Adriana Fonsaca
“Está fazendo 55 anos que a gente faz essa caminhada todos os anos, e é por intenção de todas as famílias para que haja paz e harmonia no nosso lar. E, vamos pedir também pra Nossa Senhora e a Jesus que nos livre do pecado mortal. Que Nossa Senhora não deixe morrermos em pecado mortal. Hoje vamos pedir essa graça pra Nossa Senhora. Que ela esteja presente e sempre cuide de nossa vida para que nunca falte a benção e a proteção de Maria e que a gente nunca chegue a morrer em pecado mortal que é o pior pecado da nossa vida. Vamos dar início a oração pra sairmos, vamos rezar o Mistério e o Terço”, dessa maneira Neusa acolheu aos fiéis da procissão na igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat, dia 30 de março no bairro Pederneiras, Mogi Mirim (SP).

A procissão pela intenção da lavoura e pela paz das famílias que sai da igreja do Monte Serrat, até a Capela de Nossa Senhora da Conceição, bairro rural Correias, Engenheiro Coelho (SP), acontece na data que antecede os quinze dias da Páscoa. Este ano (2025) a data foi alterada e pela segunda vez em cinco décadas e foi celebrada uma missa na chegada dos fiéis à Capela Nossa Senhora da Conceição. Em todos esses anos, a procissão foi interrompida durante a pandemia.
Sobre o sentido de manter a tradição, eu conversei com Neusa Ferreira de Camargo Silva, Laerte Lico da Silva, Constantino Davoli, Idalina Davoli, Anna Pereira Baraldi, Conceição Pereira Negro, Maria Picolli e Raquel Ravanini.
A transmissão de costumes e crenças por meio da tradição dessa procissão traz, para além da profissão de fé, o envolvimento das comunidades e a história oral que amarra os laços de solidariedade entre os fiéis no exercício da fé coletiva. Essa é mais uma matéria que constata e revela o esvaziamento das comunidades rurais do nosso Estado de São Paulo. O curioso aqui, é que a participação do público vindo de moradores do perímetro urbano revela a necessidade de fazer penitência como um meio para purificar mente e coração e fazer uma experiência de Deus na vida do discípulo mais coerente com os valores do Evangelho. “Se não fizerdes penitência, todos perecereis” (Lc 13,3).
A iniciativa de buscar a imagem de Nossa Senhora da Conceição para visitar as casas nas propriedades rurais com a intenção de conseguir uma boa colheita está na família de Neusa Ferreira de Camargo desde o seu bisavô. Hoje, é ela quem busca a imagem e lidera a procissão junto com os fiéis, como ela descreve, “Fui eu que fui buscar essa imagem na capela Nossa Senhora da Conceição (bairro Correias, Engenheiro Coelho, SP) pra começar a procissão. Na época eu tinha uns 15 anos e eu ia de charrete buscar a santa – eu sempre fui de igreja e sempre quiz fazer alguma coisa, sabe? A minha mãe Rita Gonzaga Camargo dizia que o avô dela ia buscar essa imagem de Nossa Senhora da Conceição lá no Pinhalzinho em Artur Nogueira (SP), pra rezar quando faltava chuva. Ele ia buscar na casa de uma senhora muito pobre. Daí, uma tia minha, a Henriqueta Jorge, fez promessa de fazer a igreja pra batizar a filha que ia nascer; lá está a imagem de Nossa Senhora da Conceição”, explicou Neusa.
A Capela Nossa Senhora da Conceição foi construída em 1940 (concluída dois anos depois), na propriedade do casal Henriqueta Maria da Conceição e Antônio Napoleão Pereira. O casal teve cinco filhos: o primeiro filho faleceu, o segundo Israel Napoleão Pereira, nasceu em 1928, Anna nasceu em 1930, Maria José em 1932 e Conceição em 1940.
Quando Henriqueta engravidou da filha Conceição, preocupada, ela fez uma promessa: se corresse tudo bem e a criança nascesse com saúde, ela construiria uma capelinha para o batizado. E os padrinhos escolhidos para batizar a criança deveria ter a pele preta. A gestação correu bem, a criança nasceu com saúde; hoje, reside em Limeira com sua família.


