Adriana Fonsaca
A conversa sobre a Comunidade Santa Cruz, bairro rural dos Correias, Engenheiro Coelho (SP), aconteceu com Noé Francisco Bueno de Oliveira e Vera Benvenutto de Oliveira, na Igreja Santa Cruz.
A indicação de Noé para a conversa aconteceu por ele representar uma, das três famílias que compunham a comunidade no passado. “A minha família é daqui desde o meu tataravô. O bairro tem o nome Correias porque o meu tataravô era Bueno de Oliveira, mas tinha o apelido de Correia – o porquê eu não sei; isso é uma coisa dos antigos. Aqui só tinha as famílias: Bueno de Oliveira, Bueno de Camargo e Napoleão Pereira; basicamente três famílias.
O João Correia, meu tataravô, teve dois filhos homens e quatro filhas mulheres. A Maria, a Ana é a bisavó da Eva, mãe da minha avó. O pai era Porfírio Bueno de Camargo que ficou com essa parte de terra e começou a comunidade. Então, a capela, que eu sei, o começo tem uns 130 anos – pelo o que meu avô falava. Essa aqui é a terceira capela que foi feito”, contou Noé.

A construção da capela no bairro motivou algumas mudanças no terreno e atingiu também a estrada principal. “A primeira estrada do bairro passava pelo lado de baixo da capela, hoje não tem nem sinal, eu não conheci – pode ver aquela baixada ali, era o sinal da estrada velha. Quando Porfirio Bueno de Camargo construiu a primeira capela, a estrada era pro lado de baixo (hoje é pro lado de cima). Porfírio Bueno de Camargo que era o dono da terra, teve um filho, Porfírio Bueno de Camargo Filho que construiu a segunda capela no começo dos anos 1940. A construção era totalmente diferente dessa atual, era pequenininha; tinha um coretinho que ficava alto do chão e quando fazia festa, vinha banda de música pra tocar. Era uma capela bonita, tinha uma torre, o sino ficava em cima. A capela também foi usada como escola. A segunda capela foi derrubada e começou ser construída a terceira em 1972 – foi o meu pai que fez. A escola aqui do lado (da igreja) foi construída antes da terceira capela. Quando foi construída a terceira capela, a propriedade era de Eufrosina, filha de Porfirio Bueno de Camargo que doou o terreno”, explicou.
Eu perguntei: O bairro dos Correias foi um bairro populoso?
Vera responde: “Nossa!”.
Noé complementa: “Agora é o contrário: tem muita casa e pouca gente. Aquele tempo tinha poucas casas e bastante gente”.
Vera traz recordações de um bairro populoso: “Teve uma missa de Domingo de Ramos que eu vim – eu ainda não participava – encheu a capela e ficou todos em pé, ali fora. Vinha um ministro de Engenheiro (Coelho) fazer a celebração no tempo do padre Odirlei”.
“O que foi acontecendo, é que tudo aqui em volta, naquela época, era tudo parente que era descendente desse povo (famílias Bueno de Oliveira, Bueno de Camargo e Napoleão Pereira). Hoje, o que está aqui, que é descendente desse povo: aqui em cima o Verginio e as irmãs dele na terra que o avô dele que doou; eu ali na frente; o rapaz da fábrica de doces, que é descendente de uma dessas famílias. A Vera Benvenutto de Oliveira é de Artur Nogueira e o marido dela é do bairro”, contou Noé.
Ele faz uma comparação do bairro Correias com o bairro vizinho, Mato Dentro, que perdeu moradores e consequentemente a sua comunidade Santo Antônio. “Tem outro bairro vizinho, o Mato Dentro que tem uma capela que está desativada, abandonada há muitos anos e chama capela de Santo Antônio”, disse Noé.
Vera descreve a situação da capela vizinha: “Ela é tão velha que tem cupim desse tamanho dentro”.
Noé acredita que o mesmo pode acontecer com o seu bairro: “É o mesmo problema daqui, o povo das famílias ali de volta da capela acabou, é pouco. Tem muita casa em volta, mas é gente de fora que não tem nada a ver com a capela”.
Vera conta sobre os fiéis que participam da missa na Santa Cruz: “Aqui vem gente na missa de fora e não do bairro, é impressionante! Né Noé?”, Vera pergunta.
Noé revela que não participa da missa: “Tem missa aqui, eu não venho. Daqui, quem vem?”.
