Adriana Fonsaca e Marcel Menconi
No interior paulista, tríplice fronteira entre Holambra; a cidade das flores, Artur Nogueira; o berço da amizade e Cosmópolis; os caminhos de Goiases, encontramos o citricultor Jiancarlo Carmona. O tema da conversa com o citricultor foi sobre o atual cenário do mercado de citros que escapou do tarifaço dos Estados Unidos mas, não está livre da doença Greening onde, ano após ano, vem afetando a produção dos pomares citrícolas e dizimando quem se arrisca a produzir. As medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos contra produtos produzidos no Brasil, na prática tarifas de 50%, inviabilizam a comercialização desses produtos com os Estados Unidos – maior consumidor de suco de laranja brasileiro.
Jiancarlo afirmou que nasceu embaixo de um pé de laranja, por isso é um apaixonado, “A citricultura tem mais altos e baixos do que o normal, só que eu, um apaixonado por laranja, nasci debaixo de um pé de laranja, a família vive de laranja desde 1954, começou com meu avô João Ricardo Carmona Miras. Ele começou na laranja por causa do pessoal de Limeira (SP). Meu avô, nome espanhol Juan, o pessoal de Limeira falava ‘Juanito plante laranja que dá dinheiro’”, destacou Jiancarlo bem humorado.
Trazendo mais relatos da tradição da família ele acrescenta, “meu avô pequenininho, começou aqui onde estamos, foi o primeiro sítio do meu avô com laranja. Ele era plantador de mandioca, pouco de feijão para o consumo, vaquinha de leite e tal. Plantou um pouco de laranja e realmente foi fantástico, deu certo. O ganho dela é um absurdo, foi um ouro realmente. Uma pessoa com oito a dez alqueires conseguia viver muito bem, ele e a família se sustentavam”.
O panorama citrícola semelhante a um vagão nos trilhos de uma montanha-russa tomou rumo, “agora, trazendo para o mundo atual, vieram as crises, acredito no monopólio das indústrias, é pouca gente comandando muito produtor, aí, as coisas começaram a mudar. Houve concorrência com alguns outros países, os Estados Unidos virou um grande produtor de laranjas. Quem não se adequou às novas realidades, quem não procurou novas tecnologias, em 2002, 2003 apareceu o Greening que vem nos destruindo, é uma doença grave. Na nossa região, nos últimos anos teve falta de chuva, ajudou a aniquilar a produção e com preços baixos foi difícil continuar. Aqui onde eu moro o Greening chegou muito forte, começamos a ficar muito negativo mas temos propriedade fora daqui, em Capão Bonito, região sudoeste do Estado de São Paulo, divisa com o Paraná. Lá que está mantendo a gente vivo, embora não deixamos de tratar, de produzir, mesmo com dificuldade, investimos”.
Questionado sobre a motivação de investir em pomares na região sudoeste do Estado de São Paulo, enquanto a cultura se expandia para o norte do Estado, à medida que também aumentava a produção de laranja na região de Limeira, além de encarar desafios de produzir laranja em uma região desconhecida, Jiancarlo revela, “desde 1992 estamos na região de Capão Bonito, buscamos aquela região devido ao valor da terra. Naquela época, o preço de um alqueire aqui (Artur Nogueira) comprava 14 lá. Inclusive, compramos sítios formados com laranja muito mais barato do que terra crua aqui. Praticamente foram 12 anos conhecendo uma região diferente, chovia muito mais, era mais frio. A gente patinou quando deu a estrelinha – a podridão da flor, sofremos demais e fomos reinventando. Hoje é muito mais fácil produzir lá do que aqui. Inclusive o Greening é muito menos severo, só apareceu 12 anos depois. Aqui começou em 2002, lá os primeiros pés contaminados começaram a aparecer em 2014, uma severidade muito baixa, fomos erradicando, era bem mais fácil. Agora que o índice explodiu mais, estamos tentando conduzir por mais tempo, são muitos pés adultos produzem muito bem e, alguns pés que estão (contaminados) há dois anos, os galhos pararam de produzir, coisa que não acontecia. A severidade é bem menor devido a chover mais e o clima bem mais frio, acredito que a bactéria se desenvolve mais lenta. Se fosse 100% em Artur Nogueira, nós também não estaríamos mais com laranja”, diz.