Fui ao encontro de Conceição Pereira Negro e sua irmã Anna Pereira Baraldi, para conhecer a história que envolve a construção da Capela Nossa Senhora da Conceição. Durante nossa conversa, Anna revela que a gravidez naquele tempo era um tabu, jamais as crianças sabiam quando a mãe estava grávida, tão pouco que ia receber um novo irmão ou irmã. “A gente não sabia nada disso. Até as fraldinhas a minha mãe escondia. Eu lembro que uma vez eu abri uma mala, que tinha num quarto e, estava bem escondidinha, lá tinha as fraldas que ia usar nela (Conceição). Eu não sabia. Eu não me lembro de ver as roupinhas. Eu fazia roupinhas pra ela depois que ela nasceu”.
Conceição intervém: “Ela ‘roubava’ lençol velho da minha mãe”.
Anna justifica a fala de Conceição: “Eu sempre gostei de costurar então, eu ‘roubava’ da minha mãe e fazia roupinhas, desde os nove anos. Eu aprendi costurar com a minha mãe que também costurava”.
Anna conta sobre a rotina naquele sítio no bairro dos Correias: “Eu me lembro do sítio direitinho: não tinha poço de água, tinha que ir buscar no rio. Lá morava um senhor, o José Furian que ajudava meu pai – ele trazia água todo dia, enchia as vasilhas de água pra despejar no pote de barro na cozinha. Pra lavar as roupas, minha mãe ia lavar onde pegava a água, no rio. Minha mãe fazia farinha de milho que era uma delicia, lá tinha monjolo”.
Conceição complementa com humor: “Lá faziam tudo meu amor! Só não fazia gente linda!” (risos)” Anna, filha mais velha tinha o dever de ajudar a mãe nas atividades que não eram poucas, ela detalha os feitos da mãe: “Ela fazia polvilho de mandioca (plantada ali mesmo) pra fazer biscoito – minha mãe foi muito trabalhadeira. Eu pegava a farinha da chapa quente com as mãos – era criança e fazia isso. A minha irmã Zezé (in memorian) trabalhou menos. E a Conceição menos”.
Conceição recorda sobre o alambique na propriedade: “Ele (pai) fazia pinga mas não bebia. Certa vez, ele queria medir o teor alcoólico (de 20 graus), mas como eu queria ver a bolinha de mercúrio correr no medidor (alcoômetro ou densímetro) e acabei quebrando o instrumento” (risos).
O avô materno tinha a fazenda nas proximidades, era um homem de posses com muita terra e gado. “Só que era a mãe dos pobres. As mulheres davam a luz no sítio e não tinha leite para alimentar as crianças, elas vinham lá e falavam pro meu avô: ‘Vocês não tem uma vaca aí que dá leite pra emprestar pra mim?’ Meus avós falavam: ‘Pega aquela lá, vai lá e escolhe a que você quer’. Levavam a vaca, secava o leite; voltavam, eles davam outra vaca. Eles tinham muito gado”, contou Anna.

Antônio Napoleão, pai de Conceição, tinha nível de escolaridade, era músico, numa época que não havia escola pública nos bairros rurais no interior do Estado de São Paulo. Ele foi um negociador habilidoso na região, pois conduzia e negociava gado. “Ele dizia sobre o professor vô João. Isso fez com que ele fosse escolhido pra aplicar vacina nos moradores da comunidade. Ele tocava o instrumento tuba na banda de Mogi Mirim. A família tinha uma certa qualidade de vida. Por exemplo, tinha escolaridade, tinha dinheiro pra poder comprar bacalhau, gasosa (refrigerante)”, explicou Anna.
Numa ocasião, Antônio não estava em casa, pois ele conduzia gado a longas distâncias, mas estava acontecendo a Revolução Constitucionalista de 1932, um levante armado protagonizado pelo Estado de São Paulo, iniciado em 9 de julho de 1932. O levante manifestou a insatisfação dos paulistas com o governo de Getúlio Vargas, sobretudo pela centralização de poder imposta pelo governo. Apesar de ter perdido a luta por falta de armas e de estrutura, os paulistas acabaram vitoriosos politicamente, pois, foram realizadas as eleições para a Constituinte, que elaborou uma nova Carta Magna para o Brasil.
A mãe Henriqueta contava para os filhos o susto que passou com a chegada dos soldados na sua propriedade. “Eles chegaram e jogaram todas as armas em cima da mesa – lá tinha essas mesas compridas e daí só estava a mãe (grávida da filha Maria José) sozinha com os filhos. O soldado falou pra minha mãe: ‘Não se assuste’ – minha mãe contando. ‘Não se assuste, nós somos paulistas’”, relatou Anna.