Eu perguntei: As pessoas vem de outras comunidades para participar da missa?
Vera responde: “O cantor vem com o carro cheio de gente de Arthur Nogueira (SP)”.
Noé justifica a sua ausência na missa: “Eu tocava na missa, agora eu parei. O meu pai tocava, as minhas irmãs todas tocavam na missa. Ele (pai) estava bem de idade e doente, e falou: ‘Olha gente, se ninguém, os novos, não se interessar, vai parar porque eu já ando doente e não sou eterno’. E ficou muitos anos. Daí eu toquei violão por um bom tempo. A Vera, a Gisleni Boer do Prado e a Lourdes Batista Boer cantavam, mas a gente vai cansando e pra ele (cantor) é mais fácil, porque em Artur Nogueira todo final de semana eles estão na missa tocando”.
Eu perguntei: Por que escolheram a Santa Cruz, a padroeira para a comunidade?
Noé respondeu: “Eu acho que era a devoção do meu tataravô, bisavô. A primeira cruz da comunidade foi trocada, era uma cruz baixa do tamanho da gente – daí puseram uma cruz de madeira grossa, tinha um acabamento em cima. Essa atual, aqui de fora, foi colocada no ano 1989, quando teve as Missões Redentoristas – eles instalaram uma cruz em cada bairro por onde passaram. Teve um missionário que ficou na minha casa, o Luis Carlos, do Paraná. Eles faziam o seguinte: acho que todo dia tinha uma celebração e também iam de casa em casa”.
Vera complementa a resposta de Noé: “Em 1989 foi o ano que eu me casei. A segunda vez das missões aqui, em 2004, veio o padre missionário Redentorista Renato e ficou hospedado por uma semana na casa da Gi Boer. No encerramento foi feito uma procissão e instalou essa cruz feita pelo Antônio Mestriner”.
Em 2004, veio o padre missionário. A sua atuação foi diferente comparado à missão de 1989?
“Foi diferente. Em 1989 vieram os três”, disse Noé.
Vera respondeu: “Na segunda, eu passei nas casas perguntando se eles aceitavam ou não participar, se era católico ou crente. Aí, fez um grupo. Nós fizemos uma novena passando pelas casas no bairro. Quando terminou a novena teve as missas aqui na capela. Esse padre missionário só visitou os doentes. E, cada missa representava uma coisa, uma vez ele benzia o sal, depois ele benzia a chave da casa, outra vez ele benzia os santos. Uma vez ele fez a benção dos casamentos. Ele ficou por uma semana e no último dia reuniu todos na paróquia Santa Rita de Cássia, em Artur Nogueira. A comunidade ficou um tempo pertencendo pra Engenheiro Coelho, passou pra Artur Nogueira e depois voltou pra Engenheiro Coelho. O padre Odirlei Marangone reabriu e depois passou pro padre Elcio Roberto Medeiros porque era mais perto da paróquia Santa Rita (Artur Nogueira). Passou aqui também, o padre José Antônio Alves e veio o padre LázaroGabriel Lourenço. O padre Lázaro foi fazer uma cirurgia e na sua recuperação ele conversou com o padre Reynaldo Ferreira de Melo da matriz São Pedro de Engenheiro Coelho e passou a Santa Cruz aos seus cuidados e dedicação”, explicou Vera.

A comunidade sempre se manteve na fé e se dedicavam muito em prol da Festa de Santa Cruz que atraía muitas famílias.
“O dia da Festa da Santa Cruz é 14 de setembro. Àquele tempo, não sei porque, fazia a festa em maio e junho. Depois passou a fazer a festa em 14 de setembro com procissão e missa. Em 1985, passou a fazer romaria de cavaleiros – hoje, não tem romaria nem Festa de Santa Cruz. Quando eu conheci as primeiras festas, aqui falava-se lista (de prendas), daqui mandava lá pra comunidade do Taperão, do Mato Dentro e o povo saia arrecadando”, disse Noé.
Vera mostra o Programa da festa de 1957.
Noé apresenta os nomes da comissão organizadora da festa. “O povo que está aqui é tudo falecido: Agostinho Levi era meu primo; o Israel primo meu e do Agostinho; o Paulino Bueno de Oliveira primo; o José Bueno de Camargo é da família”.