Em 2024 o preço da caixa de laranja, caixa peso equivalente a 40,8 kg, alcançou valores históricos, nunca antes registrados, Jiancarlo enumera os fatores que contribuíram para alta de preços, “de anos péssimos, com preços ruins, com produção ruins mas se mantendo, trabalhando e vendo muita gente sair do setor, o ano passado a laranja começou a explodir de preços. Um preço que nunca ninguém imaginou e quando comparar com valores como dólares, compra de terra, preço de caixa ao longo dos anos, comprar veículos, nunca se existiu um poder de troca tão grande como foi o ano passado. E, todo mundo acreditava que seriam anos de ouro, fantásticos, dois, três, quatro anos. Muitos apostaram nisso e ganharam dinheiro fácil. Até aconteceu ano passado, da laranja começar a cair no chão e a indústria aceitou receber essa laranja de pouco rendimento, péssima em qualidade. Ela aceitou e começou a pagar caro por aquilo, porque era um ano de muito baixa produção. O produtor quase não teve perca em 2024. As primeiras laranjas da safra foram vendidas entre R$60 a R$70 a caixa peso. Foram aceitando tudo, qualquer caminhão que se mandava valia muito dinheiro. O preço foi escalando, escalando e, a própria indústria chegou a pagar durante um bom tempo entre R$100 e R$105 a caixa de laranja, o que dá mais de R$2,50 o kilo. É um valor que nunca houve na história. Foi incrível, fantástico e todo mundo achou que iria acontecer novamente, alguns produtores não se equilibraram no momento que podia, esse ano (o mercado) veio totalmente ao contrário. A laranja terminou a safra abaixando bastante, fechou o ano em R$60,00, mas tranquilamente a média foi acima de R$80,00”.
A safra 2024/2025 terminou em fevereiro, chegando a entressafra, de acordo com Jiancarlo a única opção foram as laranjas de variedades precoces e a reação das indústrias de suco causou surpresa aos citricultores. “A safra desse ano começou com a laranja caindo no chão, o produtor quer salvar catando e enviando para a indústria. É laranja ruim, não tem rendimento, a indústria começa a refugar. Tenho foto da minha laranja jogada na barroca porque não tinha cor, não tinha rendimento, não tinha qualidade e a indústria parou de aceitar. A laranja, que fechou o ano a R$60,00 veio para R$50,00 e já pagou até R$40,00. Sai por R$1,00 o kilo e ainda, não aceitava se não desse rendimento. Mas também ninguém tinha, não é uma laranja pronta. Estávamos com a memória do ano passado que podia levar qualquer coisa para a indústria que aceitaria. Qual foi a alegação da indústria? Eles tinham um tanto de suco ruim estocado ainda, de péssima qualidade, o consumidor final odiou o suco porque era horrível mesmo. Qualquer um que comprou suco o ano passado sabe disso. Não teve sabor agradável, nem qualidade. E, o mercado estrangeiro que é nosso maior consumidor de suco de laranja, não aceitou pagar caro sem qualidade. Trocaram o suco, passaram a consumir outro tipo mais agradável ao paladar, mais barato. Claro que não tem a qualidade do suco de laranja que é um alimento. Foi trocando, foi caindo o consumo e o preço veio lá pra trás. As indústrias não aceitam o fruto sem qualidade, então, não podemos culpar as indústrias pois, é um suco que não vale a pena, não rende, não tem sabor, então eles não aceitam. Aí sim, começaram as percas grandes, óbvio que isso ocorreu no período da entressafra, esperamos agora que começa a safra para começar a fazer dinheiro. Só que não fez, levamos praticamente 70 dias a mais para começar a colocar laranja na indústria e começar a receber, ou seja, depois da entrega esperar 40 dias para começar a receber”.

Preços baixos, laranjas no chão, refugadas pela indústria, 2025 começou com perdas para os citricultores, “Teve sim grandes percas, principalmente das laranjas precoces, elas demoram um pouco para ter qualidade e caem mais rápido da árvore, perdeu-se muita laranja, acredito que 100% das precoces, tivemos perda de 15 a 20%. É uma situação totalmente desfavorável para o produtor nesse momento, nesse ano e nessa safra”, afirmou.
É interessante Jiancarlo citar dados do comportamento do consumidor, mais um elemento a se considerar na prática agrícola, pois o consumo gera demanda. Embora ele não esteja negociando diretamente com o consumidor final, revela como essas informações chegam até o produtor.
“Realmente aconteceu do consumidor se deparar com um valor muito alto do suco de laranja, com um sabor muito ruim, o que fez ele trocar de produto ao longo de oito a nove meses, parcialmente o mercado externo. Essa informação foi repassada pelas indústrias para abaixar o preço mas também, era a percepção do mercado e dos citricultores que produzem suco. Tenho amigos que são produtores médios e grandes que fazem o próprio suco, eles falam que realmente aconteceu. Então, não é só uma informação industrial é uma realidade também do produtor”.
