Adriana Fonsaca |||
Helena Ribeiro de Mello me recebeu na Comunidade São Judas Tadeu, bairro rural Campo Alegre, Limeira (SP) para uma conversa sobre a sua devoção, dedicação e cuidado naquele local desde que ela e seu esposo João Batista Ribeiro de Mello receberam as chaves da igreja em 1985.

Esta é mais uma matéria, fruto de uma série, referente às comunidades rurais católicas com o objetivo de fazer um recorte na história oral de quem participa, colabora e vive a comunidade. O intuito é não restringir o conteúdo da matéria apenas aos fatos históricos.
Nas entrevistas é possível resgatar as transformações econômicas, sociais e educacionais ocorridas naquele local. Muitas delas, marcadas pelas dificuldades do esvaziamento populacional como consequência do desenho urbano brasileiro.
A região do bairro rural Campo Alegre onde está instalada a Comunidade Rural São Judas Tadeu é conhecida por suas fazendas, uma das mais importantes para a história de Limeira é a Fazenda São Jerônimo que pertencia ao Senador Francisco Antonio de Souza Queiroz, ele foi casado com Antônia Eufrosina de Campos Vergueiro, filha do Senador Vergueiro, pioneiro na implementação de mão de obra livre no Brasil, ao trazer os primeiros imigrantes europeus para trabalharem na Fazenda Ibicaba e na Fazenda São Jerônimo, “localizada nos limites do município da Vila de Limeira com Mogi-Mirim”.
Helena me conta que a vida em comunidade sempre aconteceu naquela região, pois seus pais Carlos Cláudio e Silvina Pinheiro tinham propriedade próximo à Fazenda São Jerônimo. Uma família católica sempre presente nas missas celebradas na igreja da fazenda.
Além da família recorrer a alguns serviços disponíveis na fazenda como atendimento médico e odontológico (particular), realizar compras no armazém e na farmácia; seus pais mantinham muitas amizades ali na colônia. “Meu pai fez muitos amigos lá. Ele vinha ali no jogo de bola, no campo de futebol na Fazenda São Jerônimo. Todo domingo ele vinha no jogo e participava na missa também. A vida em comunidade era na fazenda e tudo o que precisava tinha lá. A gente morava em sítio, e onde eu morava, era a mesma distância da Fazenda São Jerônimo e a distância quase aqui da Colônia Saíra (Usina Orlanda) – a escola que eu vim, foi aqui. Eu fiz a catequese aí, onde era o armazém aquele tempo”, afirmou.
Eu pedi para que me contasse como foi a sua infância.
“Com nove anos de idade, eu saía da escola e ia cortar cana – chegava em casa, o facão já estava amoladinho (risos). Meu pai dava a lima, a enxada e o facão na minha mão. E hoje, quem dá? Jamais!
Eu mesmo amolava o meu facão. Eu não via a hora de chegar da escola, mudar a roupa, pegar o facão e ir trabalhar. Eu gostava de trabalhar e gosto até hoje. O pai trabalhava no sítio. Ia pro canavial depois da escola, cortava a cana, amarrava um fecho – o homem que mandava juntar e amarrar umas dose canas em cada feixe, dez; conforme o tipo da cana, né. Se a cana era mais forte colocava menos. Ali tinha mais gente trabalhando, por isso que eu conheci muita gente lá; inclusive as mulheres que moravam na colônia da São Jerônimo – elas eram mais velhas do que eu. A gente trabalhava de meeiro. Pra usina, mesmo, nunca cortamos cana. Trabalhamos pra pessoas que plantavam cana pra fornecer pra usina. Chegava à tarde, na hora de vir embora, o que é que eu fazia? Pegava a foice (risos) e ia limpar as folhas (risos), eu deixava um eito limpo pra quando eu chegar da escola no outro dia, eu cortar (risos)”.
O trabalho no corte de cana iniciado na infância foi a sua profissão.
“Depois que liberou a cana pra não amarrar mais, aí você cortava as braçadas – não pegava mais dez canas – se desse, você podia pegar vinte canas. Aí, cortava com o facão toda aquela touceira e levava lá no monte – o exercício que fazia! E, eu levava aquele montão de cana lá no monte! O meu pai tinha uma pequena propriedade então, fora do período de safra nós plantávamos cana por dia pra esse senhor que levava a cana pra usina – e não tinha registro, não tinha nada. Eu trabalhei sem o registro em Carteira de Trabalho a vida toda. Eu fiquei atrasada nessa parte (dos direitos trabalhistas). Eu aposentei por tempo de serviço. Quando eu me casei com o João Batista Ribeiro de Mello, o meu marido trabalhava com turma que plantava cana também (no mesmo sistema), era meeiro para os irmãos Vilmar e Oscar Cassarotti. Ele e os irmãos trabalhavam juntos, eles tinham empregados pra cortar cana, ele me registrou. Então, eu só tive o registro do tempo de serviço depois que eu me casei aos dezoito anos. Na época da colheita da cana, tinha que ter o caminhão pra trazer a turma pra trabalhar. Meu marido tinha o caminhão pra transportar cortadores de cana, e também tinha o rapaz que era da cidade que trazia a turma pra trabalhar. E, continuei cortando cana a vida inteira. Levantava bem cedo, cozinhava a comida no fogão de lenha, pra levar de marmita. Tive meus filhos, pegava pra esquentar o chá de noite, rasgava a palha – acendia o fogo. Colocava o chá no canecão – o chá já estava pronto -, pra amornar, pra pôr na mamadeira e dar pros meus filhos. Não tinha energia elétrica, mas a gente era feliz e não sabia. Porque eu saía, andava sozinha longe. Se precisava ir lá na Fazenda São Jerônimo a pé, buscar remédio, outras coisas, eu ia à noite. Vai hoje. Nossa! Mudou muito”.