O que diz o cartaz convite para a Festa de Santa Cruz no dia 11 de agosto de 1957:

Na procissão levava a Cruz a frente, Nossa Senhora Aparecida e o São Benedito. Vera conta sobre as romarias: “As últimas festas que teve romaria era um cortejo de três camionetes levando três santos: São Benedito, Santa Cruz e Nossa Senhora Aparecida”.
Noé descreve o cortejo: “Saia, ia até a capelinha de Nossa Senhora da Conceição e voltava, dava prosseguimento na festa com o leilão – aqui do lado, no lugar da segunda capelinha, era à noite sem energia elétrica, iluminava com lampião a gás”.
Ao lado da igreja tem a escola do bairro onde Noé estudou. Mas nem sempre foi assim, quando o bairro não tinha uma escola, as crianças estudavam dentro da capela.

“Eu fiz o primeiro, segundo e terceiro-ano nessa escola. Quando eu fui fazer o quarto-ano, eu fui na escola da Ponte de Tábua, porque daí reuniu tudo pra ir lá num lugar só – a gente ia a pé. Minha irmã estudou aqui o terceiro-ano quando inaugurou, depois de estudar dentro da capelinha. A prefeitura de Artur Nogueira construiu a escola do bairro, na época, o prefeito era o Jacob Stein – legislou a cidade em 1961 e em 1969. Quando fez o alicerce dessa terceira capela, também era ele era o prefeito. Um dia ele veio aqui, a turma foi lá pedir pra aterrar a barroca que dava pro córrego, na estrada antiga do bairro. Antigamente, o meu avô falava que quando ele conheceu essa estrada (dos Correias) era uma estrada que ligava Limeira a Mogi Mirim, você acredita? Ela saia aí, descia, passava dentro do sítio do Mariano; depois pelo sítio do Verginio Boer Neto, perto da casa do Leonardo Boer, ali; descia e saia lá na Parada (bairro Barreiro Farto, Artur Nogueira) pelos Ortiz e ia embora. Disse que o povo ia pra Limeira e Mogi Mirim por aqui – era um trio, coisa de mais de 100 anos atrás”, contou Noé.
O prefeito Jacob Stein atendeu o pedido da comunidade para o aterro da barroca e mandou as máquinas, o caminhão com a turma da prefeitura – hoje a antiga estrada não existe mais.
“O Jacob Stein veio aqui e ficou o dia inteiro na comunidade. Acredita que ele almoçou com a gente na escola? A professora era a dona Maria Miranda de Mogi Mirim (SP). A minha primeira professora foi de Conchal. Tinham muitas escolas (nos bairros rurais) no município, então precisava vir professora de fora; tinha escola no bairro Mato Dentro, no bairro Taperão, no Casimiro, no Pinheiro e no Palmeira. Na (construção da) primeira e segunda capela não teve terraplanagem. Aqui tinha um barranco e as capelas ficavam abaixo do tereno. Quando derrubou, terraplanou, ficaram sem capela. Daí usava a escola para as atividades da igreja, inverteu. Ficou por uns três anos construindo a terceira capela. Como eu estava falando pra você dos prefeitos, era mais fácil de mexer (com os políticos). Hoje, se precisar fazer isso, meu Deus”, disse Noé.
O exemplo do que aconteceu no bairro dos Ortiz e a capelinha de São José, é trazido por Vera: “No ano de 1990, o padre Lázaro celebrava lá na escolinha da Ponte de Tábua. Antes disso, eles queriam fazer uma capela de São José porque tinha uma lá nos Ortiz”.
Noé complementa a história: “No bairro dos Ortiz é um povo antigo, até pelo que eu fiquei sabendo esses dias – quando precisou mexer num negócio lá em Artur Nogueira com os parentes -, esse povo dos Ortiz é parente e eu não sabia. É um povo antigo, ficava ali na torre da rádio, o lugar já virou cidade”.
Ao concluir o que estava dizendo sobre a capela dos Ortiz, Vera diz: “Então, tinha uma igrejinha lá que o padroeiro era o São José, aí caiu. O São José está aqui na Santa Cruz. Daí, eles começaram falar de fazer uma capela nova. Meu marido deu um pedacinho de terra pra fazer – a vó Benedita de Oliveira doou de boca. Até fizeram uns bingos, umas coisas, mas abandonaram porque já tinha (a comunidade) aqui – o santo continua aqui”, conclui Vera.