As irmãs não tem recordações a respeito da procedência e o que justifique a escolha de Nossa Senhora da Conceição para cumprir a graça recebida. “Da santinha (imagem Nossa Senhora da Conceição), o meu avô falava que teve a Guerra do Paraguai e essa santa fez o milagre que um da família foi pra guerra e os familiares desesperados, fizeram uma promessa pra Nossa Senhora da Conceição – mas eu não sei quem. Esse moço foi e voltou da guerra e não aconteceu nada com ele. Meu avô falava assim: ‘Ela fez uma pessoa voltar da guerra e não aconteceu nada pra ele’”, afirmou Anna.

A construção da capelinha levou dois anos pra ficar pronta, portanto o batizado de Conceição precisou ser adiado. Conceição conta que na ocasião do batizado, um amigo da família, de Campinas (SP), lhe presenteou com uma caneta Parker. A irmã Anna diz que a caçula foi crescendo muito mimada, se referindo ao fato de que a caçula não sofreu a mesma rigidez da educação dos irmãos mais velhos.
Conceição diz que no dia do batismo, o padre derrubou muita água no seu vestido e ela reclamou para o padre, porque o seu vestido era muito lindo. “Os padrinhos tinham que ser negros; todos os meus padrinhos, tanto batismo e crisma são pretos”, diz.
A irmã revela o presente dos padrinhos: “A Conceição ganhou dois patos (vivos) de presente dos padrinhos de batismo. Aquele dia teve almoço, foi uma festa”, conclui Anna.
A família de Conceição mudou para Limeira (SP), mas a propriedade da capela continua na família. O proprietário atual é José Luís Cunha Claro e sua esposa Raquel Ravanini. Ele, sua irmã Janete e sua esposa Raquel me receberam na propriedade para um café e conversa sobre o cuidado e carinho pela edificação da capela, que carrega a história da família.
Como a capela está na propriedade particular, não é reconhecida pela diocese, o que não impede que seja o destino dos cortejos como por exemplo que saem da igreja vizinha de Santa Cruz, no Domingo de Ramos e dia da Santa Cruz – e também o destino final da procissão que tratamos aqui. Recentemente, Janete que é artista plástica renovou o interior da capela com afrescos escolhidos por ela, marcando assim, uma nova fase na cronologia da edificação.
“Quando a igrejinha – na família chamamos de igrejinha e lá na (igreja) Santa Cruz chamam de capela do bairro – fez 50 anos todos vieram para a celebração, foi muito bonito porque a Conceição também veio. Ela falou que foi toda bonita (no batizado), que se lembra do vestido todo de babado branco e que o padre derrubou água no vestido dela. Mas ela chorou tanto, ela chorou tanto – e por isso que marcou a sua vida”, contou Raquel.

Sobre a procedência da imagem de Nossa Senhora da Conceição, Raquel detalha o que sabe e repete o que ouvia sobre o assunto desde que entrou para a família há 36 anos.
“Uma senhora, também tia da minha sogra que morava pra baixo da capelinha – ela já é falecida há muitos anos – ia na casa de uma senhora quando ela era criança. A senhora era muito pobrezinha, a sua casa era de chão batido – isso quem me contava também era a Anna, prima do meu sogro que trabalhava aqui em casa.
E a tia da Anna, a Madalena, quando criança ia na casa dessa senhora e pedia essa imagem. A dona da santa falava: ‘Eu não posso dar’. Só que a senhora ficou muito idosa, e deu pra ela (já moça) cuidar da imagem. A imagem ficou anos na casa do Agostinho que era o filho da tia Madalena, até que foi feito essa igrejinha e eles falaram: ‘O lugar dessa santa não é em casa, é na igreja’.
Em 1942 quando foi construída a igrejinha, pediram pra tia Henriqueta se podiam levar a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Como era uma promessa da mãe Henriqueta – se sua filha nascesse bem, ela construiria uma capelinha para batizar, sendo um casal de pretos os padrinhos de batismo. E assim foi feito”, afirmou Raquel.
José Luís é parente de Conceição e se encontram esporadicamente, ele descreve de um fato. “Eu fui na casa dos padrinhos da Conceição lá em Mogi Mirim, uma vez, quando faleceu uma tia. Nós fomos no velório e a Conceição lá esteve e pediu ao Zé Luís: ‘Zé Luis, eu quero muito visitar os meus padrinhos que há muito anos eu não os vejo’. Ele falou: ‘Eu sei onde eles moram’. Fomos com ela até a casa dos padrinhos”, afirmou Raquel.