O sogro, José Ribeiro de Mello era muito católico, rezador, capelão – ele rezava o terço nas casas desde quando a família morava perto da usina São João, em Araras (SP). Eu peço que me conte um pouco sobre o seu sogro.
“Nossa! (ela disfarça a emoção) Contar dele? Pra mim, ele era uma ótima pessoa (risos), é uma satisfação falar dele – uma educação maravilhosa. Ele criou os filhos tudo na fé. Ele rezava o terço todo dia à noite. Quando eu casei, eu ia lá rezar o terço com ele. A gente ajoelhava, todos juntos em volta da cama pra rezar o terço – lá, ele tinha os santinhos dele. Depois que a gente teve o primeiro filho, já foi separando, porque aí tava chorando, tava não sei o que. Ele continuou rezando o terço. Eles iam mais na missa na usina São João, daí eles mudaram pra cá pra trabalhar nas terras dos Cassaroti e começou trabalhar de meeiro. O meu sogro fazia as compras no armazém da Fazenda São Jerônimo para todos os filhos e trazia com a carroça. Eu ia buscar as coisas (alimentos) na casa da minha sogra. Depois que eles foram crescendo mais as coisas, eles foram conseguindo dar um dinheirinho por mês pra cada um e dai nós fazia as compras. Uma família simples que ensinou bem os filhos a trabalhar e eles foram seguindo, aumentando um pedaço de terra aqui, outro ali, foram crescendo com Deus sempre junto. Graças a Deus! E a gente ensinou os nossos filhos assim”.