Jiancarlo cita as variedades de laranja cultivadas por sua família e quais os fatores que influenciaram quando chegou o momento da colheita. “O início da safra 2025/2026 foi efetivamente começo de julho quando a laranja deu um padrão mais aceitável. Produzimos as variedades hamelin, baianinha, vestin, pêra, valência, natal e folha murcha. A safra do ano passado não conseguimos ir até março, foi uma safra mais curta, uma florada em 2023/2024 foi adiantada, por isso a safra terminou no comecinho de fevereiro. Agora estamos bem atrasados na colheita, tivemos que retardar essa safra. Acredito que nossa safra será um pouco menor, embora a Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura) dizer que a safra nacional é maior, mas da minha família em si vai ser igual ou menor que o ano passado. O fato de atrasar a safra foi uma questão da natureza, depende da época da chuva da primeira florada, inclusive o ano passado a primeira florada abortou, aí veio a segunda florada que foi no começo de outubro, a primeira que costuma ser começo de agosto, junto das primeiras chuvas, deu errado. Então, temos mais esse agravante para nossa safra. Tudo isso é normal, o que não foi normal foi abortar tanta laranja da primeira florada, geralmente uma safra que chamamos de ruim é quando temos 50/50 – 50% de frutas da primeira florada e outros 50% da segunda florada. É normal até 60/30, esse ano foi no máximo 30% da primeira florada e 80% da segunda. Isso traz mais dificuldades como uma colheita mais cara, colhendo mais vezes e muito menos laranjas. Acredito que esse ano não será tão ruim, a laranja vai melhorar de preço na hora que começar a melhor qualidade. A indústria está precisando, não tem laranja sobrando no mundo para suprir o que o Brasil produz. Então, acredito que vai haver uma disputa para a laranja de melhor qualidade a partir do final de agosto, começo de setembro. Não tenho nenhuma informação sobre isso, mas é a velha posição do agricultor; vai ser melhor, esperamos que seja melhor”.

Tem um amigo que usa o termo ‘é uma tática de guerra’, eu gosto desse termo. Viver na citricultura é uma tática de guerra!” (Foto:Jornal Pires Rural)
Uma árvore citrícola sempre sofreu com pragas e doenças, parece até uma planta bomba sempre contaminada, depois de passar por grandes desafios nos pomares comerciais, atualmente o Greening está sendo o vilão, então, qual a idade útil de uma planta hoje?
“É muito difícil dizer isso mas, na região nossa eu diria que quem consegue trazer um pomar até aos 14 anos ele é campeão. O normal seria dizer que dura 20 anos, 25 anos, nós temos mas também, arrancamos pomares com 5 anos de plantio, esse tempo não pagou o custo, porque ele produz no terceiro e no quinto ano que ele alavanca. Hoje, com a doença alguns pomares no sexto ano estão 90% condenados. Hoje, se planta um pomar pensando em 14 anos de vida útil”.
Qual o mínimo de plantas em uma lavoura comercial, pensando no mercado in natura?
“Todo produtor pensa olhando dois mercados, ele foca no mercado interno, de frutas in natura que sempre tem um valor agregado e ele tem uma segunda opção, quando a laranja dá algum problema ou o mercado interno não está consumindo ou todo mundo produz ao mesmo momento, aí a indústria de suco é a saída para não perder. Se perguntar ao grande produtor qual é o mínimo de plantas para ele sobreviver, ele vai dizer que é 100 mil pés pra cima. Se perguntar a um produtor que só ele e a família cuidam, acho que com 20 hectares consegue sobreviver, o problema é quanto consegue produzir por hectare. Aí sim, pra conseguir ter lucro e sobreviver precisa no mínimo de 800 a 1000 caixas e volto a dizer nos custos, fica entre R$40 a R$90 para conseguir fazer um pé de laranja produzir, depende destes custos e também de quanto será o preço do valor da caixa”.
Falando em mercado externo, o suco de laranja ficou de fora do tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, ao Brasil. Isso ajuda os produtores de que forma e como se encontra a produção de citros em Artur Nogueira no momento?
“O suco de laranja ficar fora do tarifaço ajudou muito, é uma desculpa a menos para o preço ser baixo, uma desculpa a menos, é isso. Hoje o preço pago da caixa de 40,8 kilo é R$50, o preço que está correndo. O maior volume de produção vem em outubro, novembro e dezembro, a esperança é que melhore porque R$50 é um valor muito ruim, é bem difícil trabalhar com esse valor em nossa região, no geral é preço baixo. O custo é muito alto, a colheita, o transporte, produzir é muito alto. Manter um pomar em pé é muito caro”.