A promessa de construir a edificação para a imagem de Nossa Senhora da Conceição trouxe a possibilidade da procissão e o encerramento desta, na capela – depois da conclusão das visitas da imagem nas casas dos agricultores. Neusa destaca as famílias do bairro Pederneiras e redondeza que compunham essa procissão. “Eu fui buscar a imagem pra rezar, passar nas casas – no começo, ela passava numas oitenta casas, era a família Davoli, os Missioli, os Rossi, os Ferreira de Camargo, os Jorge, e tantas outras. Agora diminuiu bastante porque o povo mudou pra cidade, uns já morreram. O padre Clodoaldo de Paiva (Mogi Mirim) deu muito apoio na época, ele falava: ‘A santinha da chuva’. Ele sempre foi muito a favor da lavoura e como essa procissão rezava pela lavoura, ele incentivava pra fazer a visita das casas também.
Eu perguntei à Neusa: E chove mesmo?
A resposta é objetiva: “Ah! Chove! Graças a Deus! O dia que a moça acabou de rezar pra lá, ela veio trazer aqui no domingo de manhã e eu ia à noite levar lá no meu sobrinho; mas deu uma chuva que eu até esperei passar pra sair de casa. O padre Paiva era muito contra vender pedaço do sítio pra fazer chácara, ou fazer haras. Ele falava que a terra é pra plantar, não é pra fazer haras e chácaras, porque se ficar dois ou três anos sem fabricar carro, o povo vive do mesmo jeito. Mas se faltar comida um ano, o povo não sobrevive. Não venda a sua terra que você planta”, afirmou Neusa.
Para os agricultores os eventos climáticos severos e a consequência do prejuízo econômico marcam a história de famílias, bairros e até regiões. Na sua mocidade, Neusa vivenciou uma seca severa. “Então, nessa época que eu fui buscar a santa, a gente tinha um arrozal ali — pra cá da igreja do Monte Serrat. O terreno era do meu pai e a gente plantou arroz seco — o arroz aquele tempo levava seis meses pra dar. E o arroz secou tudo, sabe? Virou um sapezeiro. Era uma plantação de arroz seco, de terra seca, mas a seca foi muito e secou a palha. Eu fui buscar a santa. Comecemos rezar, choveu, o arroz brotou e deu arroz nessa época”, contou.
Anualmente, ao recolher a santa para a visita nas casas, no primeiro domingo de janeiro, o casal Neusa e Laerte abrem a capela e rezam. “Eu, com medo de quebrar a imagem de andar pelas casas, mandei fazer um oratório de madeira e ela está colada dentro. A mãozinha dela é de madeira, porque numa época que iam buscar na casa da dona da santa, passaram no meio de um pasto e o boi correu atrás deles. Com a santa nas mãos, ela caiu e com o acidente quebrou a mãozinha da santa. Mas nunca foi restaurada. Até, a minha prima Janete Cunha Claro, que é artista, pintou a capelinha por dentro e o oratório. Ela falou: ‘Mas não vamos pintar a santa não. Vamos deixar o estilo dela original’”, disse Neusa.
Ela descreve a organização para as visitas da imagem nas casas: “A gente sai de lá da capela, trago ela aqui e rezo na minha casa – sempre deixo ela em cima da mesa da minha cozinha. A santinha está passando por umas setenta casas (ao todo) nos bairros: Pederneiras, Ponte Alta, Boa Vista, depois ela volta para o Pederneiras e vai para o bairro Mato Dentro. De lá do Mato Dentro eu pego e levo lá no bairro Taperão. De lá, trago aqui e acaba de passar pra cá nas casas. Ela já pegou o ritmo, as pessoas já sabem onde devem levar. Quando eles estão em dúvida, eles ligam pra mim.
Quando a santa chega aqui, no outro dia eu levo ali, na Roseli Davoli. E depois ela (santa) ‘desce o rio’, pra lá do rio e faz a volta. E quando faz a volta que já passou o (bairro) São João da Glória, (bairro) Ponte Alta, ali, tem um rapaz que leva a santa pra pousar lá na Idalina Davoli. De lá, desce pro bairro Mato Dentro. Depois ela sobe, ‘pula’ a pista e volta pra cá”, Neusa detalhou.
Quando a santa chega nas casas, as famílias rezam o terço. “Eu rezo mais do que uma vez, até que ela estiver aqui a gente continua rezando com a família. No começo, quando a santa chegava vinha mais gente rezar o terço e daqui a gente acompanhava e rezava em nove casas – depois ela seguia. Isso acontecia quando tinha muito morador que acompanhava tudo isso. As casas mais perto, um ia na casa do outro, tudo participava, rezava o terço, rezava a oração de Nossa Senhora da Conceição do padre Donizeti – uma oração muito bonita”, contou Neusa.