Helena e João perderam o primeiro filho. A mãe contou sobre a dor que ainda consome o casal.
“São dois filhos vivos, o primeiro faleceu com um ano e meio, de pneumonia dupla. A gente morava ali no Cassarotti. Aquele tempo, a gente estava casado de novo e meu marido puxava toco de eucalipto que a turma arrancava – ele punha no caminhão pra fazer o frete e levava longe. Eu fui buscar remédio pra esse menino, Luis Carlos, lá no São Jerônimo. Deu febre muito forte nele e mesmo com o remédio não passava. O meu marido falou: “Vamos levar no hospital. Levamos no Hospital Humanitária, internou ele, mas não teve jeito. Daí, nós tiramos ele de lá e levamos pra Americana (SP). Lá, o médico falou: “Se chegasse uma hora antes, eu salvava ele. Eu vou dar uma injeção, se ele aguentar 24h, ele está salvo”. Mas não aguentou. Nem 12h ele aguentou – uma judiação. Eu cheguei em casa, o bercinho dele, muito triste. Não é fácil não, perder um filho. E, eu tenho saudade, porque eu tenho o casal de filhos comigo, e eu quero ver ele também. Mas eu não consigo, né. Só quando eu morrer, se Deus der a permissão. Fazer o que? Se aquele tempo, que nem fosse hoje, a atividade minha de hoje: eu dirijo e tenho carro, eu socorria ele. Mas aquele tempo todo mundo trabalhava, todos iam a pé na roça. Como é que eu ia socorrer ele, uma criança? É isso que eu falo: meu marido tava trabalhando, todos eles, porque precisava daquele dinheiro. Era desse jeito, era pobre e não tinha nada. Então lutamos. Hoje a gente tem alguma coisa, não somos ricos não. É o que eu falo, tem que aproveitar um pouco, porque o que nós fizemos nessa vida”.

Eu perguntei: Como a senhora foi se envolvendo com essa comunidade?
“Eu nunca deixei de ir na igreja – nem meu marido. Nós, eu e uma amiga, a Lourdes Viola Roberto (já falecida), vínhamos na missa quando a igreja era ali (aponta para uma edificação que fazia parte da extinta Colônia Saíra da Fazenda Orlanda, bem de frente a igreja São Judas Tadeu). Aí, chegou um dia que o rapaz que tomava conta falou pra nós: “Hoje, vocês vão ler”. Deu a leitura pra mim. Aqui (pescoço) fazia assim (tremia); parecia que ia sair pra fora. Assim começou: nunca perdi missa. O meu filho, José Claudinei, fez a primeira comunhão nesse lugar. Era uma colônia bem movimentada, mas o povo participava pouco da missa, mesmo não tendo várias religiões aquele tempo. A escola da colônia tava sempre cheia de crianças. Os meus filhos estudaram aqui, eles vinham a pé. O Claudinei era muito apegado comigo, sabe? Aí, eu trazia ele na escola e ficava na porta esperando, por uma semana. Ele olhava no vitrô pra ver se a mãe tava lá. A mãe tava. Na sexta-feira daquela semana, a professora combinou comigo: ‘A senhora se esconde e eu vou falar pra ele que a senhora precisou ir embora porque a irmãzinha dele estava chorando’. Assim ela fez. Eu tinha uma menina pequena que ficava com a minha sogra. Daquele dia em diante, ele ficou sozinho. Depois eles estudaram no Sesi, em Limeira -, eles pegavam o ônibus no Posto Santa Luzia (para chegar até a escola)”.
O industrial Emanoel Rocco, proprietário da Usina Orlanda construiu a Capela São Judas Tadeu no terreno em frente a colônia de moradores. A inauguração aconteceu em 29/05/1982, com missa celebrada pelo Monsenhor José Machado Couto.

“Quando o Emanoel Rocco inaugurou a capela, fechou o local onde tinha as celebrações na Saíra. Os donos daqui, Emanoel e a dona Teresinha, eram muito católicos. Ele fez a construção da igreja. O barracão de festas, os três irmãos (esposo e cunhados) construíram junto com a vizinhança dos bairros Santa Helena, Campo Alegre e do Sítio Santa Maria. O falecido Laercio, que tomava conta da igreja na Saíra, veio tomar conta aqui na Comunidade São Judas Tadeu, mas foi por pouco tempo. A primeira missa que foi celebrada, eu e a Maria Izabel Feltrin Ribeiro de Mello viemos e ficamos aqui na escada – tinha bastante gente, mas nós não entramos. Durante a primeira missa tocou aquela música (católica) A Barca (Tu te abeiraste da praia), foi tão bonito e muito emocionante essa música, eu não me esqueço (seus olhos brilham ao recordar o momento). Entrou a Sandra pra tomar conta, ficou por pouco tempo também. O padre Antônio Cândido Vasques da Paróquia Nossa Senhora Aparecida ficou com as chaves na mão”, contou.

