um ano. Para a obra, já tínhamos os pedreiros que já trabalhavam para a família”, afirmou.

A Capela Santa Luzia pronta e inaugurada, despertava a curiosidade de quem trafegava pela rodovia, rapidamente os devotos foram chegando. A capela fica aberta, com o som ambiente, de segunda a sexta-feira das 6h30 até 16h30. Aos sábados das 6h30 às 16h. No domingo, das 8h30 às 16h. A missa acontece uma vez ao mês, toda segunda sexta-feira às 19h30.
“Muita gente veio agradecer as bençãos e graças que recebeu ali. Vieram caminhoneiros que estavam frustrados com as viagens, querendo desistir. Eles chegavam na capela, sentava chorando de gratidão de ter se livrado daquele nervosismo que o levaria a abandonar tudo, mas voltou sentir força pra tocar a vida”.
“Teve uma mulher de Limeira que recebeu a benção e a graça na visão dela, já desenganada pelo médico, sem esperança de cura – ela veio aqui e recebeu a graça. Todo ano, em dezembro, ela vem fazer a novena de Santa Luzia”.
“O meu irmão Santo tinha problema grave na vista e foi ali que ele recebeu a benção. Teve testemunho pela graça recebida de várias pessoas registrado no caderno”.

“Tivemos vários batizados e casamentos. Me lembro de um casal de Vargem Grande do Sul (SP), já casados no cartório civil, já tinham filhos, e o rapaz tinha pânico de igreja. Ele não entrava em igreja, só ficava na porta, mas não entrava. Um dia, passando na rodovia, pararam para tomar um refrigerante. Eles ouviram o som que vinha da capela e foram até lá olhar de longe e viram que não tinha ninguém, chegaram. E, lá, ele se emocionou tanto que disse à mulher: ‘Num lugar desse, eu casaria’. Que benção! Ela veio me perguntar se permitia fazer casamento na capela. Eu respondi: faz, só que tem que ser com ordem do padre – marca a data com o padre e faz o casamento. Foi feito o casamento. Era um sonho que ela tinha desde quando se casaram no civil – foi lindo”.
“Aqui aconteceu vários casamentos de Limeira, de Engenheiro Coelho; uma sobrinha que mora em São Paulo se casou aqui”, contou.
Carlos não esconde a satisfação de manter a capela, uma devoção viva. “É muito gratificante. Eu adoro, adoro aquilo ali. Nossa! Eu já cheguei conversar com o padre: eu queria mudar daqui, mas eu não saio daqui por duas coisas: pelo estabelecimento que eu tenho há 55 anos e pela capela. Eu adoro a capela. Eu me senti nervoso quando eu operei o joelho e não tinha condições de poder abrir a capela. Quando voltei a andar, vinha devagarzinho, abria, ficava sentado ora no banco do jardim, ora dentro da capela, nem que fosse por duas ou três horinhas – fechava e ia embora pra casa. É muito gratificante o pessoal chegar, elogiar, mandar mensagens que passou por aqui. E falo pra você: não é só o católico que frequenta a capela não. Eu tenho amigos espíritas que já vieram ali e adoraram e elogiaram: ‘Que coisa linda, a paz que a gente recebe’. Vieram várias vezes”.

“Um adventista queria que a filha se casasse aqui, de tudo quanto é jeito. Mas o pastor queria que eu tirasse as imagens da capela para a cerimônia, eu falei não. Já tive proposta de fazer o batizado do neto de uma senhora muito rica que me perguntou: ‘Quanto você quer pra deixar eu fazer o batizado do meu neto?’. Respondi: eu não quero nada. Só quero que a senhora converse com o padre sobre o que precisa. Ela respondeu: ‘Não envolve padre no meio. Não, não, eu arrumo uma pessoa lá que coloca uma roupa de padre’. Eu falei: então, a senhora não quer batizar o seu neto? Ela respondeu: ‘É muita frescura fazer cursinho, essas coisas. Mas quanto você quer?’. Respondi: eu não quero nada e nem que a senhora queira com um padre, eu não quero. Ela queria comprar. É nosso, é particular, está registrado na Diocese de Limeira mas, eu sigo todas as regras com o padre”.
“Aqui chegou acontecer oito batizados num dia só, com famílias de Engenheiro Coelho – foi um chororô de crianças, um começa chorar todos os outros choram (risos)”, contou.
A inspiração de proporcionar o som ambiente na capela é um presente para o visitante, o objetivo de proporcionar um ambiente de paz foi realizado. “Eu queria a música para proporcionar paz para quem entrar na capela – o som é muito gratificante pra mim. Conversei com o meu irmão Santo e ele resolveu a parte técnica.
“A decoradora queria fazer o teto branco simbolizando a paz. Eu disse: Fabiana, eu queria azul, um céu bem clarinho para simbolizar que os anjos estão vindo do céu – escolhemos usar papel de parede. Na inauguração, a parede atrás da Santa Luzia era na cor branca. Mas eu me sentava no banco pra fazer oração, olhava e concluía que Santa Luzia está vindo do céu. Eu tinha o papel de parede, recortei e colei com durex, que lindo! A decoradora veio trazer o marido pra conhecer o trabalho que ela fez, me disse: ‘Zé Carlos, aquele papel atrás da Santa Luzia, não tinha, né?’. Não tinha, mas eu me sentava ali e via ela vindo do céu; até pensei em colocar um espelho pra dar amplitude. Ela falou: ‘Ficou lindo. Pode colar que está aprovado!’”, contou.

Carlos dispensa dedicação total ao manter a capela viva, cuidado e respeito ao receber e acolher os devotos, e com tantas graças alcançadas ele continua agradecendo.
“Eu quero agradecer, sempre, o apoio que eu tive, principalmente do meu irmão por ter me ajudado a concluir um sonho que tanto eu, como toda a família queria realizar. O padre Newton que me ajudou. A minha esposa que sempre estava do meu lado e hoje, mesmo estando lá em cima (no céu), está presente na história dessa realização e devoção à Santa Luzia. É muito gratificante, a melhor herança que nós tivemos foi essa capela”, concluiu.