Antes da saída da procissão os fiéis rezam o Mistério. Durante a caminhada seguem rezando a Via Sacra também. O cortejo conta com um carro de apoio que substituiu o serviço de dois tratores. Em dois lugares do trajeto os fiéis param, toma água e seguem. Levam a Cruz – Jesus crucificado junto com a imagem de Nossa Senhora – a procissão segue com o revezamento de quem quiser carregar. Na chegada sempre tem alguém esperando.
O trajeto da procissão mudou por segurança dos fiéis. “Antigamente, nós íamos beirando a pista (Limeira – Mogi Mirim) e antes de chegar no posto (de gasolina) tem um caminho que passa por dentro das propriedades. Eu acho por ali mais difícil por ter uma descida e depois uma subida. Por aqui, saindo da frente da igreja Nossa Senhora do Monte Serrat a gente pega só o ‘espigão’ e sai lá no alto no mesmo caminho de antigamente. Tempos atrás, as pessoas dos sítios esperavam (na propriedade) pra ver a procissão passar e a maioria acompanhava”, descreveu Neusa.


A procissão sai da igreja Nossa Senhora do Monte Serrat, essa edificação também traz uma história de fé e devoção da família de Bonfiglio Davoli e Beatriz Malvezzi Davoli.
Após a saída da procissão, Idalina Janotto Davoli, viúva de Oscar Germano Davoli – filho do casal Bonfiglio e Beatriz -, gentilmente me recebeu para contar a história de devoção e fé dos sogros e de toda a família. Hoje, Idalina está a frente nos cuidados e dedicação da tradição da família Davoli.

“Eu comecei conhecer aqui em 1965, eu morava no bairro Mato Dentro, vinha na missa e quando tinha festa. A igreja era pequenininha e não tinha como as pessoas se acomodar dentro, de tanta gente. A primeira igrejinha tinha a frente virada para a pista. A segunda capela foi construída na década de 60, mas foi ampliada em formato de cruz. Depois resolveram fazer a terceira e atual nos anos 2000. Antigamente o cortejo das procissões de Nossa Senhora do Monte Serrat percorria a pista, e dentro do sítio do meu sogro”, contou Idalina.

Trago aqui alguns detalhes da história escrita por Lucilene de Campos, sobre a aparição, a promessa, o sonho e o milagre envolvendo a família Davoli e a Nossa Senhora do Monte Serrat.
“O casal morava no bairro rural Bocaina, Mogi Mirim e, após alguns anos, se mudaram para um sítio no bairro Fazendinha, Engenheiro Coelho.
Um certo dia, levando almoço para o marido na roça, Beatriz teve uma visão de Nossa Senhora do Monte Serrat no meio do caminho. Segundo Beatriz, Nossa Senhora pediu a ela que levasse seus filhos Atílio e Orlando – crianças, na época – para sua igreja em Santos, e disse que eles seriam muito felizes.
Beatriz prometeu à Nossa Senhora que, assim que tivesse um pedaço de terra, construiria uma capela em sua homenagem.
O milagre aconteceu quando tempos depois, nasceu uma filha do casal, Libera Davoli, com uma má formação na boca, lábios leporinos, com as pernas tortas e o pé virado para trás.
Beatriz, triste e preocupada com a situação da filha, certa noite teve um sonho com Nossa Senhora do Monte Serrat. No sonho, Nossa Senhora a orientou que enfaixasse as pernas da filha. Assim ela fez. Beatriz contava que, ao enfaixar as pernas de sua filha, ela escutava os ossos estalarem como se quebrassem, mas o fazia todos os dias, como Nossa Senhora havia orientado no sonho.
E, assim, a menina recebeu um milagre. Suas pernas se curaram sem precisar de cirurgia.
Na época, Beatriz conversou com o padre José Nardini, que era pároco em Mogi Mirim, e contou sobre a aparição, a promessa e o sonho envolvendo a Nossa Senhora do Monte Serrat. O padre falou que a padroeira da capela que ela iria construir deveria ser Nossa Senhora do Monte Serrat.
Algum tempo depois, na década de 1950, Bonfiglio e Beatriz compraram terras e foram morar no bairro Pederneiras, onde conseguiram, finalmente, construir a capela, conforme Beatriz havia prometido à Nossa Senhora do Monte Serrat.