Eu perguntei: Quando e como foi o convite para a senhora tomar conta da comunidade?
“Nós vínhamos na missa como sempre, e assim foi o nosso chamado: durante a celebração, o padre falou assim: ‘Eu quero chamar esse casal ai pra vir aqui’. Ficamos todos nós sentados. Ele falou umas três vezes. Aí, o meu marido fez assim (se referindo a si mesmo). O padre falou: ‘Vocês dois venham aqui’. Diante de todos, disse: ‘De hoje em diante, essa chave vai ficar com vocês’”.
Eu perguntei: Como a senhora se sentiu?
“Nossa! Como não falar o sim? Nossa Senhora disse o sim! Como eu podia falar não (risos)? Pegamos a chave pra tomar conta da igreja. Estamos até hoje. Foi assim o chamado de Deus. Dá dó de parar, mas todo mundo fala: ‘Para, para’. Meus filhos falam: ‘A mãe está cansada. Pode ir na missa, mas para’. A gente pensa, né”.
O casal ficou com a responsabilidade de tomar conta e administrar a comunidade. A estrutura física entregue era somente a capela e, a coleta da missa não garantia o caixa para as despesas nem o investimentos que gostariam de fazer.

Perguntei: O que vocês fizeram para arrecadar dinheiro para obras na comunidade?
“Fizemos a primeira festa ali (aponta para o gramado). A gente não tinha como tocar isso aqui, porque a gente era pobre e a coleta das ofertas da missa era muito pouco. Mas o meu marido comprava tudo o que precisava, principalmente os folhetos para a missa. Resolvemos fazer a primeira festa. Esqueci de trazer o sal (risos) pra fazer a pipoca. Fazíamos barracas de bambu porque não tinha o barracão, as formigas comiam os pés da gente. Quando chovia, o encerado era rasgado então, a gente afastava o fogão pra goteira não cair em cima. E colocava o fogão pra lá, colocava o fogão pra cá. O padre Benedito Tadeu Rosa foi o primeiro padre a vir fazer a festa aqui, ele ficava na minha casa. Durante a festa ele ficava em cima de um caminhãozinho fazendo os sorteios, ele era muito animado para esse tipo de evento. As prendas foram doadas. A salsicha chegou na última hora, que nervoso! Nós fritamos um saco de batatinhas no fogão caseiro. Vinha todo o povo da redondeza aproveitar a festa. Nós mesmos enfeitávamos o andor, levantava cedo e ia catar as flores nos jardins. Um dia, colhemos palmas tão lindas! E caiu as palmas (risos) do andor. Eu falei pro meu cunhado: pelo amor de Deus! Vai lá e arruma as palmas, se não, eu vou embora daqui (risos). Ele foi lá e arrumou – eu já estava quase chorando. A aste da palma é muito cumprida e a gente não tinha muita noção pra montar arranjo floral. A gente não pagava por nada, levantava cedinho, eu com a Maria pra cuidar de tudo, pra economizar. Assim fomos fazendo os trabalhos. Pra fazer a construção do salão de festas o povo ajudou”.

A comunidade teve catequese, mas hoje não tem mais crianças para preencher as vagas. Chegou a ter reunião para os jovens. Foram celebrados casamentos e batizados. Segundo Helena, a participação na comunidade diminuiu porque as famílias se mudaram por causa das dificuldades para estudar as crianças. “Os novos que éramos nós, somos os de maior idade hoje. A colônia da Saíra se esvaziou há uns trinta anos. Mas a comunidade da colônia sempre foi tocada pelo pessoal de fora – eram muito pouco os moradores que participavam. Tudo o que eu fiz aqui, eu nunca perdi uma missa. Eu deixei de ir às festas dos meus netos ali no Centro Rural do Pinhal – eu nunca participei. A Maria é a minha companheira que nunca deixou de vir, pra cantar na missa. Ela que sempre cantou e eu precisava vir pra tomar conta da igreja. Agora a dona Rosa veio se dedicar ao canto aqui na comunidade, graças a Deus! E também temos uma nova ministra, a Daniele Pagagneli. E tem um povo que está ajudando, fazendo as compras. Aos poucos o pessoal está assumindo”, concluiu.