“Eu participei do CMDR (Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural) de Artur Nogueira por muitos anos e uma informação que doí no coração, é que em Artur Nogueira, há 20 anos atrás, existiam 274 produtores de laranja, com produção em Artur Nogueira economicamente ativo, que é a pessoa que emprega, além da família dele, traz pessoas de fora, diaristas, colhedor, tratorista. O ano retrasado haviam 4 produtores e, só nós com laranja em Artur Nogueira, são 150 hectares em Artur Nogueira e mais 200 em Mogi Mirim. Então, só sobrou a gente economicamente ativo, imaginem como foram difíceis esses últimos anos para a citricultura. A média da laranja nos últimos 15 anos foram ruins. Na média de 6 anos a laranja foi terrível”.
Não é difícil imaginar porque esses produtores saíram da atividade da citricultura, o principal problema foi Greening, correto?
“Isso! É por causa da doença. Em Matão e Araraquara onde começou o Greening, que é o nosso vilão, acabou a produção primeiro que aqui, depois ela chegou em Limeira, onde acabou, agora ela está em Mogi Mirim, está destruindo tudo. De três em três anos, quando ela começa, depois de quatro anos ela detona o lugar. Ela está andando, em Aguaí o pessoal está muito preocupado. Em outro extremo como Avaré o pomar está diminuindo 40% por ano de produção, igualzinho que aconteceu aqui. Aí, você não sabe o que fazer, dá um desespero tão grande com o pomar que produzia cinco a seis caixas por pé, 3 mil caixas por hectare, começa a dar mil caixas, depois 600, no outro ano só 200 caixas, isso acontece!! Não paga custo, realmente fica sem saber o que fazer. Nós passamos exatamente por isso há três anos atrás. Agora voltamos a estabilizar, conseguimos um tratamento melhor para Greening, são folheares melhores e a chuva ajudou”.
“Nós tivemos cinco anos de escassez extrema de chuva em nossa região, isso inclui Limeira, Artur Nogueira, Holambra, Mogi Mirim, além da seca que já é mal, a bactéria do Greening criou mais força, judiou mais das plantas devido a seca. Juntou dois fatores agravantes, cruciais para a produção”.
Diante dessa montanha-russa trilhando pelos caminhos antes da porteira e depois da porteira, o futuro que você enxerga do setor citrícola tem alguma carta na manga?
“Em Araraquara e Matão que foi o primeiro lugar que deu o vazio sanitário, como eles chamam, o pessoal está voltando a produzir. Só que aqui nós temos um agravante enorme, incluindo Limeira, Mogi Mirim, Jaguariúna e Campinas, nós temos os chacareiros, muitas chácaras, muito pezinho de limão, de lima, de laranja baia e sem cuidados isso destrói a plantação comercial”.
“Somos obrigados a acompanhar o andamento das pesquisas sobre o Greening, para se manter no setor. Mas não é só isso, vemos que a luta é enorme dos pesquisadores, dos produtores, é bonito de ver, tem um amigo que usa o termo ‘é uma tática de guerra’, eu gosto desse termo. Viver na citricultura é uma tática de guerra!”
“O que imaginar foi feito; pulverização toda semana, dobrar a dose de fertilizante, dobrar a aplicação folhear, quintuplicar as pulverizações, nada foi efetivo 100%. Então, é um conjunto de tudo isso que melhora um pouco”.
“Os norte-americanos, é difícil um povo mais avançado do que eles, que pesquisa mais do que eles, a laranja também é uma vida deles. Tem recursos, tem incentivos e os números do país saiu de uma produção de 200 milhões de caixas de laranja, há 25 anos atrás, para 15 milhões de caixas nos últimos anos. E, fizeram alguns pomares com novas tecnologias e não conseguiram ter êxitos, o Greening venceu todos. O Brasil é o que mais vem se superando e consegue produzir, mesmo com o Greening efetivo. O pessoal fala que o brasileiro é perspicaz, ele foi mais longe, saiu dos pólos mais contaminados, mas vencer, ninguém venceu o Greening até agora. Não existe um remédio, uma cura, nada. É um conjunto de atitudes que leva ao resultado um pouco melhor”.
“A laranja hoje, é um núcleo bem pequeno, bem afunilado, tem poucos novatos e aventureiros. Quem ficou foram aqueles que produzem há anos, quase todos desse meio se conhecem e mantém conversas. Foram muitas dificuldades, aqueles que ficaram foi quem se reinventou, baixou custos, quem plantou fora das regiões problemáticas, quem pode irrigar, quem buscou fazer diferente, esse ficou vivo. Fazer diferente inclui baixar custos, diminuir riscos dentro da propriedade, trabalhar com outras tecnologias, talvez mudar as variedades das plantas devido a produção no espaço de tempo. Por exemplo, nos últimos 4 anos ter variedade de laranjas precoces foi incrível, esse ano está horrível. É uma história longa quem teve sorte e visão buscou fazer diferente, conseguiu continuar com menos dor e menos prejuízo”.