No ano de 1955, Bonfiglio Davoli comprou os materiais necessários para a construção da capela. Seu filho, Constantino Davoli, também ajudou doando o valor de um garrote para a compra dos tijolos. João Mandu foi pedreiro e Lindor Davoli, filho do Bonfiglio e da Beatriz ajudou como servente.
A capela ficava ao lado da casa do casal, perto da máquina de beneficiar arroz e do armazém que a família tinha na época as margens da estrada que liga os municípios de Limeira a Mogi Mirim. Era uma capela bem pequena, com apenas uma porta e não tinha janela. Sendo assim sua construção foi rápida. Finalmente a capela ficou pronta. A imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat foi comprada por Bonfiglio e Beatriz.
Beatriz carinhosamente também decorou a capela com toalhas, vasos e flores do seu jardim, como palmas e dálias. A primeira missa na capela foi celebrada em 15 de agosto de 1955 pelo padre José Nardini”.

Para ouvir o filho de Bonfiglio e Beatriz, o quase centenário Constantino Davoli, hoje com 97 anos, fui até Tujuguaba, distrito de Conchal (SP), onde ele reside com a família da filha Maria e Hélio Picolli. Lá, numa tarde quente, encontrei ele sentado na área. O meu tempo era curto, se ali me deixasse ficar por mais umas horas, a conversa se estenderia muito mais.
Constantino me descreve, “Da Bocaina, nós veio morar na Fazendinha do Urbano, eu era rapaz, molecão ainda e ficamos uns tempos aí. Depois que saímos daí que o pai comprou a Pederneiras ali, e mudou quando eu tinha uns 20 anos. Eu trabalhei de empregado pro Urbano lá na Fazendinha, ali no bairro Taperão, hoje é Engenheiro Coelho. Depois que o pai comprou lá, já tinha a vendinha e foi ficando. Aquele tempo da venda do meu pai pesava as coisas – não sei se você sabe -, pesava os quilos. Quando eu fui morar na Pederneiras não tinha igreja. Quando nós morava na Bocaina, eu vou contar a história: a mãe levava almoço pro outro sítio lá do Augusto Davoli (meu avô). Então, ela (mãe) sonhou que Nossa Senhora tava lá no barranco e falou pra ela levar os meus irmãos em Santos. Nossa Senhora do Monte Serrat disse que a gente ia ser feliz. Nós fomos (pra Santos) ainda quando era criança, e depois a mãe fez o pedido (promessa), se tivesse um pedaço de terra ia fazer uma igreja pra Nossa Senhora do Monte Serrat. Depois que comprou aí na Pederneiras, que fez igrejinha de Nossa Senhora de Monte Serrat. Pra fazer a primeira igrejinha, eu que tinha um boizinho, dei o boizinho pra vender pra comprar os tijolos pra primeira igrejinha. Quando fez a primeira, era pequena. Ali tem a estrada que divide da Pederneiras pra cá, tá Engenheiro (Coelho) – aquele tempo era Artur Nogueira – e pra lá da estrada era Mogi (Mirim). O padre achou que era pra passar a igreja pro outro lado do barranco (quando aumentou a igreja) pra fica em Mogi Mirim mesmo, né?!Porque ele vinha de Mogi Mirim, o padre e, achou que era pra passar pro lado de lá”, contou.
Constantino foi casado com Floripes Pinoti Davoli (in memorian), ficaram uns tempos morando na Pederneiras, depois, foi morar no sítio do sogro no bairro Mato Dentro; conseguiu comprar um sítio nas proximidades e se mudou. Por isso são conhecidos lá nos Correias, porque moravam no bairro Mato Dentro.
Muito religioso, foi ministro da eucaristia lá na comunidade Santa Cruz por muitos anos. “Eu fui ministro por muito tempo, na época do padre Sílvio. Também fui catequista, tinha bastante criança naquele tempo na Pederneiras pra fazer primeira comunhão, fazer crisma. E quando eu era ministro também ia em Engenheiro (Coelho), na matriz, todo sábado”, disse.
Maria, filha de Constantino também teve uma participação ativa na comunidade Nossa Senhora do Monte Serrat: “Eu fui muitas vezes nessa procissão que saia do Pederneiras e ia lá nos Correias – eu lembro, nós era moça e nós ia. Depois que eu casei, eu vim pra cá e não fui mais. O pai ia na procissão também. A gente morava lá perto da igreja da Pederneiras, fui no catecismo lá e depois que terminou já virei catequista também. O padre dava o livrinho e a gente ensinava o ano inteiro com aquele livro. No final do ano fazia a primeira comunhão – não era como agora, complicado; que leva dois, três anos pra fazer a primeira comunhão. Tinha bastante gente, os bairros todos vinham ali, porque não tinha outra igreja perto. A primeira comunhão era ali”, explicou Maria.

Neusa e Laerte vivenciaram a sua juventude quando o bairro teve o seu melhor momento com muitos moradores e muitas atividades, porque além da comunidade tinha também dois comércios que atraíam todos. “Tinha campo de bola e bocha no armazém – eram dois armazéns aqui no bairro, um em frente ao outro, cortado pela estrada Limeira- Mogi. Um armazém foi do irmão da minha avó, o João Mandu, depois, cada pouco repassava – isso no tempo da estrada de rodagem, eu era criança.
Daqui, meu pai ia levar gado de leite pra pastar no sítio dele lá nos Correias, pra frente da igreja (Santa Cruz) – ele fazia o caminho da procissão com o gado. O gado acostumava andar, não é como hoje que esparrama tudo. Ia um cavaleiro na frente e o animal maior gostava de ir na frente – onde o cavaleiro entrasse o gado entrava também. Até eu fui umas vezes ajudar o papai”, destacou Neusa.
Laerte jogou bola no campo de futebol do bairro: “Ali do lado do (armazém) Davoli, há quarenta anos, era muito movimentado. Ali, não conseguia nem andar lá na frente porque tinha bocha, campo e time de futebol, que disputava campeonato rural entre os vinte times do município. O Zito Duzi tomou conta por um bom tempo daquele time. Eles falam que vinha jogador de Americana (SP) jogar ai”, afirmou Laerte.
O casal faz uma observação interessante ao revelar que havia na comunidade oitenta Filhas de Maria, e os Marianos. “O padre rezava a missa às quatro horas da tarde no domingo e vinha muita gente lá da Ponte de Tábua, a cavalo e charretes. Era um movimento que o dia que tinha missa parecia festa. Era bom. Depois da missa a turma ainda ficava ali um pouco. Nessa época, muita gente lá da Ponte de Tábua casou com moça daqui”, revelou Neusa.
Vou finalizando a conversa com Neusa e perguntei: Como era a religiosidade na sua casa?
“Na minha casa, o meu pai era um homem de muita fé – ele benzia, rezava. Ele benzia picada de cobra, aranha, escorpião. Eu peguei a benção dele, da cura. Ele ficava assim meio esquecido, sabe? Às vezes começava rezar pra pessoa e acabava esquecendo, depois ele começava de novo. Daí eu estava no hospital com a minha mãe, ela falou: ‘Eu falei pro Pedro parar de benzer porque a cabeça dele não tá boa mais’.
Aí eu falei pra mãe: fala pro papai, se ele quiser deixar o benzimento pra mim, eu dou seguimento, eu continuo. Eu ia muito ajudar cuidar dele, cuidar da minha mãe, né”.
A senhora sempre viu ele recebendo as pessoas ou não precisava estar presente na hora da oração?
“Não precisava estar perto. A única coisa, o segredo, é que a pessoa tem que pedir pra ele fazer. Não pode, se fulano ou a criação foi picado de cobra, ele oferecer rezar; não pode. Até hoje, tem que pedir, mesmo que for pelo telefone”, respondeu.
Pra senhora, que hoje continua a missão do seu pai, o que é ser um benzedor ou uma benzedeira?
“Não muda muito na vida da gente porque eu sempre fui católica. A gente aumentou mais a devoção em São Bento, em São Clemente e a Paixão de Cristo. A gente tem que rezar por três santos pra pessoa que foi ofendido – pra essa pessoa ser curada. Faz três vezes, o veneno da cobra volta. Porque ela deixa o sinal do dente aonde ela pega e quando a pessoa é benzida o veneno volta e vaza tudo com o sangue ali”, respondeu.
A senhora já viu isso acontecer?
“Eu não vi acontecer, mas o meu pai falava isso. Porque, às vezes, as pessoas liga: ‘Benze pra mim tal coisa’. ‘Pegou o meu boi. O boi tá deitado, não levanta’. Se não passar muito tempo a gente reza daqui e o boi sara”, respondeu.
Quais são as orações?
“A oração é uma oração comum. Eu não posso contar”.
Me desculpe! “Não tem problema. Eu falei pro meu filho, porque teve uma época que eu fiquei muito ruim numa depressão – parecia que eu ia morrer. Daí, eu escrevi e falei pra ele: olha, eu não quero que pare. O dia que eu faltar ou que eu não conseguir mais fazer, você vai fazer e vai dar andamento”.
Neusa se recuperou da depressão. “Recuperei sim, nossa! Com a Graça de Deus!”
E como foi passar por essa depressão?
“Eu já tinha tido depressão mas, igual essa uma, não! Nossa! É uma coisa que vai sufocando a gente. O coração dispara, aquela ansiedade, aquela fobia. Um dia era onze horas da noite, o outro filho veio trazer remédio pro pai e falou: ‘Ah mãe, larga mão disso. Pega e vai deitar, dormir’.
Eu falei: filho, não é fácil assim. É a doença da alma a depressão. E, são coisas que vão acumulando na vida da gente que chega uma hora que explode, né? Um pouco daqui, um pouco dali – chega uma hora que o organismo da gente não aguenta. E, eu sempre fui uma pessoa que ouvia tudo, mas sempre engolia”, explicou Neusa.
Percebi que ela queria me dizer algo a mais sobre o benzimento. “Você tava falando do benzimento: na época que o meu pai benzia, o meu irmão mais novo foi num baile e o irmão desse um que tava no hospital foi no baile também. Ele falou pro meu irmão: ‘Essa semana vai cortar a perna do meu irmão’ – o médico falou que não tem o que fazer porque a cobra tinha ofendido ele. O meu irmão falou pra ele: ‘Amanhã, vai um de vocês da família lá na minha casa e pede pro meu pai benzer que o meu pai benze’. Daí, o papai benzeu, vazou tudo o veneno e ele sarou – não precisou amputar e ficou perfeito a perna dele”.
O seu pai era procurado por muitas pessoas da região?
“Sempre. O meu pai não ensinou pra mim a oração de apagar fogo, incêndio. Ele rezava a oração e batia o ramo verde em três cruz, o fogo ia acalmando e apagava. Aquele tempo pegava fogo em calipá (roça de eucaliptos). Eu lembro que a minha sogra, eles tinham um sítio – aquele tempo eu não namorava ainda – e pegou fogo lá. O meu pai foi lá ajudar apagar. A lenha tava empilhada no meio e queimou todos os galhos e folhas em volta.
A minha sogra falou: ‘Pedir a Deus que não pegue fogo na pilha de lenha que ia vender’. Diz que o meu pai falou pra ela: ‘Pode ficar sossegada que agora o fogo vai acalmar’. Eis que o fogo acalmou mesmo e acabaram de apagar o que estava aceso ainda – isso eu me arrependo não ter pedido de ensinar pra mim”.
Ser benzedor ou benzedeira é um dom ou é algo desenvolvido pela fé?
“Na época que ele pegou, o homem que benzia falou pra ele: ‘Eu vou passar pra você porque você é a pessoa certa que eu posso passar’. Eu acho que é um dom. Eu também já cheguei benzer novilha, cavalo, cachorro e tem sarado. A pessoa faz com fé. É muito bom que a impureza sai fora, vaza”.
A senhora sempre conviveu com essa prática de religiosidade e fé na sua família?
“Sim. Meu pai, ele falava que em cima da terra existe um poder muito grande e pra quem acredita em Deus e tem fé, ele consegue. Porque eu já tive AVC, foi um coágulo no cérebro em 2012.
Eu sai daqui e não me lembro de nada. Diz que eu lavei a área, eu vomitei – eu não me lembro de nada. Só lembro que tinha feito aniversário da mãe na véspera do Dia das Mães e eu falei pra ela: mãe, eu sei que amanhã não vem ninguém aqui na casa da senhora porque eles vieram hoje, eu vou vir almoçar com a senhora.
Mas eu tinha ido pra Olímpia (SP) e fazia três noites que eu não dormia direito. Eu levantei tarde, quando eu sentei na cama eu falei: nossa, já é tão tarde eu tenho que almoçar na casa da mãe – a única coisa que lembro.
Eles me deixaram em coma induzido e nessa época que eu estive em coma eu vi o meu pai sentado do outro lado da vidraça com um terno azul marinho, camisa xadrez – já fazia tempo que ele tinha morrido (2004). E você sabe que eu peguei uma força tão grande de ver ele. Quando eu acordei eu sentia muita dor na cabeça, mas eu estava animada, disposta e até falo que ele veio me curar. Ele sempre falava que em cima da terra existe um poder muito grande. Tem gente que não tem fé, não acredita em cura e benzimento”, disse.
Eu digo: A fé não se mede.
“Não. Nós vamos se salvar pelo poder da fé. Porque Nossa Senhora avisou que quem não tiver junto com ela vai perecer”, concluiu.
